Durante boa parte da carreira de Mads Peter Heide-Jørgensen, procurar grandes baleias na costa leste da Groenlândia significava olhar para um mar quase interditado. O gelo chegava primeiro. Espesso, persistente e levado pelas correntes, fechava a passagem.
Biólogo marinho há décadas e hoje professor do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia, Mads começou a observar um fato interessante: as baleias estavam chegando. Sem qualquer registro de jubartes nos levantamentos entre 1987 e 2001, a região passou de sete avistamentos em 2007 para mais de 150 em 2024.
A muralha desaparece
Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Frontiers in Marine Science estudo na Frontiers in Marine Science, liderado por Heide-Jørgensen, reuniu levantamentos realizados desde 1987, censos aéreos e o rastreamento por satélite de 15 baleias entre 2019 e 2025.
Os pesquisadores descobriram que, depois dos anos 2000, houve uma mudança abrupta no gelo marinho que chega à costa leste da Groenlândia. No verão e no outono, áreas historicamente bloqueadas passaram a permanecer cada vez mais livres de gelo.
Ao mesmo tempo, a temperatura média do mar no verão aumentou cerca de 1°C desde o fim dos anos 1990. A combinação abriu uma espécie de corredor para animais de águas mais temperadas avançarem rumo ao norte.

O fenômeno acompanha um processo de aquecimento global e perda de gelo que já transforma a Groenlândia e outras regiões polares. O recuo dessas massas congeladas pode ter consequências muito além do Ártico.
As baleias aproveitaram a passagem. Jubartes, baleias-fin e baleias-minke passaram a ocupar quase continuamente uma faixa entre 60° e 70° norte, chegando a regiões que ficam acima do Círculo Polar Ártico.
Quinze mil gigantes
Os censos aéreos permitem estimar a dimensão dessa invasão silenciosa. Em 2024, havia aproximadamente 3,9 mil jubartes, 5,2 mil baleias-fin e 6,4 mil minkes na área estudada da Groenlândia Oriental.
Somadas, são mais de 15 mil grandes baleias durante o verão. E, em agosto de 2025, pesquisadores encontraram concentrações extraordinárias na costa de Blosseville: grupos com 20 e até 50 animais aparecendo juntos.

O outro lado
A mudança também não significa que o aquecimento esteja simplesmente criando um paraíso para baleias. O estudo descreve o fenômeno como parte de uma “borealização” do ecossistema, na qual espécies associadas a águas menos frias avançam para o Ártico.
Conforme as águas árticas começam a esquentar e áreas historicamente cobertas pelo gelo desaparecem, esses animais conseguem expandir seu território e acessar zonas de alimentação antes praticamente inacessíveis.
Para Heide-Jørgensen, portanto, as milhares de baleias que agora ocupam a costa funcionam quase como testemunhas vivas de uma mudança de era. Onde durante séculos havia uma barreira branca, o verão deixou um mar aberto.
E os gigantes entraram.
Autor: Luiz Dias






