Uma comunidade de pescadores do sul da Baja California, no México, tomou em 1995 a decisão que mudaria para sempre o destino de Cabo Pulmo: parar de pescar. O objetivo era salvar o único arrecife de coral do Golfo da Califórnia, devastado por décadas de pesca industrial, comercial e esportiva. Três décadas depois, o resultado é um dos casos de recuperação marinha mais estudados do planeta, com o icônico “torbellino” de milhares de jureles voltando a girar sobre o recife.
A mudança começou quando moradores e pesquisadores da Universidade Autônoma de Baja California Sur perceberam que tubarões, meros e pargos estavam desaparecendo. Juntos, propuseram um decreto que transformou a área em parque nacional marinho, proibindo qualquer tipo de pesca dentro dos seus limites.
Como o arrecife voltou a florescer?
O efeito foi rápido para os padrões da natureza. Em pouco mais de uma década, a biomassa de peixes no parque cresceu mais de 400%, o maior aumento já registrado em uma reserva marinha no mundo.
Espécies de tubarão que quase haviam sumido reapareceram: eram apenas três nos anos 1990, hoje somam 14. Tartarugas, raias e até baleias-jubarte passaram a frequentar a área, atraídas pela cadeia alimentar reconstruída.
Por que o “torbellino” de jureles virou símbolo da recuperação?
O fenômeno mais famoso de Cabo Pulmo é justamente esse: enormes cardumes de jureles se movem em perfeita sincronia, formando verdadeiras “muralhas” prateadas debaixo d’água. Para mergulhadores, é um dos espetáculos naturais mais impressionantes do mundo.
Esses cardumes só existem em tal escala porque a cadeia alimentar do arrecife voltou a funcionar de ponta a ponta, dos pequenos herbívoros aos grandes predadores. Sem pressão de pesca, os peixes voltaram a se reproduzir e se agrupar em números que impressionam até cientistas.
Um modelo sob ameaça constante
Apesar do sucesso, Cabo Pulmo segue enfrentando pressões. Projetos de megadesenvolvimento turístico já tentaram se instalar na costa mais de uma vez, e o excesso de visitantes, a pesca ilegal nas bordas do parque e o aquecimento do mar são riscos reais para o equilíbrio conservado a duras penas.
Ainda assim, o caso virou referência para organismos internacionais, que citam Cabo Pulmo como prova de que comunidades locais, quando protagonistas da conservação, conseguem reverter em poucos anos danos que levaram décadas para se instalar.
Por Juliana Matias






