O cenário é totalmente eclesiástico, ou em outras palavras: é tudo aquilo que envolve a alta cúpula da Igreja Católica, mas a refrência parece ter saído diretamente das páginas da literatura fantástica. O Papa Leão XIV, em sua primeira encíclica (documento de alto valor doutrinário), lançou uma luz distinta sobre os dilemas da era digital. Em Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), o pontífice não recorreu a teólogos clássicos: curiosamente, ele convocou o mago Ganfalf, o Cinzento, de O Senhor dos Anéis, para ilustrar a responsabilidade humana diante da Inteligência Artificial.

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Em um mundo onde algorítmos prometem eficiência, mas ameaçam a singularidade do trabalho humano, a citação surge no parágrafo 213 como um farol de sensatez. O papa utiliza as palavras do personagem de J. R.R. Tolkien para lembrar que, embora não possamos controlar o fluxo cada vez mais recorrente da tecnologia, ainda nos cabe a missão de cultivar o bem no tempo que nos foi dado.

“Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos”, pontua o documento, ecoando a voz do icônico mago da Terra-média.

A estratégia da citação contra a desumanização

O Vaticano utilizar a cultura pop como referência não é por acaso, O trecho está inserido estratégicamente como uma reflexão mais ampla, na nota de rodapé 187, sobre como a “civilização do amor” não se constrói com atos significantes, mas com soma de pequenas e tenazes fidelidades diárias. Segundo o Pontífice, o combate contra à desumanização tecnológica passa por cinco pilares fundamentais, incluindo o “desarmar das palavras” e a adoção de “um olhar das vítmas” frente aos descompassos da modernidade.

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O que é a encíclica?

Diferente de uma bula papal (a que estabelece normas dogmáticas ou jurídicas), a encíclica é uma carta escrita pelo Papa a todos os fiéis. Seu objetivo é oferecer orientações morais e sociais, servindo como uma bússola ética para orientar comportamentos diante de questões contemporâneas complexas.

Muito além da IA

A Magnifica Humanitas é um marco para o papado de Leão XIV. O texto vai além do debate sobre robôs e algorítmos. Ele mergulha em questões que transitam com a geopolítica atual, como a regulação estrita de armas autônomas, a reinterpretação da “teoria da guerra justa” e, de forma histórica, um pedido de desculpas pelo atraso da instituição na condenação efetiva da escravidão ao longos dos séculos.

É aí que entra a inclusão de Tolkien, que além de ter sido um católico devoto e filólogo genial, ele não é contudo, inédito ao Vaticano. O Papa Francisco, antecessor de Leão XIV já havia citado o criador da Terra-Média em homilias (pregações litúrgicas proferidas por padres ou diáconos durante a Santa Missa). No entanto, observar a sabedoria da fantasia épica integrada a um documento oficial de peso sobre a maior disrupção tecnológica do século XXI coloca Leão XIV em uma posição de diálogo cultural único, onde a literatura fantástica serve de ponte para a ética prática.

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Quem foi J. R. R. Tolkien?

Considerado por gerações o ‘pai’ da literatura fantástica moderna, John Ronald Reuel Tolkien foi muito além de criar hobbits, magos e orcs. Professor em Oxford e filólogo renomado, construiu um universo mitológico profundamente único. Sua obra máxima, O Senhor dos Anéis, tornou-se mais do que um best-seller: é um estudo analítico sobre poder, tentação, amizade e, sobretudo, sobre como pessoas comuns (e pequenas, como os hobbits) podem mudar o curso da história quando se comprometem com o bem.

Jean Lindemute