Quem cruza uma das galerias do Centro de Joinville pode se deparar com a imagem de uma figura conhecida pelos fãs de cultura asiática. Jung Kook, do BTS, é quem dá boas-vindas aos visitantes da mercearia K-Town. Nas prateleiras, as irmãs Oh colocaram um pouco da cultura da qual nasceram e foram criadas, mesmo morando no Brasil. Nascidas na Coreia do Sul e vindas para o território brasileiro ainda crianças, aprenderam a falar português na escola. Anos depois, decidiram plantar em solo joinvilense um pouco da sua terra natal. Assim, nasceu a primeira mercearia coreana de Santa Catarina.
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Tudo começou quando a família, moradora de Joinville, sentiu falta de produtos coreanos mais acessíveis na cidade. Min Joo Oh, que atende sob o “nome fantasia” de Miriam, conta que só encontravam comidas típicas da Coreia do Sul em Curitiba ou São Paulo. Então, no ano passado, ela e a irmã Joo Hyun Oh decidiram abrir as portas de uma mercearia com foco em itens coreanos tanto alimentares quanto bebidas, skin care e papelaria.
Veja como é a mercearia coreana de SC
Por isso, quem passa no local encontra, espalhados pelas prateleiras da loja, suprimentos para receitas típicas, molhos, lamyon, tteokbokki instantâneo, soju, snacks de alga marinha, cafés, salgadinhos e doces como os Peperos, que levam na embalagem os membros do Stray Kids. Sem contar, os produtos para cabelos e pele, além de chaveiros de grupos de K-pop e photocards.
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— Eu estou há 16 anos em Joinville e a gente sempre teve dificuldade de conseguir [produtos coreanos]. Quando tinha a oportunidade de ir a São Paulo, trazia um monte de coisa. Ou então, o mais próximo era Curitiba. A ideia da mercearia já tinha, na verdade, faz tempo. Pensava: “se ia trazer para mim, vou aproveitar e trazer para todos”. Porque tinha muita gente que também tinha essa dificuldade de conseguir as coisas — conta Min Joo sobre a ideia de abrir a mercearia, localizada na galeria do Edifício Adville, na Rua Blumenau, bem no Centro da cidade.
Inclusive, as irmãs explicam que consideram o seu negócio a primeira mercearia coreana de SC porque, em outros casos, os negócios são focados em produtos asiáticos em geral e não em itens da Coreia do Sul mais especificamente.
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— Não tem mercearia coreana, nomeada coreana, em SC. O que tem mais são mercearias, vamos dizer, asiáticas ou mais focado no japonês. Pode ser que eles tenham produtos coreanos, mas tipo, não se consideram mercearias coreanas — explica Min Joo, ainda que a mercearia da família traga outros produtos asiáticos.
Com a popularização da cultura coreana, as irmãs Oh tiveram mais um “empurrãozinho” para colocar a ideia em prática. Min Joo explica que a intenção não é só prover esses produtos, mas trazer mais informações sobre os elementos da cultura desse país asiático.
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— A gente quer atender, passar nosso conhecimento para os clientes. Então, esse é o nosso diferencial. O pessoal fala dorama, eu sei que o nome ficou, mas não é dorama, é K-drama [séries coreanas]. A gente quer mostrar para as pessoas a forma correta e transmitir o melhor. Quando a gente vê as pessoas interessadas, querendo saber, aí tu quer passar o teu conhecimento, do que tem a cultura coreana. E eu acho isso gratificante — diz Min Joo sorrindo.
Da Coreia do Sul a Joinville
As irmãs Min Joo Oh e Joo Hyun Oh vieram pequenas da Coreia do Sul para o Brasil. A família vivia na capital Seul quando decidiu se mudar para São Paulo, inspirados por um tio que havia chegado algum tempo antes nas terras do país tropical. A família, então, colocou nas malas roupas e sonhos e embarcou para o outro lado do mundo. Era década de 1980 e, na época, a Coreia do Sul passava por um processo de conflitos, ditadura militar e, enfim, a redemocratização.
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Em casa, a família só falava coreano e o hangul era o alfabeto que dava nome às coisas. Inclusive, as irmãs só aprenderam o português na escola.
— A gente veio com três, quatro anos, e só falava coreano. Aí a gente teve que ir para escola, meus pais tinham que trabalhar. Eu lembro que, infelizmente, para mim, não sei, a minha irmã, mas foi um trauma porque a gente ficava lá e aí as crianças querendo brincar, falar e eu não entendia nada. Mas, quando é pequenininho vai passando. Até que, depois, eu já não falava nada em coreano — recorda Min Joo.
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Foi somente aos 19 anos que ela começou a reaprender a língua materna, agora, carregando um pouco do sotaque “brasileiro”.
Já na fase adulta e ainda em São Paulo, Min Joo trabalhou em uma gigante coreana que havia se instalado no Brasil: a Samsung. Foi lá que ela conheceu o marido, também coreano. Juntos, os dois fizeram as malas novamente e partiram com destino a Joinville, por volta de 2010.
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— Aí lá eu conheci o meu marido, né? Antes de a gente se casar, na verdade, surgiu a oportunidade do marido vir para cá para abrir, ajudar a erguer uma fábrica coreana na frente da BMW, a Hyosung, indústria e comércio de fibras. Ele teve que vir, aí veio então a oportunidade de eu largar lá e vir junto com ele para a gente ficar junto, casar, aproveitar e trabalhar nós dois no mesmo lugar — recorda.
Min Joo e o marido viveram “sozinhos” em Joinville, até terem o primeiro filho, em 2013. Isso porque a família dele ainda vive na Coreia do Sul e, a dela, morava em São Paulo. Tudo mudou quando ela e a irmã Joo Hyun decidiram abrir a mercearia K-Town. Neste momento, os pais e o restante da família, inclusive Joo Hyun, vieram morar em Joinville.
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Em casa, os filhos focaram em aprender o português, mas ainda levam consigo a cultura e algumas palavras em coreano. São eles que ajudam a gravar vídeos para as redes sociais provando as comidas vendidas na K-Town, vivenciando também a cultura da família.
Min Joo segue visitando a Coreia do Sul de vez em quando. Com o marido, ela vai até o outro lado do mundo para ver os familiares. Porém, não pensa em voltar para morar no país asiático.
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— Me considero brasileira e coreana, sabe? O engraçado é que aqui eu sou diferente, vestimenta, jeito de falar, mas eu sou daqui. Quando eu vou na Coreia é o contrário, eu sou igual a todo mundo, só que é a forma de vestir e, mesmo eu falando coreano, a forma de falar. Ainda tem gente que percebe, aí eu me sinto estrangeira lá. E a gente já se acostumou com o Brasil. Mesmo a Coreia tendo tudo aquilo, segurança, não sei o quê, cada lugar tem seus poréns, sabe? Aí por causa desses poréns, eu prefiro e gosto do Brasil — explica com bom humor.
Por isso, ainda que a Coreia do Sul faça parte dela e que tenha escolhido cultivar suas raízes, a família escolheu o Brasil para chamar de casa.
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