Ler parece algo natural, mas não é. Segundo a neurocientista Maryanne Wolf, diretora do Center for Dyslexia, Diverse Learners and Social Justice da UCLA e autora dos livros “Proust and the Squid” (2007) e “Reader, Come Home” (2018), a leitura é uma invenção tão recente na história humana que o cérebro não nasceu preparado para isso. Cada pessoa que aprende a ler precisa, na prática, construir um circuito cerebral novo, conectando regiões dedicadas a visão, linguagem, memória e emoção. E esse circuito não apenas viabiliza a leitura: ele transforma a forma como a pessoa pensa.

Continua depois da publicidade

A novidade, segundo Wolf, é que esse circuito não é fixo. Ele se adapta ao tipo de leitura que cada um pratica no dia a dia. Em uma rotina dominada por telas, mensagens curtas, manchetes e vídeos de poucos segundos, o cérebro vem aprendendo a ler de um jeito diferente, com efeitos que a neurociência começou a mapear com mais clareza nos últimos anos.

O que é a “leitura profunda” e por que ela pode estar diminuindo

Existe um tipo de leitura considerado essencial para o desenvolvimento cognitivo: a leitura profunda, conceito cunhado por Wolf e colegas. É o estado mental em que o leitor não apenas decodifica palavras, mas faz analogias, conexões complexas, desenvolve empatia ao se colocar no lugar de personagens e ativa o raciocínio analítico. É esse processo que permite, segundo a pesquisadora, transformar informação em conhecimento.

Pesquisas reunidas em revisão científica publicada em 2020 na revista Dialogues in Clinical Neuroscience pelo neurocientista alemão Martin Korte, da TU Braunschweig, apontam que conteúdos longos vêm sendo substituídos por textos curtos e fragmentados, e que esse padrão pode impactar a compreensão profunda, a capacidade de análise e o envolvimento com o conteúdo.

Continua depois da publicidade

Estudos comparativos citados na mesma revisão mostram um dado curioso: ler um texto complexo no papel costuma garantir melhor recordação de detalhes e da conexão entre os fatos do que ler exatamente o mesmo texto em uma tela. A explicação possível, segundo os pesquisadores, está em como o cérebro associa o conteúdo a pistas espaciais e sensoriais: a posição da informação na página, o cheiro do papel, o peso do livro nas mãos, tudo isso parece ajudar o cérebro a fixar a leitura.

Nem tudo é perda

Ao mesmo tempo, novas formas de leitura estão surgindo, como livros pensados para o celular, audiobooks e narrativas interativas, ampliando o acesso e criando novas formas de consumo. O ponto, segundo Wolf, não é demonizar a leitura digital, mas reconhecer que ela treina o cérebro de uma forma diferente: mais rápida, mais funcional, mais voltada à captura imediata de informação.

A neurocientista propõe um conceito que ela chama de cérebro biletrado (em inglês, biliterate reading brain): a possibilidade de uma mente capaz de alternar entre dois tipos de leitura, uma mais rápida e funcional, típica do digital, e outra mais lenta e reflexiva, ligada à leitura profunda. Esse equilíbrio depende do hábito e da forma como a leitura é incorporada na rotina.

Continua depois da publicidade

Por que isso importa para a vida cotidiana

A reflexão de Wolf encontra eco em recomendações de psiquiatras e neurologistas, que apontam o hábito de leitura como aliado da saúde mental e cognitiva. Segundo o psiquiatra Lucas Pizetta de Amorim, da Clínica Revitalis, ouvido pelo NSC Total, a leitura regular aprimora foco, concentração e atenção aos detalhes, além de promover o retardo do declínio cognitivo. “Estudos indicam que pessoas que leem regularmente têm um risco menor de desenvolver doenças neurodegenerativas como a demência e o Alzheimer”, afirmou.

A médica do sono Priscila Mageste, da Conexa, complementa que o hábito de ler beneficia a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se reorganizar e aprender ao longo da vida, o que leva a melhoras no aprendizado e na interpretação.

Para fortalecer essa “segunda forma” de leitura, especialistas recomendam começar com poucos minutos por dia, escolher livros que prendam a atenção (gênero não importa) e transformar a leitura em parte da rotina, com horário fixo e ambiente preparado. Não é necessário abrir mão das telas, mas reservar tempo regular para o livro impresso ou o e-reader sem distrações é o que pode preservar o circuito mais reflexivo do cérebro.

Continua depois da publicidade

A boa notícia, segundo Wolf, é que esse circuito é treinável em qualquer fase da vida. O cérebro que aprendeu a ler em livros pode reaprender a se aprofundar em textos longos, mesmo após anos de imersão digital. Basta dar a ele esse tempo.