Socos, chutes, barras de ferro nas mãos, pessoas feridas e caídas na arquibancada. Nesta sexta-feira (8) se completa uma década em que a Arena Joinville era palco de uma batalha entre torcidas do Vasco e Athletico Paranaense, em que a partida, vencida por 5 a 1 pelo Furacão, ficou esquecida pelas imagens de violência extrema protagonizadas pelos fãs dos dois lados. 

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Dez anos depois, a reportagem do A Notícia conversou com torcedores e pessoas que estavam na Arena Joinville naquele dia, incluindo personagens que, na época, eram crianças e adolescentes. Um deles é o comprador Gustavo Bauer Domingos. Ele tinha 13 anos quando viu de perto, junto com o pai e o irmão, a confusão. 

Apesar de não sofrer nenhuma agressão, o jovem estava na torcida do Vasco e lembra de centenas de pessoas correndo e se “espremendo” ao seu lado para fugir da briga. O sentimento até hoje é negativo. 

— Senti bastante medo, pensando que alguma coisa pior poderia acontecer. Até para sair do estádio foi complicado e bem tenso. Nem ficamos para o final do jogo — relembra. 

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Outro torcedor do Vasco que estava no estádio é o jornalista Marcus Vinícius Hoffmann. Ele era uma criança de 11 anos no episódio. Acompanhado do pai e padrinho, o vascaíno pontua que havia provocação entre as torcidas e apenas uma barreira de seguranças separavam os grupos, sem policiamento. 

— Meu pai percebeu a movimentação da torcida do Athletico, que começou a ultrapassar essa barreira, então logo começamos a descer das arquibancadas para a parte interna da Arena. Vimos pessoas sendo retiradas de maca, muito feridas e enfaixadas. Foi muito assustador. Provavelmente um dos momentos mais tensos da minha vida — lamenta. 

O também jornalista Juliano Lorenz Oscar, hoje com 38 anos, saiu de van de Curitiba (PR) com outros atleticanos para Joinville. O rapaz fala que o clima era tenso e, por não ter policiais no local, todos cogitaram o risco de ter briga. A previsão se confirmou. 

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— Não tinha dúvidas que uma tragédia estava anunciada. O sentimento era de revolta e de consternação por estar assistindo ‘ao vivo’ toda aquela barbárie.Tive medo com possíveis tocaias da torcida do Vasco em restaurantes na estrada. Não paramos e viemos direto para Curitiba pra não correr riscos — ressalta. 

Desespero em família 

Naquele dia, Ginilson Selhorst Alvaristo, de 39 anos, foi à Arena Joinville com a esposa, irmãos, sobrinhos e outros familiares. O que era para ser um lazer em família, se tornou uma tarde de horror. 

— Foi algo muito desesperador, tivemos que correr para a saída de emergência devido às muitas pessoas saindo ao mesmo tempo, ocasionou um acúmulo no local. Não havia necessidade para aquilo, estava um espetáculo bonito — conta. 

Capa do AN no dia 9 de dezembro de 2013, com o título “Barbárie na Arena”

O pavor se estendeu para outras pessoas que não estavam com eles no estádio. O tumulto e angústia fez com que até os sinais de internet e telefone sofressem problemas. 

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— Lembro que minha mãe estava vendo o jogo pela televisão, depois ao ocorrido tentamos ligar para ela, mas não conseguimos por causa do acumulado de pessoas também utilizando ligações — relembra. 

Radialista ficou a cinco metros de torcedor espancado

Em 2013, Bruno Luiz Abdala, radialista da CBN Joinville, estava na CBN Curitiba e fez a cobertura do gramado de toda a confusão entre as torcidas. Com uma rivalidade histórica e a falta da Polícia Militar no estádio, ele explica que o confronto já era previsto. No momento da briga, o jornalista estava sozinho no estádio, atrás do gol onde ocorreu as cenas de selvageria. 

— A principal lembrança é a de um torcedor do Athletico, Estevão Vianna, sendo pisoteado por mais de dez torcedores vascaínos. Isso aconteceu a 5 metros de onde eu estava. Foi uma cena estarrecedora. Essa cena do ‘massacre’ contra um torcedor está muito viva na memória até os dias de hoje — destaca. 

No dia 10 de dezembro de 2013, o tema foi novamente capa do AN: “Segurança em estádio vira debate após briga”

Bruno expõe ter sentido um turbilhão de emoções naquele momento. Ainda novo na profissão, ele lembra que precisou apurar diversas informações ao mesmo tempo e o fato marcou a carreira. 

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— Foi um grande aprendizado profissional. Naquele momento, chegou a circular um boato de que um torcedor teria morrido, mas, felizmente, não se confirmou. Sem dúvida marcou minha carreira de repórter. Lembro de ter chegado em casa com lágrimas nos olhos e um sentimento de profunda tristeza. Para quem gosta de esportes foi um dia extremamente difícil — conta. 

Mudanças na Arena Joinville

Após o episódio histórico e a repercussão negativa, a Arena Joinville fez alterações, especialmente, no acompanhamento por parte da Secretaria de Esportes (Sesporte) quanto à operação de eventos e regulamentações nos quesitos de segurança. 

De acordo com a prefeitura de Joinville, desde então, a Sesporte e o promotor do evento assinam termo de responsabilidade para a atividade. Além disso, a secretaria observa as diretrizes de infraestrutura exigidas por Polícia Militar, bombeiros e Vigilância Sanitária. 

Além disso, medidas pontuais também foram feitas. Em 2019, por exemplo, houve aumento da altura do guarda-corpo. Também foram feitos reposicionamentos de portas e separação de setores de visitantes, com melhor adequação de fluxos.

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Conforme a prefeitura, durante os eventos privados na Arena, a relação com Polícia Militar e demais forças de segurança é uma responsabilidade de quem promove a atividade. 

Selvageria na arquibancada 

A briga começou logo após o início do jogo, quando o time paranaense já vencia por 1 a 0 contra o Vasco. O árbitro, Ricardo Marques Ribeiro, precisou paralisar a partida por causa da confusão. As cenas violentas aconteceram em um ponto de separação da arquibancada entre as duas torcidas.

À época, o porta-voz da Polícia Militar no caso, Adilson Moreira, explicou ao ge.globo que não havia militares na separação da arquibancada porque a responsabilidade era de uma empresa contratada pela equipe mandante. A PM, a princípio, agia apenas do lado de fora da Arena. 

À época, relatos de pessoas ao A Notícia que testemunharam a cena, é que tudo aconteceu rapidamente. Alguns torcedores levaram pisões na cabeça, mesmo já caídos ou desacordados. Os jogadores chegaram a pedir, perto da torcida, que parassem a violência. 

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Na confusão, quatro torcedores ficaram feridos e tiveram que ser socorridos. O caso mais grave foi o de Estevão Viana, com 24 anos naquele momento. Ele precisou ser encaminhado ao Hospital São José pelo helicóptero Águia, da Polícia Militar (PM). Três torcedores vascaínos foram presos em flagrante após o jogo, como suspeitos das agressões, e encaminhados ao Presídio de Joinville.

Depois do ocorrido, a Polícia Civil instaurou o inquérito policial para investigar o envolvimento de outras pessoas na confusão. Em 20 de dezembro de 2013, em uma operação em conjunto com a polícia do Paraná e do Rio de Janeiro, mais 19 pessoas envolvidas na briga foram presas. Ao total, foram emitidos 28 mandados de busca e apreensão.

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