O reflexo das joias da corte esconde a poeira e o sangue de um império implacável em Coração de Cristal Partido, nova romantasia de Ariani Castelo, lançada pele editora Rocco na última sexta-feira (5). Conhecida pelo sucesso de O Abismo de Celina, a escritora best-seller apresenta aos leitores a obra com personagens moralmente ambíguos, intrigas políticas e um mundo mágico baseado em cristais.

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A narrativa se desenvolve no reino ficcional de Diamantiria, uma sociedade hierarquizada e brutal, cuja ambientação estética e dinâmicas políticas são inspiradas no Brasil Imperial e no período monárquico brasileiro. Nesse mundo construído por Ariani, a elite recebe dos deuses dons extraordinários atrelados ao manejo de cristais.

Criada sob o preceito violento de que cristais devem ser lapidados na base da força, Rayka Diamanta cresceu isolada e tratada como uma vergonha pela própria família real, por possuir o dom de interagir com os chamados cristais inferiores, minerais relegados pela nobreza a funções meramente práticas ou decorativas. Quando o passado lhe rouba o pouco que restava, Rayka volta com o objetivo de se vingar.

Duas forças e duas ambições

A jornada da protagonista então se entrelaça com a de Luka Lucentis, um aristocrata enviado à corte de Diamantiria com missões secretas em nome de sua linhagem. Carregando o prestígio de dominar magias ligadas à mente, Luka apresenta um comportamento calculista, porém, a aparente lealdade ao império camufla suas verdadeiras ambições individuais.

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Desse encontro de ambições ocorre um choque entre essas duas forças moralmente cinzentas e ao invés de um romance instantâneo, a obra abraça as estruturas do slow burn e do enemies to lovers. Em entrevista concedida ao NSC Total, Ariani Castelo conta que construir o atrito entre os protagonistas exigiu compreender que o ódio, muitas vezes, caminha ao lado da identificação.

“Os personagens muitas vezes se odeiam porque estão em polos opostos, mas ao mesmo tempo eles também são meio que o espelho um do outro. Muitas vezes odiamos algo no outro porque vemos ali refletido algo que nós não gostamos”, ponderou a romancista durante a entrevista.

Ela antecipa que o primeiro contato entre Rayka e Luka é agressivo, pontuado por tentativas de sabotagem recíprocas : “O encontro deles vai ser bem explosivo. São personagens bem intensos e que vão fazer de tudo para proteger seus objetivos”.

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Vilões ou anti-heróis?

Esse embate se estende à ausência de maniqueísmo na narrativa, uma vez que, longe de representarem a justiça ou o altruísmo, os protagonistas tomam atitudes eticamente condenáveis. A escritora enfatiza que prefere não rotulá-los de forma simplista como heróis ou vilões absolutos, uma vez que o próprio mundo onde eles habitam opera sob regras cruéis.

“Eles não são os heróis típicos, então, consequentemente as atitudes deles também não são tão heróicas. Eles estão ali naquele limbo da moralidade, são personagens que sabem ser gentis, mas também sabem ser bem cruéis, se for necessário”, adiciona Ariani. Ela complementa que o casal está inserido em um contexto em que todos realizam escolhas extremas para garantir o próprio espaço, o que relativiza a vilania clássica.

A trajetória dos personagens vai dialogar com dilemas universais sobre herança familiar, expectativas e, acima de tudo, privilégios. No caso de Rayka, há a indignação de quem precisa competir em um sistema desenhado para que ela perca. Conforme explica Ariani Castelo, a protagonista expõe uma ferida comum ao notar a hipocrisia da meritocracia em ambientes desiguais e fala em determinado momento do livro: “é muito fácil acreditar que mérito define tudo quando a régua para medir o mérito foi feita para você”.

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A escritora acredita que essas nuances de injustiça e as constantes dúvidas dos personagens sobre seguir o caminho traçado por outros ou assumir os riscos de suas próprias escolhas são elementos capazes de gerar uma forte identificação com o público, dependendo do momento de vida de cada leitor.

Construção de Diamantiria

O império ficcional de Diamantiria conta com divisões regionais, incluindo províncias agrícolas e zonas de forte censura artística. O palácio monárquico e as grandes propriedades da elite agrária contrastam com os distritos operários, onde a mineração e a lapidação dos cristais inferiores sustentam a opressão da corte.

As referências visuais e arquitetônicas tem forte identificação com a memória cultural brasileira, como a Confeitaria Esplendor, inspirada na tradicional Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. Disponível nos formatos físico e digital, o livro de 448 páginas lançado pela Rocco traz um projeto gráfico, que conta com mapas detalhados da geografia do império, ilustrações exclusivas dos personagens concebidas pelo artista plástico Leonardo Vieira, dão rostos, trajes e expressões à intensidade descrita pela autora.

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