Quando Anitta começou a enviar dezenas de áudios para Felipe Britto falando sobre espiritualidade, memórias afetivas e o momento pessoal que estava vivendo, ainda não existia exatamente um álbum. Muito menos um universo visual inteiro. O que existia era uma sensação.

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“Ao longo de algumas semanas, ela me mandou centenas de áudios dizendo o que estava sentindo, falando de referências espirituais, lugares afetivos, memórias. Foi muito mais um relato pessoal sobre o atual momento dela, e menos um pitch de álbum”, conta o produtor executivo e sócio-fundador da Ginga Pictures, em entrevista exclusiva ao NSC Total.

O resultado dessa troca virou EQUILIBRIVM, oitavo álbum de estúdio de Anitta, lançado em abril de 2026. Dividido entre um primeiro ato mergulhado em sonoridades brasileiras e afro-brasileiras, como ijexá, samba, axé e MPB, e uma segunda parte voltada ao mercado internacional, o projeto se consolidou como o trabalho audiovisual mais ambicioso da carreira da cantora.

Mais do que uma sequência de videoclipes, EQUILIBRIVM foi idealizado como uma narrativa contínua; um filme dividido em atos.

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“É o primeiro trabalho audiovisual dela pensado como uma unidade do início ao fim”, explica Felipe. “Tivemos a mesma direção criativa, mesma equipe, mesma paleta e o mesmo vocabulário visual atravessando tudo.”

Com direção criativa de Nídia Aranha e direção de Manuel Nogueira, o projeto abandona a lógica de criar uma estética diferente para cada faixa, como aconteceu em Kisses, para apostar em um formato mais orgânico, simbólico e cinematográfico.

O Brasil profundo como linguagem visual

A estética de EQUILIBRIVM nasce diretamente da espiritualidade e da ancestralidade que atravessam o disco. E isso não ficou apenas no discurso.

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Segundo Felipe Britto, existiam três pilares principais guiando toda a construção visual do projeto: o Brasil profundo, o artesanato popular e a paisagem brasileira como personagem.

“O primeiro eixo é a cultura afro-brasileira, o candomblé, o realismo fantástico e o Cinema Novo”, detalha. “O segundo vem do artesanato e da arte popular, com trabalhos do Mestre Zimar, da Rafa Chaves e do Labô Young aparecendo como presença real em tela.”

A proposta nunca foi transformar símbolos culturais em meros figurinos ou decoração estética. Pelo contrário: a equipe buscou trabalhar diretamente com artistas, referências e pessoas ligadas às tradições retratadas no álbum.

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“A principal premissa foi não tratar qualquer elemento como cenário ou fantasia”, diz Felipe. “Não é um figurino inspirado em algo, mas a coisa em si, feita por quem vive essas tradições.”

Essa preocupação partiu também da própria Anitta, praticante do candomblé e uma das mentes mais envolvidas criativamente em todo o processo. “Ela deixou muito claro que o projeto não poderia tratar nenhum elemento religioso como exotismo”, afirma o produtor. Essa decisão impactou tudo: do casting aos figurinos, da coreografia aos objetos usados em cena. Em EQUILIBRIVM, o pop e a ancestralidade coexistem sem reparos.

Assista ao clipe de Meia Noite, que integra o novo álbum de Anitta

O Projeto Ibiti, o barro, o fogo e os detalhes invisíveis

Grande parte dos clipes foi filmada no Projeto Ibiti, em Minas Gerais, espaço que acabou se tornando quase um personagem da narrativa visual do álbum.

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“A escolha não aconteceu só pela paisagem”, explica Felipe. “O que pesou foi a energia do lugar e os princípios que regem aquele projeto: sustentabilidade, regeneração e respeito ao tempo da natureza.”

A ideia de regeneração, aliás, aparece como um espelho do momento vivido pela própria Anitta. Depois de anos marcada por uma estética hiperacelerada, internacional e extremamente performática, EQUILIBRIVM aposta no silêncio, na contemplação e na desaceleração.

Isso se reflete até mesmo na forma como os clipes foram montados. “O ritmo de plano é propositalmente mais lento porque o disco fala em desacelerar”, conta. Os materiais usados em cena também carregam significado. Terra, barro, fibra natural, fogo e texturas aparecem o tempo inteiro, criando uma sensação quase tátil nas imagens.

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Felipe explica que o processo criativo da Ginga Pictures parte justamente da tentativa de transformar sentimentos abstratos em decisões concretas: “Quando a Anitta fala em ‘equilíbrio’, a gente não fica preso à palavra. A pergunta vira: ‘Que paisagem traduz isso? Que luz? Que corpo? Que ritmo de corte?’.”

A resposta a essas perguntas construiu um dos universos visuais mais densos da carreira da cantora — e um dos mais simbólicos do pop brasileiro recente. “Nem todo significado precisa ser explícito”, afirma. “Às vezes, o que toca o espectador é a textura de uma fibra, a queda de uma luz ou o silêncio de um plano.”

Depois do VMA, uma nova escala para o pop brasileiro

O lançamento de EQUILIBRIVM também acontece em um momento importante para a própria Ginga Pictures. Em 2024, a produtora venceu um Video Music Awards (VMA) com “Funk Rave”, tornando-se a primeira produtora com sócios brasileiros a conquistar o prêmio.

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Segundo Felipe Britto, o reconhecimento internacional mudou a forma como o mercado passou a enxergar a empresa, mas sem alterar a essência do trabalho. “A Ginga sempre foi construída na ideia de que a produção brasileira pode ter ambição global sem precisar diluir o que tem de mais autoral”, afirma.

Hoje, a produtora já realizou filmagens em 25 países e trabalha conectando equipes brasileiras a projetos internacionais. Para Felipe, o novo álbum é consequência direta dessa expansão: “O VMA validou esse caminho e permitiu que apostássemos em projetos ainda mais audaciosos, com mais escala e densidade conceitual.”

Essa ambição transparece na dimensão prática do álbum. Foram mais de 220 pessoas mobilizadas em seis dias intensos de gravação, reunindo profissionais vindos de diferentes partes do Brasil, como Belém, Manaus, Salvador, João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

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Ainda assim, Felipe acredita que o maior impacto talvez esteja no próprio público brasileiro, que passou a consumir videoclipes de uma forma diferente nos últimos anos. “Hoje o público entende que está dentro de uma narrativa. Espera o próximo capítulo, discute referências, percebe detalhes”, diz. “O clipe deixou de ser só material promocional para virar obra em si.”

E é justamente isso que EQUILIBRIVM faz: transforma música em experiência, videoclipe em cinema e o pop em uma linguagem afetiva, espiritual e coletiva.

*Sob supervisão de Pablo Brito