Depois de um 2025 intenso, o mercado editorial jovem já desenha os contornos do que vem pela frente. Em meio ao cansaço das redes, leitores voltam a buscar encontros presenciais, histórias com identidade local e experiências fora das telas. É o que aponta Rafaella Machado, editora executiva da Galera Record e da Verus Editora, selos jovem e romântico do Grupo Editorial Record.
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Segundo Rafaella, o próximo ano será marcado por uma valorização inédita da brasilidade, tanto na estética quanto nos temas e autores publicados.
— Pela primeira vez em muito tempo, acho que o Brasil está olhando para si com muito orgulho — afirma. Para ela, esse movimento não surge do nada. Vem sendo construído aos poucos, impulsionado pelo sucesso de filmes nacionais, por tendências estéticas como o Brasil core e por uma retomada simbólica do orgulho em elementos do cotidiano, dos pisos de caquinho à arquitetura afetiva das casas brasileiras.
Mais autores nacionais no catálogo
Essa leitura se materializou, inclusive, no espaço físico ocupado pelas editoras na última Bienal do Livro de 2025. O estande da Galera e da Verus foi pensado como uma “casa brasileira”, dialogando diretamente com essa busca por identidade.
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— Em 2026, esse patriotismo raiz, esse orgulho de ser brasileiro e dos nossos símbolos, vai estar muito em alta — projeta Rafaella, citando fatores como a Copa do Mundo, o contexto eleitoral e um certo desgaste da influência cultural norte-americana e europeia. Em contrapartida, cresce a curiosidade global pela cultura latina e por países emergentes, um cenário que coloca o Brasil em evidência.
Esse movimento cultural se reflete diretamente na linha editorial. Para 2026, Galera Record e Verus devem ampliar significativamente a produção de livros nacionais. Alguns títulos já despontam como apostas fortes. É o caso de “Bala no Alvo, Dente de Leão”, de Giu Domingues, uma fantasia sáfica, de faroeste, e inspirada em novelas brasileiras, que será publicada em 9 fevereiro; da romantasia “Orixás”, de João Raphael Ramos, assim como projetos ligados a fenômenos do TikTok.
Um novo leitor e novos desafios
Se o orgulho nacional é uma das grandes tendências, o comportamento de compra do leitor é outro ponto de atenção. De acordo com a editora, a lógica da pré-venda perdeu força. Brindes exclusivos já não são suficientes para impulsionar compras antecipadas. O leitor jovem prefere esperar promoções ou eventos presenciais, como feiras e bienais, para adquirir livros.
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Esse cenário exige uma readequação das estratégias editoriais e comerciais. Mas o maior desafio, segundo Rafaella, continua sendo a formação de novos leitores. Em entrevista ao NSC Total, ela lembra que houve um boom de leitura durante a pandemia, especialmente entre jovens que tinham cerca de 15 anos em 2020. Esse público leu intensamente nos anos seguintes, mas hoje já entrou na fase adulta.
— O nosso desafio agora é fidelizar aquele leitor que tinha mais ou menos 10 anos na pandemia. Esse leitor está com nível de leitura um pouco prejudicado ainda e precisamos chegar junto, especialmente os meninos— explica.
Ao entrar na adolescência, esse público demanda estratégias mais ativas de mediação e engajamento na leitura, sobretudo entre os garotos, público historicamente mais distante dos hábitos de leitura. Para dialogar com esses leitores, Galera e Verus têm apostado em narrativas que combinam humor, mistério e aventura, como exemplo o livro “Crocotives”, primeiro volume de série em quadrinhos e aposta de 2025 da Galera Junior que deu certo — além de ampliar a presença em escolas, livrarias e outros espaços de formação leitora.
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Saturações e novas apostas de gênero
No campo dos gêneros literários, Rafaella avalia que algumas tendências começam a dar sinais de esgotamento. É o caso das chamadas “ficções de cura” vindas da Ásia, com livrarias mágicas, gatos e atmosferas aconchegantes. .
Contudo, segundo ela, isso não significa uma retração da literatura asiática como um todo. Pelo contrário, terror, fantasia e ficção asiática devem continuar em expansão. Ao mesmo tempo, ganham força livros interativos, de atividades, quebra-cabeças e mistérios — um movimento que dialoga diretamente com leitores mais jovens e com a busca por experiências menos passivas. Exemplos disso são os Crimes Ilustrados, de Modesto García, que vêm apresentando ótimo desempenho na Record.
Os gêneros híbridos também seguem em alta para 2026. Romantasia, romance thriller, cozy mystery, cozy fantasy e ficção cristã permanecem relevantes, assim como a literatura asiática. Rafaella vê espaço, ainda, para os subgêneros comédia romântica, romance dark e romance erótico. Alguns desses projetos já estão sendo pensados para 2026, especialmente no selo Verus, embora ainda estejam em fase inicial.
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Fora das telas
Se o TikTok foi central para o mercado editorial nos últimos anos, agora surge um movimento de cansaço. — As pessoas estão com muito burnout do algoritmo, muito cansadas do TikTok, então vamos investir bastante em encontros offline — observa Rafaella.
As editoras já têm apostado fortemente nesse caminho. Em 2025, a Galera e a Verus retomaram iniciativas como o Mochilão, passando por mais de dez cidades, entre elas Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba, Recife, Fortaleza, Salvador e Rio de Janeiro, além de piqueniques literários, encontros com leitores e eventos como o Venha Aí, voltado à apresentação de lançamentos. Para 2026, a promessa é de ainda mais encontros offline, fortalecendo a relação direta com a comunidade leitora.
Apesar da valorização do presencial, o digital segue em expansão, especialmente no romance. 2025 foi um ano de forte crescimento para audiolivros e e-books, com números expressivos, sobretudo na Verus.
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— Tivemos o maior faturamento de ebook da Verus editora, provando que a leitura de romance ela é veloz, ela é voraz também. E acreditamos que essa tendência deve se consolidar ainda mais em 2026, com mais livros sendo consumidos no formato digital — finaliza Rafaella.




