Parecia um assunto encerrado desde fevereiro, mas voltou ao centro de uma briga pesada no setor automotivo. O governo federal decidiu reabrir a cota de importação com imposto zero para veículos eletrificados desmontados e semidesmontados, justamente no momento em que parte das tarifas de importação sobe para carros elétricos e híbridos.

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A decisão foi tomada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex) e vale a partir de 1º de julho de 2026. A nova janela terá duração de seis meses, até 31 de dezembro, com limite total de US$ 463 milhões.

O detalhe que muda toda a história é que a cota não vale para carros importados já prontos. O benefício atinge apenas veículos CKD e SKD, siglas usadas para modelos que chegam ao país desmontados ou semidesmontados, para finalização da montagem no Brasil.

É por isso que a decisão causou reação imediata de entidades da indústria. Para o governo, a medida ajuda a ampliar a oferta de veículos sustentáveis e pode servir como ponte para a produção local. Para montadoras e fabricantes de autopeças, a reabertura da cota cria uma vantagem para quem monta kits importados e reduz a previsibilidade de quem investiu na cadeia nacional.

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Cota tinha acabado em fevereiro

O benefício já havia existido entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, também com cota de US$ 463 milhões. Quando janeiro terminou, a janela foi fechada.

A partir de 1º de fevereiro, os kits importados para montagem em CKD e SKD voltaram a ser tributados. Na época, o setor acompanhava a possibilidade de prorrogação, mas ela não aconteceu naquele momento.

Agora, o governo decidiu reabrir a cota por mais seis meses, nos mesmos volumes da rodada anterior. É esse movimento que explica a aparente contradição: em fevereiro, o benefício tinha terminado; em junho, ele foi aprovado de novo para valer a partir de julho.

O que são CKD e SKD?

CKD vem de “completely knocked down”. É o veículo importado completamente desmontado. Nesse modelo, o carro chega ao país em peças, partes ou grandes conjuntos, e passa por etapas de montagem local.

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SKD significa “semi knocked down”. É o veículo semidesmontado. Ele chega em um estágio mais avançado, com conjuntos já prontos, e exige uma operação local menor do que a montagem completa.

Para o consumidor, a diferença pode não aparecer de forma óbvia no carro da concessionária. Para a indústria, porém, muda bastante. Quanto maior a dependência de kits importados, menor tende a ser a participação de fornecedores locais, autopeças, engenharia, ferramentaria e etapas industriais mais complexas.

Quanto vale a nova cota

A cota total aprovada soma US$ 463 milhões e foi dividida por tipo de veículo eletrificado.

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Para híbridos convencionais, o limite é de US$ 84,5 milhões. Para híbridos plug-in, aqueles que podem ser recarregados na tomada, a cota é de US$ 281 milhões. Já para elétricos puros, o valor é de US$ 97,5 milhões.

Dentro desses limites, a alíquota de importação será zero. Acima da cota, voltam a valer as tarifas previstas no cronograma oficial.

Imposto dos elétricos importados também sobe

Ao mesmo tempo em que reabriu a cota para CKD e SKD, o Gecex manteve o cronograma de aumento do imposto de importação para veículos eletrificados.

A partir de julho de 2026, veículos eletrificados montados e semidesmontados passam a recolher 35% de imposto de importação. No caso dos CKD, a alíquota continua em 14% até o fim de 2026 e também chegará a 35% em 1º de janeiro de 2027.

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Isso cria uma situação curiosa. O governo mantém a alta tarifária geral, mas abre uma exceção temporária para determinados volumes de veículos desmontados e semidesmontados.

Carros importados já prontos, conhecidos no setor como CBU, ficaram fora da cota.

O papel da BYD

A decisão ficou associada à BYD porque a montadora chinesa tem operação industrial em Camaçari, na Bahia, e ainda passa por uma fase de nacionalização gradual. A nota técnica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) menciona um ofício do Governo da Bahia pedindo cotas de montagem CKD e SKD para veículos eletrificados no período de fevereiro a julho de 2026, depois do fim da cota anterior.

A própria nota técnica aponta a concentração do mercado brasileiro de eletrificados em poucas marcas. Segundo o documento, no acumulado de janeiro a maio de 2026, a BYD respondeu por 65,67% dos emplacamentos de veículos elétricos a bateria no Brasil. A Geely veio em seguida, com 16,57%, e a GM apareceu com 6,05%.

Nos híbridos plug-in, a liderança também era da BYD, com 55,64% dos emplacamentos, seguida pela GWM, com 20,36%. No mercado agregado de híbridos convencionais e plug-in, a BYD aparecia com 26,70%, à frente da Toyota, com 17,78%, e da GWM, com 16,29%.

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Esse cenário ajuda a explicar por que a decisão mexeu tanto com o setor. A eletrificação cresce rápido, mas ainda está concentrada em poucas empresas, com forte presença de marcas chinesas e asiáticas.

O próprio governo cita risco de “CKDização”

O ponto mais sensível está no desenho da política industrial. A nota técnica do MDIC reconhece que a redução temporária pode ajudar na implantação produtiva, no treinamento de mão de obra, na validação de processos, na organização logística e na preparação para a internalização progressiva de etapas industriais.

Mas o documento também menciona o risco de “CKDização” ou “SKDização” da indústria automotiva brasileira. A expressão se refere à substituição da produção local completa por montagem de kits importados com baixa agregação de valor no país.

Esse risco é maior nos eletrificados porque os componentes mais caros e tecnológicos, como bateria, motor elétrico, inversores, semicondutores, softwares embarcados e sistemas de recarga, podem continuar sendo produzidos fora do Brasil.

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A recomendação técnica foi de aprovação com caráter temporário, cota limitada, monitoramento e possibilidade de revisão ou antecipação do fim da medida.

O carro vai ficar mais barato?

A nova cota não significa uma queda automática nos preços dos carros elétricos e híbridos. Também não vale para qualquer importado eletrificado.

O efeito mais provável é dar fôlego a empresas que trazem veículos em CKD ou SKD e fazem a montagem local. Com a alíquota zerada dentro da cota, essas marcas podem reduzir pressão de custos, segurar reajustes ou manter planos de lançamento no curto prazo.

Para o consumidor, o impacto pode aparecer de forma indireta: menos aumento em determinados modelos, condições comerciais mais agressivas ou maior oferta de versões eletrificadas. Mas isso depende de cada marca, do volume importado, da estratégia comercial e do quanto a economia no imposto será repassada ao preço final.

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