Núcleo da Terra desacelerou: o que a descoberta realmente mostra, e o que não mostra

A manchete de que o núcleo teria parado de girar viralizou, mas o estudo mostra algo mais sutil: o núcleo interno apenas desacelerou em relação ao resto do planeta, num ciclo natural, sem qualquer efeito perceptível na superfície

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Entenda como o movimento do núcleo da Terra pode afetar a sua vida (Foto: Banco de Imagens)

Entenda como o movimento do núcleo da Terra pode afetar a sua vida (Foto: Banco de Imagens)

Um estudo que ganhou o mundo em 2023 com a manchete de que “o núcleo da Terra parou de girar” descreve, na verdade, algo mais sutil e bem menos assustador. O núcleo interno do planeta, uma esfera sólida de ferro e níquel com cerca de 1.200 quilômetros de raio, desacelerou sua rotação em relação às camadas que o cercam. Ele não parou, e ninguém na superfície sente qualquer efeito disso.

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A descoberta é de Yi Yang e Xiaodong Song, sismólogos da Universidade de Pequim, em artigo publicado na revista Nature Geoscience em janeiro de 2023. Ao comparar ondas sísmicas de terremotos que atravessaram o núcleo por trajetos semelhantes desde os anos 1960, os dois perceberam que, por volta de 2009, a diferença de velocidade entre o núcleo interno e o restante do planeta praticamente desapareceu.

O que significa “desacelerar” aqui

O núcleo interno fica a mais de 5 mil quilômetros de profundidade, isolado por milhares de quilômetros de rocha e de metal líquido. Durante décadas, ele girou um pouco mais rápido que o manto e a crosta. O que o estudo mostra é que essa rotação mais veloz diminuiu, até o núcleo interno passar a girar praticamente junto com o resto da Terra.

O geofísico Hrvoje Tkalčić, da Universidade Nacional Australiana, que não participou da pesquisa, resume o ponto que a maior parte das manchetes ignorou: o núcleo interno não para completamente. A descoberta significa que ele está agora mais sincronizado com o planeta do que há uma década, quando girava um pouco mais rápido. Nada de cataclísmico decorre disso.

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Um ciclo, não um evento único

Yang e Song propõem que essa variação faz parte de um ciclo natural, com o núcleo interno ora girando mais rápido, ora mais devagar que a superfície, num padrão que estimam em torno de 70 anos. Segundo eles, algo semelhante já teria ocorrido na década de 1970.

A duração exata desse ciclo, porém, é objeto de debate entre especialistas. Tkalčić, por exemplo, calcula um período mais curto, de 20 a 30 anos. A divergência é esperada num campo em que os objetos de estudo estão soterrados a milhares de quilômetros e só podem ser observados de forma indireta.

Uma confirmação em 2024

A hipótese ganhou reforço no ano seguinte. Em junho de 2024, uma pesquisa publicada na revista Nature, conduzida por uma equipe liderada pelo sismólogo John Vidale, não apenas confirmou a desaceleração do núcleo interno como apoiou a ideia de que ela faz parte de um padrão de décadas de aceleração e desaceleração. Foi uma validação independente de uma conclusão que, em 2023, ainda gerava cautela entre os cientistas.

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E os efeitos no dia a dia?

Praticamente nenhum perceptível. A principal consequência apontada é uma possível e mínima alteração na duração do dia, da ordem de frações de segundo, que nenhuma pessoa nota. A influência direta do núcleo interno sobre o campo magnético do planeta permanece desconhecida, e não há qualquer indício de inversão dos polos nem de enfraquecimento súbito da proteção magnética por causa dessa mudança.

Em resumo, a rotação do núcleo interno é uma janela valiosa para entender o interior profundo da Terra, mas não representa ameaça iminente a nada.

Como se enxerga algo a 5 mil quilômetros

Nenhum instrumento chega ao núcleo. Os cientistas dependem das ondas sísmicas geradas por terremotos, que atravessam o interior do planeta e chegam a estações na superfície. Quando tremores ocorrem repetidamente na mesma região ao longo de décadas, comparar como suas ondas atravessaram o núcleo revela mudanças na velocidade de rotação daquela esfera de ferro. Foi assim que Yang e Song reconstruíram seis décadas de comportamento do núcleo interno.