Pouca gente sabe, mas o tempero mais caro do mundo, avaliado em cerca de US$ 1.000 a onça, está à beira do colapso na Caxemira, onde uma queda devastadora de 68% na produção obriga cientistas e agricultores a uma corrida desesperada para salvar o “ouro vermelho” antes que ele desapareça para sempre.

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Noor Mohd Bhat, um agricultor de segunda geração que trabalha nos campos desde o verão de 1947, observa com preocupação o horizonte de Pampore, na Caxemira. Sentado em sua loja à beira da estrada, o octogenário separa manualmente o que resta de uma tradição milenar que está secando.

Por apenas três dias no ano, milhares de flores Crocus roxas desabrocham no outono, expondo os preciosos estigmas vermelhos em seu interior. Uma vez colhidos e secos, esses fios se tornam o açafrão, cobiçado mundialmente por seu sabor rico e propriedades medicinais.

Historicamente, a colheita durava o dia todo, do nascer ao pôr do sol. Mas, devido à seca extrema do último outono, o trabalho que levava horas foi reduzido a poucos minutos, marcando a pior colheita que a comunidade já presenciou em décadas.

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Por que o “Ouro Vermelho” vale tanto?

O açafrão da Caxemira não é apenas um tempero; é um ativo econômico de extrema raridade. Para se ter uma ideia da complexidade, são necessárias cerca de 50 flores para produzir apenas uma colher de chá da especiaria.

Essa exclusividade faz com que uma única onça (aprox. 28g) possa custar até US$ 1.000 no mercado internacional, superando o valor de muitos metais preciosos. É um trabalho manual, exaustivo e delicado, que não permite mecanização.

No entanto, nos anos de 2024 e 2025, a produção atingiu o nível mais baixo de todos os tempos. Dados alarmantes mostram que a colheita na região caiu 68% nos últimos 20 anos, um golpe mortal para a economia local.

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O mistério climático e a ciência em ação

Agricultores locais e especialistas apontam um culpado claro: a mudança nos padrões de chuva e temperatura no Himalaia ocidental. O calor excessivo e a falta de água estão impedindo que as flores desabrochem.

Shubli Bashir, agricultora de quarta geração e doutoranda em agricultura, está na linha de frente dessa batalha. Ela estuda os compostos fitoquímicos que dão ao açafrão da Caxemira sua fama mundial:

  • Crocin: Responsável pela cor vibrante.
  • Picrocrocin: Define o sabor único.
  • Safranal: Cria o aroma inconfundível.

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“Quando cultivado corretamente, o açafrão da Caxemira tem a maior concentração desses três compostos”, revela Bashir. Mas sem o clima adequado, a qualidade e a quantidade estão em risco iminente.

Tradição x Sobrevivência: O futuro é incerto?

A lenda local diz que o açafrão chegou à Caxemira no século XIII, trazido por santos sufis. Hoje, porém, a fé divide espaço com a ciência. Para tentar salvar a safra, alguns agricultores estão recorrendo ao cultivo em ambientes controlados (indoor).

Outros, como a família de Shubli, tentam rejuvenescer o solo tradicionalmente, evitando produtos químicos e rodando as culturas. Mas o cenário é dramático: “Em 2024 colhemos apenas 50 quilos em toda a temporada. Em 2025, foram apenas 6 quilos no total“, lamenta Ubaid Bashir.

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Apesar das dificuldades e de o açafrão estar se tornando economicamente inviável para muitos, a conexão cultural permanece. O açafrão é símbolo de renascimento na região. Quando tudo morre no outono, ele floresce.

A pergunta que fica para o mundo é se a tecnologia e a resiliência humana serão suficientes para impedir que essa especiaria lendária se torne apenas uma memória nos livros de história.

E você, pagaria o preço de uma joia para provar o verdadeiro açafrão da Caxemira antes que ele se torne extinto?

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