O que significa ser mulher na sociedade atual? Longe de buscar uma resposta estática ou romantizada, a doutora em Literatura, professora e escritora Jeanine Geraldo decidiu explorar as múltiplas faces, contradições e as violências que cruzam a existência feminina em seu quarto livro, Retratos de Mulher. Publicada pela editora Urutau, a coletânea reúne 19 contos inéditos centrados em personagens femininas e propõe um mergulho profundo no que a autora define como o “horror real” do cotidiano.

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Um dos pontos mais impactantes de Retratos de Mulher é a escolha pelo terror realista em detrimento do sobrenatural. Para a autora, a vulnerabilidade das mulheres dispensa fantasmas.

— Acredito que o horror da experiência feminina não se esconde no sobrenatural. Muito pelo contrário: vemos todos os dias nos noticiários os casos de feminicídio, abuso e estupro. É muito mais comum uma mulher ter medo de ser abordada por um homem na rua, do que de enfrentar um espírito maligno — pontua.

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Esse jogo psicológico fica evidente no conto de abertura, A enforcada. Nele, o leitor acompanha uma garotinha que visita o trabalho noturno do pai e ouve histórias sobre o fantasma de uma operária. O cenário induz o público a esperar uma trama sobrenatural, mas a quebra de expectativa confronta o leitor com a realidade dilacerante do abuso infantil.

Para construir essas atmosferas, a escritora misturou vivências próprias com experiências alheias absorvidas por meio de relatos e leituras, como no caso do conto Lençóis Manchados de Vinho, que aborda a perda de identidade e a quebra da romantização após a maternidade. — É possível se apropriar dessas vivências alheias através da narrativa, e aí está também o poder da literatura — defende.

Desconstruindo o papel de vítima

A obra, que conquistou o 2º lugar no I Prêmio Escritoras Brasileiras na categoria de narrativas curtas, nasceu logo após a publicação de seu primeiro livro de poesia, Alcateia (2022), onde a temática do feminino já pulsava.

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— Essa inquietação permaneceu, e foi daí que surgiu a ideia de um livro de contos com narrativas centradas em personagens femininas — explica Jeanine , que dedicou dois anos à coleta e escrita das histórias. Embora o projeto inicial flertasse com o misticismo do tarô , a inspiração seguiu caminhos mais livres, culminando no conto homônimo escrito entre 2022 e 2024.

A obra não se esquiva de tocar em feridas complexas das relações de poder. No conto homônimo que encerra a coletânea, uma personagem utiliza um mecanismo legal de proteção à mulher como ferramenta de vingança contra o ex-parceiro. A abordagem busca mostrar que as mulheres não estão imunes às engrenagens sociais.

— A mulher não pode ser vista apenas como vítima de uma sociedade patriarcal, porque isso seria colocá-la como imune a essas estruturas de poder, quando na verdade elas fazem parte daquilo que nos forma — analisa Jeanine.

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Ela alerta que o patriarcado é estrutural e precisa ser encarado de frente: — Caso essas estruturas não sejam trazidas à consciência, dificilmente deixaremos de reproduzi-las. Para tanto, é necessário que como mulheres nós reconheçamos esses discursos presentes em nós mesmas. Retratar também essas mulheres foi uma forma que encontrei de apontar esse aspecto — finaliza.