Em uma madrugada de março de 1867, às 4h, os Estados Unidos selaram um dos negócios mais subestimados e, posteriormente, lucrativos da história moderna. O que a imprensa da época chamou de “um baú de gelo inútil” revelou-se, décadas depois, uma potência mineral e estratégica. O episódio, que ficou conhecido como a “Compra do Alasca”, volta ao centro do debate internacional à medida que o governo americano sinaliza um interesse renovado em outra massa de gelo colossal: a Groenlândia.
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A madrugada do “Enigma Gelado”
O tratado que transferiu o Alasca da Rússia para os Estados Unidos foi assinado em 30 de março de 1867. Segundo documentos históricos preservados pela Biblioteca do Congresso americano e pela Enciclopédia Britannica, o custo total foi de US$ 7,2 milhões — o equivalente a cerca de US$ 130 milhões em valores corrigidos para os dias de hoje.
O valor impressiona pela extensão territorial envolvida: são 586.412 milhas quadradas (cerca de 1,5 milhão de km²). Na ponta do lápis, o governo americano pagou apenas 2 centavos de dólar por acre. Vale destacar que um acre equivale a aproximadamente 4.047 metros quadrados.
Na ocasião, a transação foi fruto de uma necessidade russa de quitar dívidas da Guerra da Crimeia e do temor de perder o território para os britânicos. De acordo com os registros da Britannica, o então Secretário de Estado, William H. Seward, foi o grande articulador do negócio, apesar de ter sido alvo de chacotas da imprensa, que apelidou a compra de “Seward’s Folly” (A Loucura de Seward).
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De “baú de gelo” a reserva bilionária
O ceticismo inicial sobre o negócio foi soterrado por descobertas sucessivas. Como detalhado em reportagens históricas do New York Times, o investimento se pagou milhares de vezes. O primeiro grande impulso veio com a Corrida do Ouro de Klondike, em 1896. Embora a região de Klondike ficasse tecnicamente no território vizinho de Yukon, no Canadá, a febre do ouro abriu as rotas do Alasca e levou a descobertas massivas em solo americano.
Na cidade de Nome, por exemplo, localizada na região costeira do Alasca, o ouro foi encontrado nas areias das praias, gerando um dos maiores “booms” da história do estado. Já em Fairbanks, no interior do Alasca, o minério foi descoberto em 1902, consolidando a região como um polo minerador permanente.
Décadas depois, nos anos 1960, a descoberta de petróleo em Prudhoe Bay revelou reservas de bilhões de barris, transformando o estado em um pilar da segurança energética dos EUA. Dados do governo federal americano e análises do Natural Resources Revenue Data indicam que a região abriga:
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- Petróleo: mais de 20 bilhões de barris produzidos desde os anos 60.
- Carvão: reservas estimadas em 160 bilhões de toneladas.
- Gás Natural: geração de bilhões de dólares anuais em royalties.
- Minerais: o estado é fonte vital de zinco, prata e chumbo.
O paralelo moderno: a Groenlândia no radar
O sucesso histórico do Alasca serve de pano de fundo para as discussões geopolíticas de 2025 e 2026. O interesse do governo Donald Trump na Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, deixou de ser apenas um rumor de bastidor. Conforme reportado pela BBC, CNBC e pelo New York Times, a diplomacia americana vê na ilha um ativo estratégico crucial por três motivos principais:
- Minerais críticos: a ilha possui vastas reservas de minerais raros, essenciais para a transição energética (fabricação de baterias de carros elétricos e turbinas eólicas).
- Novas rotas: com o derretimento do gelo ártico, surgem rotas marítimas que encurtam o comércio global e dão vantagem sobre a China, que também tenta ampliar influência na região.
- Defesa: a posição é vital para o monitoramento de rivais estratégicos, repetindo o papel que o Alasca desempenhou durante a Guerra Fria.
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O que são os “minerais críticos” e por que eles valem tanto?
Diferente do século 19, quando o ouro era o grande motor econômico, a corrida atual pela Groenlândia é movida pelos chamados minerais críticos. Eles são o “combustível” da tecnologia moderna e da transição energética.
- Terras raras: essenciais para a fabricação de chips, smartphones, turbinas eólicas e sistemas de guiação de mísseis.
- Lítio e cobalto: componentes vitais para as baterias de carros elétricos.
- Dependência da China: atualmente, a China controla cerca de 80% do processamento global desses materiais. Para os EUA, ter acesso às reservas da Groenlândia — estimadas entre as maiores do mundo — não é apenas uma questão comercial, mas de segurança nacional.
Em uma análise geopolítica, é possível sugerir que o país que dominar a cadeia de suprimentos dos minerais críticos terá a chave da economia do século 21.
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Impasses e soberania
O cenário atual é juridicamente mais complexo em relação ao “caso Alasca”. Apesar do interesse de Washington, o governo da Groenlândia e a Dinamarca têm reiterado que a ilha “não está à venda”. O Direito Internacional moderno prioriza a autodeterminação dos povos, o que significa que qualquer mudança de status exigiria o consentimento dos cerca de 56 mil habitantes da ilha.
A história do Alasca ensina que o que parece “terra inútil” pode esconder tesouros geopolíticos. Se a Groenlândia será o próximo sucesso americano ou um impasse diplomático duradouro, os arquivos da Library of Congress lembram que, no tabuleiro do poder global, o gelo é muitas vezes o lugar onde o futuro é decidido.
Groenlândia: projetos secretos, bases militares e teorias da conspiração
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