Adotado como uma surpresa de Páscoa em plena pandemia, Pituco rapidamente deixou de ser apenas um cachorro de estimação para se tornar personagem de histórias em quadrinhos, protagonista de um livro infantojuvenil e símbolo da causa animal em Marília, no interior de São Paulo. A trajetória do vira-lata inspirou o livro “Quatro Patas – A História de Pituco”, obra que concentra em suas páginas memória, ficção e luto para transformar a saudade do animal em um legado que faz a diferença no dia a dia das pessoas.
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A história começa em abril de 2020, quando o publicitário e roteirista Tiago de Moraes das Chagas buscava uma forma de alegrar o filho Lucas, então com oito anos, após a perda traumática de um cão Totó. No lugar do tradicional chocolate de Páscoa, o prêmio final estava dentro de uma caixa. Ao abrir, o pequeno encontrou um filhote de cachorro. Veja vídeo da chegada de Pituco:
Adotado em um período marcado pelo isolamento e pela reinvenção da rotina familiar, Pituco tornou-se a companhia constante no home office.
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— O Pituco veio num momento muito específico, quando a gente estava confinado, trabalhando de casa, tentando entender aquele novo mundo — relembra Tiago.
Do cotidiano à ficção e da ficção à realidade
Foi nesse contexto que a imagem expressiva do cão acabou fundida ao antigo projeto de adolescência de Tiago, o universo Radius, uma HQ futurista ambientada em uma Marília do ano 3121. Tiago conta que o herói original, criado em 1996, não tinha “alma” ou perfil psicológico até a chegada do pet.
— Mexendo no Photoshop, arrastei a carinha do Pituco para um soldado futurista. Ficou tão bom que pensei: ‘isso aqui é um personagem’ — conta TIago. Assim nascia o supercão que daria alma ao projeto engavetado havia mais de duas décadas.
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A presença de Pituco foi decisiva para dar profundidade à narrativa. Com ele, vieram conflitos e histórias que dialogavam com temas sociais e políticos, em uma linguagem que transitava entre o público infantojuvenil e o adolescente. O sucesso foi tamanho que a HQ Radius, com Pituco como co-protagonista, conquistou prêmios nacionais de excelência gráfica, como o Prêmio Fernando Pini e o Oscar Schrappe Sobrinho. Pituco passou a ser reconhecido nas ruas, virou tema de palestras em escolas e inspiração para desenhos e cartas enviadas por crianças.
— Ele abriu portas para o diálogo com quem hoje vive cercado por telas. Entregar um livro ou um gibi para uma criança é um desafio, e o Pituco virou essa ponte — avalia o autor.
O luto
Em julho de 2024, porém, Pituco morreu aos quatro anos, vítima de atropelamento, após sair para passear pelo bairro, algo que fazia com frequência desde a pandemia. A comoção foi imediata e ultrapassou o círculo familiar.
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— Foi tudo muito abrupto. Ele sumiu, pessoas começaram a ajudar a procurar, até que veio a notícia — lembra Tiago.
Tiago descreve ainda a perda como um “buraco no universo literário”, que coincidiu com a fase final do terceiro volume de Radius.
Luto transformado em livro e ação
Para processar a dor, Tiago uniu-se ao jornalista Ramon Barbosa Franco para escrever a biografia “Quatro Patas”, de tom biográfico que intercala lembranças afetivas, fotos, ilustrações e reflexões.
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— Eu tinha a história, as memórias, as palavras, mas precisava de alguém que me ajudasse a transformar isso em literatura. Ele é um livro de cura. Ele vai tratar a dor do luto e mostrar que os animais não morrem, eles só mudam de plano — explica.
O livro, contemplado pelo Programa Nacional Aldir Blanc, foi lançado pela Mustache Comics em um evento que arrecadou 75 kg de ração para a ONG Amor Animal.
— O ciclo do Pituco permanece aberto. Ele continua nas histórias, nas entrevistas, nas ações que surgiram depois — diz o autor.
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Trechos da obra reforçam essa ideia de permanência:
Ele, sem dúvidas, não foi apenas um cão, mas alguém que sempre
sabia exatamente quem era e onde estava. E, na sua partida,
deixou uma lição de autenticidade e presença que permanece
comigo, como um amigo que nunca se foi completamente.
Essa marca que ele deixou em minha vida é algo que
ninguém pode apagar. Até mesmo o projeto Radius, que
carrega seu nome, é uma extensão dessa presença indiscutível.
Pituco foi, em muitos aspectos, um super-herói de verdade.
(Quatro Patas – A História de Pituco, p. 80)
Mascote da cidade e símbolo da causa animal
Após a morte, Pituco passou a estampar campanhas de conscientização contra atropelamentos de animais. Mais de 10 mil adesivos foram distribuídos gratuitamente em Marília, além da arrecadação de 75 quilos de ração para ONGs. A pata do cachorro virou símbolo oficial das ações, registrada a partir de um carimbo feito logo após o acidente.
O reconhecimento ganhou caráter institucional. Em agosto de 2025, Pituco foi oficializado como mascote da causa animal no município e passou a nomear o Parque Pet Pituco, além de integrar ações públicas de incentivo à adoção responsável.
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— Ele veio para ser um cachorro de família e foi transformado em super-herói. Ele cumpriu o papel dele, o legado. Trocaria toda a repercussão para ter ele aqui — admite Tiago — Mas, já que isso não é possível, meu papel é não deixar essa história morrer — finaliza.






