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    Em discurso do Estado da União, Trump rivaliza com presidente da Câmara dos EUA

    Nancy Pelosi quis apertar a mão de Trump, mas ele negou. Ao fim do pronunciamento, ela rasgou o discurso

    05/02/2020 - 11h05

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    Por Folhapress
    Donald Trump
    No pronunciamento, Trump também prometeu que o muro na fronteira com o México ficará pronto, mas não deu prazo
    (Foto: )

    Donald Trump chegou para o seu terceiro pronunciamento do Estado da União como uma estrela de show de rock, com direito a entrada triunfal no Congresso. O presidente americano foi recebido nesta terça (4) com minutos de aplausos ininterruptos pelos congressistas em Washington, aos quais agradecia dizendo "thank you" e apertando a mão. As palmas continuaram enquanto o presidente subia ao pódio e se preparava para começar a falar sobre o "grande retorno americano", como disse logo no começo.

    Antes de seu pronunciamento, entregou um cópia do discurso para o vice Mike Pence e para a democrata Nancy Pelosi, sentados atrás dele. A presidente da Câmara quis apertar a mão de Trump, que negou. Ela então deu de ombros. Enquanto isso, os parlamentares gritavam "mais quatro anos! Mais quatro anos!", como se fosse um coro em um comício de campanha.

    Trump começou seu discurso dizendo que "os anos de declínio [americano] terminaram".

    Segundo o republicano, a economia do país está melhor do que nunca, o Exército está reconstruído, as fronteiras, seguras, e o orgulho americano restaurado. Há mais emprego, mais renda, e a pobreza e o crime estão diminuindo. "O estado da nossa União é mais forte do que jamais foi", sentenciou, em uma das muitas frases de efeito que usaria durante a noite.

    Trump passou cerca de 20 minutos enumerando dados econômicos, como os 7 milhões de novos empregos gerados desde que ele assumiu o poder, em janeiro de 2017, e a taxa de desemprego mais baixa em meio século. Ele incluiu verbalmente as minorias em sua fala, referindo-se aos afro americanos, hispânicos, asiáticos e pessoas com deficiência.

    O presidente autodeclarado da Venezuela, Juan Guaidó, estava na plateia. Ele foi saudado por Trump, que afirmou que os EUA estão do lado da Venezuela e que "o socialismo destrói as nações, mas nos lembra que a liberdade unifica a alma" -um cutucão no ditador Nicolás Maduro. Guaidó foi aplaudido de pé tanto por republicanos quanto por democratas.

    Atrás de Trump, Pence levantou dezenas de vezes para aplaudir o discurso. Enquanto isso, Pelosi, vestida de branco como as democratas no auditório, passou a maior parte do tempo lendo a cópia do discurso ou meneando a cabeça em sinal negativo em relação ao que era dito.

    O evento foi marcado por uma série de atos de grande apelo emocional, como se fosse em um programa de auditório, no qual a plateia agrada surpresas.

    Trump ofereceu uma bolsa de estudos por uma menina negra e anunciou o retorno inesperado de um militar do Afeganistão, que apareceu e se juntou à sua família na plateia. Ele então pediu à primeira-dama Melania Trump que entregasse a chamada Medalha da Liberdade, a mais alta honraria civil dos EUA, ao radialista conservador Rush Limbaugh, que tem câncer em estágio avançado.

    Na análise do New York Times, foi uma espécie de retorno de Trump às suas origens –ele era apresentador do programa "O Aprendiz", e muitos de seus apoiadores o conheceram nesta ocasião.

    Como esperado, o presidente falou longamente sobre imigração ilegal. "Se você vier ilegalmente, será prontamente removido do nosso país", disse, antes de criticar as cidades santuário, a exemplo de Nova York, que tem políticas de tolerância a imigrantes sem papeis.

    Ele enumerou uma série de crimes cometidos por tais imigrantes e saudou um homem cujo irmão foi assassinado por um imigrante ilegal. Em seguida, afirmou que passaria uma legislação permitindo que cidades santuário sejam processadas em casos como este.

    Também prometeu que o muro na fronteira com o México ficará pronto, mas não deu um prazo, e afirmou que, após um acordo assinado recentemente com nações da América Central, o número de tentativas de travessia da fronteira sul dos EUA caiu 75%.

    A certa altura, parte dos democratas começaram a deixar a Casa. Tim Ryan escreveu em uma rede social: "Já tive o bastante. É como assistir a luta profissional. É tudo falso."

    Trump também atacou a universalização do sistema de saúde. Disse que o plano democrata de expandir o seguro de saúde financiado pelo governo representava uma "aquisição socialista" que levaria o país à falência, cortando benefícios para aqueles que os têm agora e prestando assistência a imigrantes ilegais.

    Candidatos presidenciais democratas -como Elizabeth Warren e Bernie Sanders- e muitos legisladores propuseram planos de saúde que seriam administrados pelo governo, um afastamento do atual sistema privado, no qual milhões de americanos recebem seguro médico de seus empregadores.

    Em termos de política externa, afirmou que o califado do Estado Islâmico foi 100% destruído e comemorou a morte de seu líder, Abu Bakar al-Baghdadi, momento no qual Pelosi aplaudiu.

    De seus atos deste ano, Trump lembrou do assassinato, pelas forças dos EUA, do general iraniano Qassim Suleimani, e ressaltou o acordo de paz entre Israel e Pasletina que propôs há poucos dias.

    Pouco antes do fim do discurso, ele defendeu o direito constitucional de todas as religiões rezarem nas escolas. Em seguida, agradeceu a Deus e terminou sua fala. Segundos depois, Nancy Pelosi rasgou o discurso.

    Muitas democratas da Câmara vestiram-se de branco pelo segundo ano consecutivo, um sinal do movimento sufragista que conquistou o direito de voto às mulheres há 100 anos. Vários parlamentares democratas se recusaram a participar do discurso anual para protestar contra Trump, como a liberal Alexandria Ocasio-Cortez.

    O discurso do Estado da União é considerado uma das principais tradições políticas dos EUA, previsto inclusive na Constituição do país.

    Ele é realizado anualmente (com exceção aos anos em que um presidente toma posse, como acontecerá em 2021) no plenário da Câmara dos Representantes e geralmente conta com a presença da cúpula política americana.

    No ano passado, o republicano usou seu discurso para pressionar democratas a liberarem verba para financiar a construção de um muro na fronteira com o México -uma de suas promessas de campanha.

    Ele também criticou a investigação sobre uma possível interferência russa na eleição de 2016, que acabou sendo concluída ao longo de 2019 propor seu indiciamento.

    O discurso de Trump em 2020, que serve oficialmente para ele apresentar ao Legislativo suas prioridades para o ano, acontece em um momento especialmente tumultuado da política americana.

    Também nesta terça foram divulgados os resultados parciais da primeira etapa do processo que vai decidir quem será o candidato do Partido Democrata que vai enfrentar o republicano na eleição presidencial de 2020.

    O vencedor parcial das primárias, realizadas no estado de Iowa (no Meio-Oeste americano) na segunda (3), foi o moderado Pete Buttigieg.

    A divulgação dos resultados da disputa devia ter acontecido na noite de segunda, mas acabou sendo adiada por causa de uma falha geral no sistema de contagem dos votos, o que gerou uma série de críticas a organização dos democratas.

    A próxima etapa da disputa da sigla acontece na próxima terça (11) em New Hampshire.

    Segundo a maioria das pesquisas, ainda não há um favorito claro entre os 11 candidatos que disputam a nomeação e a liderança está dividida entre o ex-vice-presidente Joe Biden, representante da ala moderada do partido, e o senador Bernie Sanders, da ala mais a esquerda.

    Além das primárias democratas, o mundo político dos EUA também está de olho no julgamento do impeachment contra o presidente americano, que está previsto para terminar nesta quarta (5).

    Trump se tornou nesta terça apenas o segundo presidente na história a fazer seu discurso do Estado da União após ter seu impeachment aprovado na Câmara dos Representantes (equivalente a Câmara dos Deputados). O primeiro foi o democrata Bill Clinton, em 1999.

    A Casa aprovou em 18 de dezembro duas acusações contra o atual presidente, que agora será julgado pelo Senado.

    Dois dias depois, a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, fez o convite oficial para que Trump realizasse o discurso desta terça.

    A expectativa generalizada em Washington é que o presidente americano seja absolvido pelos senadores, já que seu partido republicano tem maioria na Casa (são 53 cadeiras, contra 47 da oposição).

    Para ser condenado, e consequentemente deixar o caso, o presidente precisa ser condenado por mais de dois terços da Casa (67 de 100 senadores).

    O resultado pela absolvição já era esperado desde o início do processo, em setembro. Trump é acusado de abuso de poder por ter pressionado o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, a investigar Biden e seu filho, Hunter.

    O republicano é acusado ainda de obstrução do Congresso por ter atrapalhado a investigação do caso.

    Com a resolução do impeachment depois de mais de quatro meses e o início das primárias democratas, a tendência agora é que as atenções do mundo político americano se voltem de vez para a eleição presidencial, marcada para 3 de novembro.

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