Nas tardes pálidas em que o céu desaguava sobre os telhados do bairro, eu sabia que minha avó faria a pergunta: “Quem quer bolinho de chuva?”. Num instante, a casa vibrava com o coro de três crianças: “Eeeu”. Bastava a cozinha se perfumar com o aroma da canela polvilhada sobre as bolinhas coradas para que eu e meus irmãos tivéssemos a certeza de que vivíamos num ninho quente e macio. Ah, quanta saudade cabe nessa cena!

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O poeta Fernando Pessoa escreveu, certa vez, que só para ouvir o murmúrio do vento valia a pena ter nascido. Gosto de pensar que uma existência se justifica pela variedade de saudades que é capaz de acumular. Saudade de gente, de animais, de lugares, de comidas, de sensações, de sentimentos. Do que mais atravessar as membranas do coração e ali se enfurnar feito bicho dengoso.

Saudade é o rosto da eternidade

Nesse e em tantos outros assuntos, faço laço com o psicanalista, educador e escritor Rubem Alves, mestre na arte de iluminar a poesia da vida miúda e as lonjuras da interioridade. “A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo”, poetiza.

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Ela também é a evidência incontestável de que amamos, pontua a psicoterapeuta junguiana Elisabete Lepera, pois esse modo de sentir revela que fizemos vínculos, nos envolvemos afetivamente, fomos tocados no coração. “O mais bonito é que não só os humanos sentem dessa forma, mas todos os mamíferos. E se expressam quando se reencontram, com alegria, com olhos marejados, com a dança corporal”, observa, também poética.

Mas nem sempre o enlevo se arredonda o suficiente para se aconchegar no peito sem arranhar. Principalmente quando datas simbólicas e carregadas de emoção vão se aproximando e desencavando o pesar. Nessas épocas, a gente se lembra de algo ou alguém, sente a falta, quer reviver, reatar o que já foi. O que a mão não alcança mais.

Retorcidos por dentro, chegamos até a acreditar que esse estado é sina em vez de bênção. É esperado que seja assim, um revisitar doído das coisas que amamos um dia e nos amaram de volta. Mas não precisa continuar dessa maneira.

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Afago ou aperto?

Não raro, a saudade e a nostalgia se embaralham na amplitude do nosso sentir. Sabendo disso, vale descobrir onde uma termina e a outra começa para não perdermos de vista o que, no escorrer dos anos, se ergue em nós como um patrimônio incalculável.

“Enquanto a saudade gera um sentimento de bem-estar, de pertencimento, de inspiração, a nostalgia se caracteriza por um olhar para trás, um desejo por pousar no passado e reviver momentos que nos marcaram profundamente, só que com um tom de tristeza”, diferencia Elisabete.

Veja bem, não há nada de preocupante em reavivar memórias e passagens da nossa afeição por meio de devaneios, fantasias, sonhos e reminiscências. Enredar-se no que foi vivido faz parte da experiência interior de todos nós. A questão se adensa quando a visita se prolonga e acaba turvando o horizonte, enfraquecendo a vontade de investir energia no vir a ser.

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“A saudade que machuca está de mãos dadas com o personagem vítima que nos habita, aquele que fica remoendo dentro da gente, trazendo culpa e arrependimentos; a que acarinha é aquela que a gente viveu e soltou, de forma leve, desapegada, mas mantendo uma conexão amorosa entre a nossa alma e a alma de algo ou alguém”, reflete Monica Guttmann, psicóloga, arteterapeuta e autora de As Quatro Estações da Alma em Sol Maior (Paulus).

Tanto o sentimento quanto a palavra saudade comportam nuances (Imagem: Sternfahrer | Shutterstock)

Camadas da saudade

Se olharmos com calma, veremos que a própria etimologia da palavra saudade comporta nuances. Ela vem do latim solitatem, passando pelo galego-português soidade, ou seja, sentir-se solitário. Mas daí se amálgama com salute e salutate, que querem dizer saúde e saudar, o ato de receber e acalentar esse sentimento, como visita bem-vinda, mais do que tudo. Está claro, agora, de que maneira o substantivo moldado pela Língua Portuguesa sobrepõe camadas de significados e, por isso, é tão difícil de ser traduzido?

Pois é, ele também nos desafia a assumir a nossa complexidade, a reconhecer que, às vezes, sentimentos contraditórios se enroscam, gerando espanto e confusão, num primeiro momento, e, numa segunda olhadela, a percepção de que a nossa interioridade comporta opostos, somas, complementos. É, portanto, mais elástica do que supúnhamos. “A gente pode ter a saudade e a tristeza, como também o sorriso por aquilo que viveu intensamente, reverenciando a beleza de cada encontro, que é único e sagrado”, afirma Elisabete.

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Depois do desamor

Você notou que, ao abraçarmos a ambiguidade do tema, ele se dilata, escancarando a extensão do nosso reino emocional, essa cartografia, por vezes, cravejada de pontos abissais? O escritor Bruno Fontes, autor de O Que Eu Faço com a Saudade? (Planeta), se embrenhou por esse território após o término de uma história de amor e, nessa colagem de poemas, pensamentos, bilhetes e desabafos, fala não apenas sobre a dor do fim, mas também sobre o que vem depois.

“Acredito que nunca encontrei conforto, porém encontrei motivos para assinar algumas bobagens que faço, sentido para sair para a rua em noites incríveis, e o desejo de escrever, tudo isso sem entender o que estava fazendo. Poxa, escrevi três livros para um amor, imagina só”, enfatiza.

Assistir a alguém fechar a porta enquanto antecipamos a imensidão da falta que vamos sentir dali por diante é uma das experiências mais avassaladoras que alguém pode viver. Ainda assim, o tempo dará novos contornos ao desamor. Podemos confiar nisso.

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“Saudade do amor-romântico-perdido é daquelas tragédias pequenas, coisa que vai ser revivida no virar da esquina, só que o corpo não entende dessa maneira e se faz de criança, buscando a ideia de que perdeu o que não deveria. A saudade não se resolve até que se resolve”, compreende Bruno. Sem temer o contato com fronteiras borradas, ele indaga: “A partida de alguém é muitas vezes a chegada para o outro. Não é lindo e triste?”.

Monica Guttmann alega que conseguimos acalentar a saudade dentro de nós quando percebemos que o vivido se deu na hora certa, teve o seu ciclo, seu tempo de cumprir as metamorfoses dessa vida. “Da mesma maneira que eu vivi inteiramente aquela situação, agora eu a guardo no meu coração e me abro para o que está por vir, sabendo que a experiência do amor permanece na expressão da saudade”.

Reviver as memórias é uma forma de buscar conforto (Imagem: NeoLeo | Shutterstock)

Reverenciar o que marcou

Já Danielly Martins, autora da antologia poética Bebi Saudade Como Quem Bebe um Café Bem Quente (publicação independente), deparou-se com uma baita descoberta. Ela entendeu que sentir saudade nem sempre significa desejar algo ou alguém de volta. “É natural ansiar por pessoas e momentos que passaram, mas esse sentimento nem sempre está ligado a querer aquilo de novo, talvez seja só uma forma de se lembrar do que foi bom”, pondera.

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A escritora também concluiu que a saudade pode doer e nos afagar ao mesmo tempo. “Quando perdemos alguém, por exemplo, recordamos muitas coisas boas que vivemos. Assim, sentimos falta da pessoa, bem como carinho por tantas lembranças terem permanecido.”

Para chegar a esse ponto de conciliação e paz com os eventos maiores que nos marcam, Danielly contou não apenas com a palavra escrita. Falar também foi de grande valia para ela. “Por gostar de verbalizar o que sinto, lidar com isso se torna mais fácil. Porque aprendo a ressignificar. Agradeço a quem me deixou saudade, contribuiu para minha arte e para a minha construção de entender que algumas coisas foram boas, mas vão ser só recordações.”

Relembrar o que foi bom

Cronista que abrilhantou a nossa literatura, Rachel de Queiroz também tinha um jeito bastante afirmativo de lidar com faltas e ausências. Isso fica claro na crônica intitulada “Saudade”, na qual ela sustenta: “Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir”.

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Ao que poderíamos acrescentar: é sorver por completo o que nos foi servido em nossa jornada até que aquilo se torna parte de nós. Uma presença terna e silenciosa a nos acompanhar, enlaçando tempos e espaços distintos, além de mostrar que o que realmente importa não se desfaz pelo caminho. Permanece pulsando numa dimensão especial.

Assim compreendemos que a saudade se assenta num lugar de confiança, compondo um manancial de memórias que podemos acessar em busca de conforto, força e inspiração para gerarmos frutos por onde passarmos. “A saudade que aquece deixa sementes em nosso coração. Ela faz com que a gente confie que nossa forma de existir será capaz de formar laços afetivos”, reforça Elisabete. Eu costumo visitar esse lugar em tardes de chuva. E você?

Por Raphaela de Campos Mello – revista Vida Simples

Jornalista. Fez um inventário de saudades e se sentiu afortunada pelo tanto que acumulou até aqui.

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