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    Especialistas em arte advertem sobre o crescente mercado de cópias falsas

    O termo "cópia" é amplo, geralmente usado para descrever uma obra de arte original, feita a partir de vários processos diferentes, como a água-forte, a litografia e a xilogravura, produzida em edições limitadas

    05/02/2020 - 18h48

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    Por The New York Times
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    *Por Milton Esterow

    Na Basileia, autoridades suíças estão processando um especialista em arte local que, segundo elas, vendeu centenas de cópias falsas on-line como sendo obras de Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Paul Klee e Pablo Picasso, entre outros, por mais de dez anos.

    Em Nova York, Adrienne R. Fields passa atualmente grande parte de sua semana de trabalho monitorando a internet em busca de cópias falsas que aparecem em um site após o outro. Ela é chefe do departamento jurídico da Sociedade dos Direitos dos Artistas (ARS, na sigla em inglês), uma entidade que protege os direitos de propriedade intelectual dos artistas e seus bens. "Todos os dias, a Adrienne envia um pedido a um site para que este remova algum conteúdo", disse Ted Feder, presidente da ARS. As duas cidades estão na linha de frente na luta contra a venda de cópias falsas.

    Desde que a internet surgiu, o problema da comercialização de arte falsificada só aumentou, de acordo com especialistas. Para eles, a principal moeda no mundo da falsificação, há muito tempo, tem sido a cópia falsa, relativamente fácil de fazer e geralmente difícil de ser detectada, que muitas vezes é vendida a um preço suficientemente baixo para atrair compradores novatos de forma indiscriminada.

    No entanto, segundo autoridades dos Estados Unidos e da Europa, esse problema parece estar aumentando nos dias atuais. "Nos últimos anos, confiscamos centenas de cópias falsas vindas da Itália, da Espanha e de Portugal, que os falsificadores e revendedores disseram ser de Lichtenstein, Georg Baselitz, Picasso e outros", disse Elena Spahic, da Polícia da Baviera, em Munique, especializada em falsificação de arte.

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    Timothy Carpenter, agente especial de supervisão da equipe de crimes contra a arte do FBI, disse que a proliferação de vendas de arte on-line agravou o problema: "Antes, você precisava encontrar uma maneira de colocá-las no mercado, mas o comércio eletrônico mudou o jogo."

    A maioria das cópias falsas são aquelas atribuídas a Lichtenstein e Warhol, afirmaram especialistas. Porém os falsificadores também têm colocado no mercado uma infinidade de falsas obras de Picasso, Klee, Gerhard Richter, Marc Chagall, Joan Miró, Salvador Dalí e Henri Matisse.

    As melhorias nas técnicas de reprodução fotomecânica facilitaram a produção de cópias falsas. "Uma reprodução realmente boa pode enganar muitos especialistas", explicou John Szoke, um revendedor de Manhattan especializado em Picasso e Edvard Munch. Para ele, detectar falsificações não é um trabalho simples. "A cor do papel, a qualidade da impressão, a condição da cópia – você compara tudo isso com a obra original, o que requer anos e anos de experiência", completou Szoke.

    O problema também não se limita às vendas on-line. Susan Sheehan, uma revendedora nova-iorquina de cópias americanas do período pós-guerra, contou que há 18 meses comprou o que achava serem duas cópias de flores de Andy Warhol por US$ 100 mil em uma grande casa de leilões alemã.

    "Comprei depois de ver fotos na internet em alta resolução. A procedência era excelente, mas ao receber as cópias comecei a desconfiar. O papel era brilhante. Os números nas cópias eram grandes demais. A superfície das cópias parecia muito nova", disse ela.

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    "Fui atrás de mais orientação profissional e levei as cópias a duas das principais casas de leilão de Nova York. Eles disseram que as cópias eram falsas. Eu me recompus e, depois de seis meses, recebi meu dinheiro de volta", continuou Sheehan.

    O termo "cópia" é amplo, geralmente usado para descrever uma obra de arte original, feita a partir de vários processos diferentes, como a água-forte, a litografia e a xilogravura, produzida em edições limitadas. Em cada caso, o artista cria uma imagem e trabalha, em conjunto com uma editora ou gráfica, para produzir um número pré-definido de cópias, destruindo frequentemente, após a impressão, a chapa, a pedra ou outra matriz. O artista geralmente assina e numera cada cópia com uma marcação, por exemplo, 12 de 200, ou 12/200.

    As falsificações, por outro lado, são tipicamente reproduções fotomecânicas dos originais, feitas por pessoas que não têm qualquer ligação com o artista e que as vendem como se fossem um trabalho original deste. Costumam ter assinaturas falsas do artista ou certificados de autenticidade forjados.

    Sheehan, a revendedora de arte, disse que as obras de Warhol mais falsificadas são as duas edições limitadas que ele fez de Marilyn Monroe e de flores. Segundo ela, uma cópia original de Marilyn pode ser vendida por até US$ 300 mil.

    "Estou no ramo há 30 anos e algumas pessoas dizem que há mais Warhols falsos do que verdadeiros. Ele fez várias centenas de cópias. Quando vejo um Warhol autêntico, digo: 'Meu Deus, um Warhol de verdade.' Às vezes, as falsificações são incríveis, e tenho de olhar para uma cópia por três ou quatro dias para decidir que tem algo errado com ela", afirmou Sheehan.

    Especialistas dizem que um grande problema com muitas das cópias vendidas como sendo de Picasso é que elas possuem assinatura falsa. Apesar de Picasso ter feito muitas cópias – cerca de 2.400 –, ele não assinou muitas delas. No entanto, é bastante fácil encontrar cópias assinadas no mercado. Especialistas explicam que algumas delas são falsas e outras são obras de Picasso autênticas que ganharam uma assinatura falsa. "Há provavelmente milhares de cópias com assinaturas falsas de Picasso", disse Szoke, o revendedor.

    Entre as obras mais cobiçadas de Picasso estão muitas das 100 gravuras da Vollard Suite, que recebeu o nome do revendedor e editor Ambroise Vollard. Picasso as fez entre 1930 e 1937 por encomenda de Vollard, que lhe deu, como forma de pagamento, obras que ele tinha de Renoir e Cézanne.

    Algumas das imagens retratam um artista em seu estúdio. Outras apresentam mulheres que se assemelham a Marie-Thérèse Walter, a amante de Picasso na época. Um conjunto completo da suíte, assinado por Picasso, foi vendido na Christie's, em novembro passado, por US$ 4.815.000.

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    "Quando Picasso estava na casa dos 50 anos, ele nem sempre estava disposto a assinar uma grande quantidade de cópias. Para o mercado, a assinatura é relevante. Mas o que realmente dá valor à obra é a qualidade da cópia. A assinatura deve ser secundária. Quem compra obras apenas por causa da assinatura é um idiota", disse Marc Rosen, revendedor privado e ex-vice-presidente sênior da Sotheby's. Grandes plataformas de vendas on-line, como a Amazon, eBay e Etsy, afirmam ter criado protocolos para eliminar falsificações e estão trabalhando para criar ainda mais salvaguardas.

    "A Etsy está comprometida em manter a integridade do nosso mercado. Já temos políticas, processos, ferramentas e equipes robustas para identificar e remover itens que possam ferir direitos de propriedade intelectual", afirmou a empresa em um comunicado.

    Também em um comunicado, o eBay explicou que avalia e remove rapidamente itens suspeitos de serem falsos após receber alguma reclamação: "Falsificações e cópias não autorizadas são ilegais e não são bem-vindas em nenhum site do eBay."

    Mas Fields, da ARS, disse que diversas falsificações ainda aparecem em vários outros sites. "É uma guerra desproporcional. Uma falsificação pode aparecer em inúmeros sites e você não sabe quem é o fornecedor. Os preços variam de US$ 10 a dezenas de milhares de dólares", completou a chefe do departamento jurídico.

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