Plantar milhões de árvores parecia a solução ideal para conter o avanço de um dos maiores desertos do planeta. No entanto, um ambicioso projeto ambiental acabou revelando que boas intenções, sem cálculo preciso, podem gerar novos problemas.
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Na China, o reflorestamento criado para frear o Deserto de Gobi ajudou a conter a areia, mas passou a consumir a mesma água usada por moradores e agricultores da região.
O caso reacende o debate global sobre como combater a desertificação sem comprometer o equilíbrio hídrico e a sobrevivência das populações locais, um desafio que vai além de simplesmente plantar árvores.
Quando a solução vira problema
Para conter o avanço do Deserto de Gobi, que ameaçava cidades, áreas agrícolas e rotas comerciais, o governo chinês adotou uma política de reflorestamento em larga escala. A ideia era criar uma barreira verde capaz de frear a desertificação.
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Além de proteger o território, o projeto também prometia capturar grandes volumes de dióxido de carbono. Nos primeiros anos, os resultados pareceram positivos, já que o avanço do deserto foi desacelerado de forma significativa.
Com o tempo, porém, surgiram efeitos colaterais. As florestas plantadas passaram a competir diretamente com comunidades locais pelos mesmos recursos hídricos, agravando a escassez de água em regiões já vulneráveis.
O erro que passou despercebido
Segundo relatórios publicados na revista científica Weather, as espécies escolhidas para o reflorestamento não eram nativas da região. Elas apresentavam crescimento rápido, mas exigiam volumes de água incompatíveis com o ecossistema local.
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Essas árvores retiravam grandes quantidades de água do solo e dos aquíferos profundos. Em seguida, devolviam essa umidade à atmosfera por meio da evapotranspiração, alterando a dinâmica natural do ambiente.
Como consequência, houve redução da água disponível para agricultura, consumo humano e abastecimento urbano. O problema não foi a floresta em si, mas a escolha inadequada das espécies plantadas.
Impactos no ciclo da água
Um estudo publicado na revista Earth’s Future apontou que o reflorestamento contribuiu para a diminuição da água doce em regiões do leste e do noroeste da China. A mudança ocorreu de forma silenciosa, mas contínua.
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As árvores passaram a captar água de camadas profundas do solo e redistribuí-la na atmosfera. Esse processo interferiu diretamente no destino das chuvas, que passaram a cair em áreas diferentes daquelas onde eram mais necessárias.
O resultado foi uma reorganização inesperada do ciclo hidrológico. A água continuou circulando, mas deixou de beneficiar comunidades que dependiam diretamente dela para sobreviver.
Lições de outros projetos
Um caminho diferente foi adotado no continente africano com a chamada “Grande Muralha Verde”. O projeto atravessa 22 países e criou um cinturão verde de cerca de 8.000 quilômetros para conter a desertificação.
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Coordenada pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a iniciativa passou por ajustes ao longo do tempo. O foco deixou de ser apenas a quantidade de árvores plantadas.
Hoje, o projeto prioriza manejo sustentável da terra, regeneração natural e participação das comunidades locais. A comparação entre os dois casos mostra que reflorestar exige estudo, planejamento e respeito ao ecossistema.
