Sabe aquela sensação de assistir a uma obra e ser atravessado por um excesso de realidade? Não por falta de inventividade, mas por uma precisão quase documental em capturar problemas que já presenciamos.
Continua depois da publicidade
Certos filmes funcionam como recortes sensíveis da vida que pulsa fora das salas de cinema e (Des)controle, estrelado por Carolina Dieckmmann, roteiro de Iafa Britz e Felipe Sholl e direção de Carol Minêm e Rosane Svartman é um desses raros exemplares. O filme chega aos cinemas nesta quinta-feira (5).
Ao mergulhar na vida de uma escritora de 45 anos chamada Kátia Klein que vive uma crise criativa graças à pressão do trabalho e da família, nos coloca diante de temas de uma densidade cortante, como o alcoolismo e situações de abuso.
Com uma vida caótica, Kátia busca um alívio na bebida, passando de uma taça de vinho ao descontrole completo, perdendo-se para o alcoolismo. No entanto, a verdadeira maestria aqui não reside apenas na crueza, mas na forma como a narrativa preserva a normalização, transformando o “insuportável” em algo profundamente humano e, sobretudo, cinematográfico.
Continua depois da publicidade

Onde a dor encontra o riso
Um dos maiores desafios éticos e estéticos de um drama que aborda o vício é não sucumbir ao niilismo ou à carga dramática sufocante. Em (Des)controle, as diretoras exercitam um olhar feminino apurado, optando por fugir da solenidade excessiva.
O filme respira através de uma “embocadura do cotidiano”, onde momentos de alívio cômico e situações aleatórias surgem para desarmar o espectador, justamente quando a tensão parece atingir seu ápice.
Continua depois da publicidade
Essa escolha deliberada pelo equilíbrio tonal torna a obra ainda mais potente. Afinal, a vida não suspende sua ironia diante da nossa dor; ela continua nos jogando situações inusitadas que nos obrigam a reagir. Como discutido no lançamento do filme, essa abordagem não minimiza o sofrimento, mas o humaniza:
“A vida mostra pra gente momentos em que acontecem coisas totalmente aleatórias e diferentes, que não têm nada a ver com a sua vida e que te tiram um sorriso, mesmo nos momentos de maior dor”, diz Rosane Svartman.

De Camila a Kátia: a maturidade performática de Carolina Dieckmmann
Para quem acompanha a trajetória da cultura pop brasileira, é impossível dissociar Carolina Dieckmmann de Camila, a jovem cuja vulnerabilidade em Laços de Família parou o país no ano 2000. No entanto, em (Des)controle, testemunhamos uma evolução que só o tempo e a consciência artística permitem. Ao dar vida a Kátia, Carolina não entrega apenas uma atuação; ela entrega uma construção.
Continua depois da publicidade
Enquanto a Camila de décadas atrás era um marco do instinto e da juventude, Cátia é fruto de uma “maturidade conscientemente sabida”. A atriz destaca que hoje possui um “conhecimento de corpo” e uma sabedoria emocional que não detinha no início da carreira.
“Às vezes você é convidada para um trabalho e isso aconteceu também na época da Camila e a maneira que aquele convite chega na sua vida já chega de um jeito avassalador, é impossível dizer não. Você já se sente comprometido desde o início e isso aconteceu também com a Kátia”, diz a atriz.
É o encontro de uma personagem complexa, que habita o limbo da dependência química, com uma intérprete que se sente, pela primeira vez, plenamente pronta para habitá-la. Não é apenas talento; é o domínio técnico e emocional de quem compreende que a arte de atuar é, também, uma questão de tempo e entrega.
Continua depois da publicidade
“Nesse momento da minha vida, eu me sinto diferente da época da Camila, eu não me sentia pronta naquela época, eu era muito nova. Hoje eu te digo assim, com tranquilidade que eu tenho coisas conscientemente sabidas assim para dar para ela, corpo, então eu me senti pronta para fazer a Kátia, não só conectada com ela”, completa.
O grande trunfo de (Des)controle é não reduzir Kátia ao seu diagnóstico. Ela não é definida apenas pelo álcool; ela é construída através das relações que a cercam, provando que o vício existe ao lado e não no lugar da vida social e familiar.
A beleza de (Des)controle reside em sua capacidade de identificar o sagrado no mundano. É um filme que, ao tratar do vício, acaba por celebrar a estrutura que nos mantém de pé: os outros. A arte, sob a condução sensível de Rosane e Iara, torna-se um ponto de alívio tensional, lembrando-nos que mesmo nos períodos mais sombrios, a vida insiste em nos oferecer pequenos sorrisos aleatórios.
Continua depois da publicidade

