Se as Ilhas Galápagos levam a fama de terem sido o cenário definitivo para os insights de Charles Darwin sobre a evolução das espécies, a história real — guardada em diários caóticos e rasurados — mostra que a semente de tudo foi plantada bem antes, no isolamento da Patagônia.

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Foi atrás desse Darwin em formação, cujos registros históricos são escassos e pouco debatidos pelo público geral, que o explorador, fotógrafo e cineasta brasileiro Marcio Pimenta embarcou em uma jornada solo de 11 mil quilômetros a bordo de um Jeep, em 2023.

O resultado da aventura apoiada pela National Geographic Society está nas 284 páginas de Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo, publicado pela Editora Solisluna. O livro, escrito entre 2023 e 2025, entra em pré-venda e ganha eventos de lançamento a partir de junho.

O colapso na estrada

Diferente dos relatos tradicionais de exploração que exaltam uma figura indestrutível no estilo Indiana Jones, Pimenta fez questão de expor a própria fragilidade ao longo do percurso. Ao chegar a Ushuaia, o acúmulo de silêncio, a ausência de sinalizações urbanas e o confronto com os próprios pensamentos culminaram em um colapso de estresse agudo.

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“O estresse foi aumentando porque, quando a gente descobre uma nova verdade sobre nós mesmos, é assustador. Eu estava muito ocupado com outras coisas menores. Quando fiquei sozinho durante 40 dias, aquilo foi se acumulando e comecei a perceber em mim algo que desconhecia. Quis quebrar esse mito da jornada do herói e demonstrar que a gente é bem humano.”

Marcio Pimenta.

Essa humanização, segundo o autor, foi inspirada no próprio Darwin. — Pensamos no Darwin como o senhor sábio de barba grisalha e estátua de sabedoria, mas antes disso ele viveu muitos transtornos emocionais e físicos porque tinha medo do que estava para revelar —  conta Pimenta.

Geologia preservada, o “cancelamento” de Darwin e as questões indígenas

Para o fotógrafo, que abandonou a carreira na Economia e o doutorado em Relações Internacionais para se dedicar às expedições , o maior espanto na Patagônia foi perceber que a escala do tempo da Terra mantém a paisagem intacta. — Eu olhava para os diários dele e olhava para a paisagem tentando entender o que ele estava fazendo. Quando cheguei em Monte Hermoso, as camadas biológicas descritas por ele estavam exatamente lá. Cento e cinquenta anos para a Terra não são nada — pontua

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Embora o livro aborde as mudanças climáticas de forma sutil — citando o recuo de geleiras e a perda de glaciares argentinos —, a experiência redefiniu os rumos profissionais de Pimenta. —  Não me reconheço mais apenas como fotógrafo. Esse livro é o início de uma nova fase como explorador —.

A expedição de Pimenta não desviou de temas espinhosos da atualidade. Ao confrontar os registros históricos com a realidade atual das comunidades indígenas da Patagônia, como os Selk’nam e Yámana, o explorador pontua o choque cultural registrado pelo naturalista no século XIX.

—  O Darwin hoje seria cancelado —  brinca Pimenta, contextualizando que o inglês escreveu palavras pouco elogiáveis ao se assustar com os nativos cobertos de gordura de foca. —  O movimento indígena na Patagônia hoje olha para Darwin como nós olhamos para Monteiro Lobato. Mas o discurso é anacrônico. Darwin sempre foi antirracista e, para formular a teoria da evolução, precisou revisitar suas memórias e esse choque cultural para concluir que éramos todos iguais. Se as pessoas entendessem Darwin, não existiria racismo no mundo — defende Pimenta.

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Inspirado por Darwin, os olhos do pesquisador já miram o próximo destino: o Vale do Rift, na África, considerado o berço da humanidade. — Darwin derrubou o criacionismo e fala sobre a evolutiva. Darwin foi um ponto de ruptura e provou que todos viemos de uma mesma origem. Quero ir a esse lugar entender como nos espalhamos e por que criamos tantas barreiras e muros entre nós — finaliza.