Sêneca, um dos maiores nomes do Estoicismo, escreveu uma carta inteira sobre os medos que talvez nunca se concretizem e que conversam muito bem com um problema do mundo moderno: a ansiedade.
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Segundo dados divulgados pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), em um relatório que avalia o perfil e a necessidade de pacientes de convênios, na última década, o número de internações por crise de ansiedade triplicou entre quem tem plano de saúde. O número saiu de um patamar de 2.027 casos em 2015 e chegando a 6.084 registros em 2024. O maior crescimento foi entre adolescentes e também em garotas.
A cena é familiar. Falta uma semana para um exame médico e a pessoa já se imagina recebendo o pior diagnóstico. Falta um dia para uma conversa difícil no trabalho e ela já ensaiou, deitada na cama às três da manhã, todas as formas como tudo pode dar errado. O fato ainda não chegou. O sofrimento já está inteiro lá.
Foi sobre isso que Sêneca escreveu, numa frase que atravessou os séculos:
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“Sofremos mais na imaginação do que na realidade.”
— Sêneca, Cartas a Lucílio, Carta 13
Quem disse e onde
A frase vem da Carta 13 das Cartas a Lucílio (Epistulae Morales ad Lucilium), uma das 124 cartas que o filósofo romano enviou ao amigo Lucílio sobre como viver melhor. Essa em especial é dedicada aos medos infundados.
No original latino, a frase faz parte de uma observação mais longa: são mais as coisas que nos assustam do que as que de fato nos atingem, e sofremos com mais frequência pela suposição do que pela realidade. A versão curta que circula hoje é uma condensação fiel dessa ideia.
O conselho central que Sêneca dá na carta é direto, quase áspero: não seja infeliz antes da hora, porque aquilo que você teme como iminente talvez nunca venha e, com certeza, ainda não veio. Vale lembrar que essas cartas foram escritas no fim da vida do filósofo, que poucos anos depois seria obrigado a se matar por ordem do imperador Nero. Ele falava de medo sabendo do que falava.
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A parte mais precisa: os três jeitos de sofrer à toa
O que torna essa carta tão atual não é só a frase famosa. É uma distinção quase cirúrgica que Sêneca faz logo em seguida. Para ele, há basicamente três maneiras de a mente nos fazer sofrer sem necessidade.
A primeira é aumentar a dor: pegar um problema real e inflá-lo até ele ocupar um espaço maior do que merece. A segunda é inventar a dor: sofrer por algo que sequer existe, construído inteiramente pela imaginação. A terceira é antecipar a dor: viver hoje o sofrimento de algo que talvez aconteça num futuro incerto.
Aumentar, inventar, antecipar. É difícil encontrar uma descrição mais exata do que a psicologia moderna chama de catastrofização, esse hábito da mente de transformar possibilidades em certezas e de tratar o pior cenário como o mais provável. Sêneca chegou lá sem o vocabulário clínico, apenas observando como a cabeça humana funciona.
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Por que isso conversa com a gente hoje
A frase acerta porque nomeia algo que quase todo mundo sente e poucos colocam em palavras: o sofrimento muitas vezes não vem do acontecimento, vem do ensaio mental do acontecimento. A gente sofre a demissão antes de ser demitido, a perda antes da perda, a rejeição antes da resposta.
E há um detalhe cruel nesse mecanismo da ansiedade. Quando o temido finalmente acontece, quando acontece, já o vivemos tantas vezes na cabeça que pagamos a conta em dobro. Quando não acontece, que é o mais comum, sofremos de graça por algo que nunca existiu fora de nós.
Sêneca não está prometendo que nada de ruim vai ocorrer. Não há aqui um “pensa positivo” nem garantia de finais felizes. Há algo mais honesto e, por isso, mais útil: a constatação de que a mente costuma cobrar adiantado por sofrimentos que talvez nunca cheguem. Reconhecer isso não apaga o medo. Mas devolve uma pergunta simples no meio da ansiedade; isto que estou sentindo é o fato, ou é o ensaio do fato?
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A pergunta que fica
Talvez o exercício não seja deixar de sentir medo, e sim aprender a separar o que já está acontecendo do que ainda é só suposição. Quanto do que pesa agora é real e quanto é uma realidade que a gente está vivendo antes da hora, sem nem saber se ela vai chegar?

