O debate começou com a doença celíaca, uma condição autoimune que afeta cerca de 1% da população. Para quem tem essa doença, o consumo de glúten causa inflamação intestinal e precisa ser totalmente eliminado. Porém, será que de fato é realmente preciso evitar seu consumo?

Continua depois da publicidade

A ciência mostra de forma bastante clara que aqueles que não possuem condições adversas ao consumir glúten, não precisam cortar o seu consumo. No entanto, com a popularização do tema o mercado e a mídia transformaram o “glúten free” em uma grande tendência, como se fosse sinônimo de saúde.

O glúten é um conjunto de proteínas (principalmente gliadina e glutenina) encontradas no trigo, centeio, cevada e em derivados desses cereais. Sua principal função é conferir elasticidade e maciez às massas, o que explica sua ampla utilização em pães, bolos, massas e produtos industrializados.

Para a maior parte da população, o glúten é uma proteína inofensiva e pode ser consumido normalmente dentro de uma alimentação equilibrada. O tabu em torno do glúten ganhou força nas últimas duas décadas, especialmente com a maior conscientização sobre a doença celíaca, uma condição autoimune que afeta cerca de 1% da população mundial. 

Nesse caso, o consumo de glúten desencadeia uma reação imunológica que danifica o intestino delgado, prejudicando a absorção de nutrientes onde o diagnóstico exige exames específicos e o único tratamento é a exclusão total e permanente do glúten.

Continua depois da publicidade

Paralelamente, surgiram discussões sobre a sensibilidade ao glúten e a alergia ao trigo, condições distintas, menos comuns, mas que também exigem restrição parcial ou total do consumo. Esses achados científicos foram amplificados pela mídia, por influenciadores e pelo mercado de nutrição, levando a uma percepção de que o glúten seria prejudicial a todos.

Essa visão, no entanto, não é respaldada pela ciência. Para a maioria das pessoas não há evidências de que eliminar o glúten apresente benefícios metabólicos diretos como emagrecimento ou melhora de energia. 

Muitas vezes, o bem-estar relatado após cortar o glúten está amplamente relacionado à redução de alimentos ultraprocessados como pães brancos, biscoitos, bolos industrializados, do que ao glúten em si.

Logo, o mercado percebendo essa demanda expandiu a oferta de produtos “glúten free” e embora sejam necessários para celíacos e pessoas com sensibilidade confirmada, esses produtos costumam ter custo elevado e, muitas vezes, são ricos em amidos refinados, gorduras e açúcares, o que pode comprometer a qualidade nutricional se consumidos indiscriminadamente.

Continua depois da publicidade

Assim, o mais importante é contextualizar: o glúten é um componente natural de alguns cereais, inofensivo para a maioria da população. Deve ser totalmente evitado apenas em casos de doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade comprovada. 

Para os demais, a ênfase deve estar em uma alimentação equilibrada, com foco em alimentos frescos e minimamente processados, em vez de restringir grupos inteiros sem necessidade.

Em resumo, o tabu em torno do glúten nasceu da associação real com doenças específicas, mas foi amplificado pelo mercado e por discursos simplistas. Lidar com essa questão passa por informação baseada em ciência e pela consciência de que, salvo exceções médicas, o glúten não precisa ser vilanizado e o verdadeiro desafio alimentar continua sendo a qualidade geral da dieta.

  • Duda Costa é nutricionista e escreve sobre performance esportiva