A lenda de um tesouro escondido e enterrado há séculos no litoral de São Paulo conduz a história de Kiwi e os Garotos Perdidos, novo romance da escritora, atriz e ilustradora Ana Jeckel publicado pela editora Rocco. A obra, que marca a estreia da autora no mercado tradicional, resgata a mitologia em torno do corsário britânico Thomas Cavendish em Ilhabela para transformá-la em uma narrativa contemporânea de realismo mágico voltada para o público jovem.
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Na história, acompanhamos Nalu, um skatista de espírito artístico e rebelde, que decide retornar à ilha onde passou a infância. O adolescente reencontra seu antigo grupo de amigos, composto pelo pragmático Riva, o destemido Pedregulho e a observadora Lince, mas o equilíbrio do grupo muda com a chegada de Kiwi, uma personagem misteriosa.
Munido de mapas incompletos, charadas geográficas e pistas esquecidas pelo tempo, o quinteto se embrenha pelas matas e praias desertas da região em busca do tesouro. No entanto, a aventura juvenil logo esbarra no sobrenatural quando forças que desafiam a lógica, mistérios marinhos e a presença de sereias passam a testar os limites e a coragem dos personagens e vai ajudar a ditar o amadurecimento dos protagonistas.
Em entrevista ao NSC Total, a autora Ana Jeckel conta que gosta de escrever histórias que tenham uma pitadinha de realismo mágico. — Eu acredito que a vida precisa de um toquezinho de magia para que possamos enfrentar as dores reais. Mas ao mesmo tempo eu gosto de manter os pés no chão, e que os personagens sejam muito humanos e que o leitor consiga se conectar com isso — aborda.
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Personagens complexos e a importância da “família escolhida”
A narrativa explora a complexidade psicológica dos jovens diante das pressões do crescimento. O protagonista Nalu expressa o comportamento característico de um jovem incompreendido que lida com a despersonalização — um distúrbio que causa a sensação de desconexão com a realidade, no qual a autora foi diagnosticada enquanto escrevia a obra em 2023.
— O Nalu é um personagem que eu me identifico muito porque ele está passando por essa fase mais rebelde, em que acha que estão todos contra ele e que só ele se entende, que ninguém entende a arte dele e eu sinto que eu fui muito assim na adolescência — relembra Ana.
A autora adianta que por trás da caça ao tesouro e dos enigmas náuticos, a história de Kiwi e os garotos perdidos aborda o conceito de found family, que em português é família escolhida.
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— Cada leitor vai interpretar a história de uma forma e ver uma mensagem diferente, mas o livro traz a importância do pertencimento e como é importante ter pessoas que nos fazem bem por perto, principalmente nas partes difíceis da vida, como crescer, essa fase entre a adolescente e a fase adulta, que é algo muito difícil. É sobre ir descobrindo as coisas que realmente importam — pontua.
Da viagem às páginas
Para tirar a história do papel, Ana não se limitou às pesquisas em livros e artigos e viajou para a ilha para vivenciar o local, conversar com moradores e visitar o Museu Náutico, onde descobriu detalhes e novas histórias sobre a ilha.
— Eu tive contato com pessoas que falaram que ainda existiam, inclusive, descendentes do Thomas Cavendish na ilha. Eu vivi e respirei essas lendas e ficava pensando ‘preciso escrever um livro sobre isso porque parecia que a história estava pedindo para ser contada — conta.
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Os passeios durante a viagem permitiram que a geografia da ilha ganhasse um forte apelo sensorial nas páginas do livro. Ana destaca que a experiência real de navegar pela primeira vez em alto mar rumo a uma praia isolada — sentindo o impacto físico e a instabilidade das ondas — foi fundamental para transpor o medo e o deslumbramento dos personagens para o papel.
— Eu consegui descrever direitinho como foi a sensação de estar sentindo o barco subindo e descendo e achando que ele vai virar. Se eu tivesse só escrito a cena sem ter vivivo a experiência eu não teria conseguido transformar em uma experiência realmente sensorial — pontua.
Influenciada por sua atuação nas artes cênicas, Ana Jeckel conta que utiliza uma técnica de escrita estruturada a partir do formato de roteiro cinematográfico. O método pode ser sentido pelo leitor na agilidade dos diálogos e na transição visual das cenas e, segundo a própria autora, o ritmo pode ser comparado à atmosfera despretensiosa e nostálgica de um clássico filme de “Sessão da Tarde”.
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