Em 1982, uma carta de despedida escrita por uma jornalista chilena no exílio para seu avô se transformou no livro “A Casa dos Espíritos”, uma das obras mais influentes da literatura latino-americana contemporânea. Mais de 40 anos após o lançamento, a autora da obra, Isabel Allende, acompanha de perto o nascimento de uma nova versão da saga da família Trueba, desta vez para o formato de série para streaming.

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Estrelada por Alfonso Herrera, Nicole Wallace e Dolores Fonzi, a produção chega ao Prime Vídeo nesta quarta-feira (29). Em entrevista exclusiva à NSC, Isabel Allende detalha seu papel nos bastidores da série, fala sobre as mulheres extraordinárias que são seu modelo e faz um diagnóstico sobre as cicatrizes políticas que ainda marcam o continente em 2026.

Diferente da superprodução de Hollywood de 1993, a nova série opta pela fidelidade linguística ao ser filmada integralmente em espanhol. Para Allende, embora o realismo mágico dependa mais da cinematografia do que do idioma, a preservação da língua original confere alma à produção.

— Para que um filme tivesse sucesso internacional em 1993, precisava ser em inglês e com atores conhecidos de Hollywood. Desde então, o público se acostumou a ler legendas e podemos ver filmes em qualquer idioma: farsi, chinês, japonês, português, etc. Às vezes são dublados, mas quando o idioma original é preservado, parecem mais autênticos —  afirma a escritora.

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Força feminina

Composta por oito episódios, a saga abrange 50 anos de história, focando na vida de quatro gerações da mesma família, em especial três mulheres — Clara, Blanca e Alba — além do patriarca autoritário Esteban Trueba, vivido por Alfonso Herrera na produção da Prime. 

Segundo Allende, o protagonismo das mulheres fortes em seus textos é um reflexo orgânico da realidade que testemunha através das histórias que vive e conhece, citando sua fundação, que patrocina organizações que defendem os direitos de mulheres e imigrantes. 

— Estou rodeada de mulheres fortes e, através da minha Fundação, conheço mulheres extraordinárias que passaram por provações incríveis e perderam quase tudo, em alguns casos, perderam até os filhos, mas se levantam e seguem em frente. Elas são os meus modelos — afirma.

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As obras de Allende frequentemente são lidas como um manifesto da resiliência feminina, mas a autora pontua que não tenta passar mensagens. 

— Escrevi muitos romances e tomo muito cuidado para não pregar aos meus leitores. Conto o que vejo, o que lembro, o que vivo, o que me interessa e me comove. O leitor pode encontrar alguma mensagem nas entrelinhas, mas não foi intencional da minha parte.

Como produtora executiva da adaptação, o papel de Allende foi de consultoria técnica e criativa, especialmente no diálogo com as diretoras Francisca Alegría e Fernanda Urrejola. Segundo a autora chilena, o meio audiovisual é muito diferente da palavra escrita, mas ela confiou plenamente no trabalho desenvolvido.

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— Tive plena confiança de que as duas diretoras e Andrés Wood traduziriam o livro para essa linguagem fantástica que é a série — revela, garantindo que não sentiu a tentação de alterar o destino dos personagens já cristalizados no imaginário popular.

A obra reflete as tensões sociais e o contexto de uma ditadura militar da época e traz elementos de realismo mágico, especialmente através da personagem Clara del Valle, que possui poderes paranormais e vive “assombrada” por espíritos. 

Ao ser questionada sobre as tensões sociais descritas no livro original, escrito em meio às ditaduras militares do século 20, Allende demonstra preocupação com o retrocesso democrático dos últimos anos na América do Sul.

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A autora pontua que, embora as perseguições sistemáticas contra movimentos operários e povos originários tenham se transformado desde 1982, as raízes do conflito permanecem expostas. 

— Preocupa-me a tendência à extrema-direita e o fascínio por líderes autoritários — diz Allende, citando nomes como o de Nayib Bukele (El Salvador) como exemplo.

Novo livro

Segundo o Grupo Editorial Record, responsável pelas publicações de livros de Isabel Allende no Brasil, a expectativa é que o interesse por “A Casa dos Espíritos” apresente um crescimento significativo nos próximos meses. A projeção da editora baseia-se em dados de mercado. No final de 2024, a estreia da adaptação de “Cem Anos de Solidão” na Netflix provocou um efeito cascata nas livrarias, fazendo com que as vendas da obra de Gabriel García Márquez triplicassem.

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Além disso, Renata Pettengill, editora-executiva de ficção estrangeira da Editora Record, confirmou com exclusividade à NSC que o catálogo de Isabel Allende ganhará um reforço em breve. A grande novidade para 2026 é o lançamento de “A Palavra Mágica – Uma Vida Escrita”, em outubro deste ano. A obra mergulha na trajetória literária da autora e já está disponível no mercado de língua espanhola e tem previsão de chegar aos leitores de língua inglesa em setembro deste ano.

(Foto: Divulgação)