Por décadas, o Lago Hillier, no oeste da Austrália, foi um dos fenômenos naturais mais fotografados do mundo. Suas águas em tom rosa-chiclete vibrante, contrastando com a vegetação verde da Middle Island e o azul intenso do Oceano Índico ao redor, viraram cartão-postal mundial, capa de revistas de natureza, pano de fundo de campanhas de turismo e estrela de vídeos virais nas redes sociais.

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Mas há um detalhe que a maioria das matérias sobre o lago deixou de mencionar: desde 2022, o Lago Hillier perdeu o tom rosa elétrico e passou a apresentar uma coloração azul-acinzentada. A causa? Mudanças no padrão de chuvas, atribuídas às alterações climáticas globais, que diluíram a salinidade extrema da água e desorganizaram a comunidade microbiana responsável pela cor única.

Segundo autoridades de parques nacionais australianos e operadores turísticos da região, a recuperação completa do tom pode levar até 10 anos e até hoje, em 2026, visitantes são orientados a não esperar o rosa intenso que tornou o lago famoso. A história do Lago Hillier virou, assim, um exemplo concreto de como até paisagens consideradas estáveis podem ser transformadas por pequenas mudanças no clima.

Onde fica o Lago Hillier

O Lago Hillier está localizado na Middle Island, parte do arquipélago da Recherche (Recherche Archipelago), na costa sul da Austrália Ocidental, região conhecida como Goldfields-Esperance. A ilha é desabitada e fica próxima à cidade litorânea de Esperance, ponto de partida para os voos panorâmicos que costumam ser a única forma de ver o lago de perto.

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Em números:

  • Comprimento: cerca de 600 metros
  • Largura: aproximadamente 250 metros
  • Salinidade: cerca de 10 vezes a do oceano, mais que o Mar Morto
  • Acesso: restrito; principal forma de visualização é por avião ou helicóptero
  • Descoberta histórica: documentado pela primeira vez pelo navegador britânico Matthew Flinders em 1802

A combinação de isolamento, condições extremas de salinidade e ecossistema único faz do Lago Hillier um caso especial até entre os “lagos rosa” do mundo.

A explicação científica: muito mais complexa do que se imaginava

Por muito tempo, atribuiu-se a coloração rosa do lago a uma única microalga: a Dunaliella salina, popularmente conhecida como “alga do sal”. Essa espécie é capaz de produzir carotenoides pigmentos avermelhados como o β-caroteno, usados pela própria alga como proteção contra a radiação solar intensa e contra o estresse osmótico causado pelo excesso de sal.

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Mas, em 2022, um estudo publicado na revista científica Environmental Microbiome virou a explicação convencional de cabeça para baixo. A pesquisa, conduzida por equipe internacional liderada pela cientista Maria A. Sierra, da Weill Cornell Medicine, fez análise metagenômica completa da água do lago.

A descoberta surpreendeu, já que a Dunaliella salina representa apenas 0,1% do DNA microbiano do lago, bem menos do que se imaginava.

A principal responsável pela coloração rosa é, na verdade, uma bactéria chamada Salinibacter ruber, que produz pigmentos vermelhos chamados bacterioruberinas

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Outras espécies, como Halobacillus, Psychroflexus e Halorubrum, também contribuem com pigmentos. O lago abriga ainda arqueias (organismos antigos, distintos de bactérias), vírus e outros microrganismos cataloga­dos como “poliextremófilos”, capazes de sobreviver a múltiplas condições extremas

Pelo menos 2 das 21 espécies que tiveram genoma completo identificado eram previamente desconhecidas pela ciência

Em outras palavras: o que parecia ser o trabalho de uma única alga é, na verdade, o resultado de uma comunidade microbiana complexa, com dezenas de espécies trabalhando em conjunto.

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O lago funciona como uma espécie de “laboratório vivo” da microbiologia, tanto que o ambiente extremo do Hillier vem sendo estudado também como análogo de Marte, dado que sua composição química se aproxima do que se espera encontrar em alguns ambientes do planeta vermelho.

Por que o lago perdeu a cor em 2022

Em 2022, o oeste da Austrália foi atingido por chuvas extremas atípicas, atribuídas em parte às mudanças climáticas globais. Essas chuvas diluíram significativamente a água do Lago Hillier, reduzindo a salinidade extrema que sustenta a vida microbiana especializada do lago.

O efeito foi imediato e dramático: sem a salinidade extrema, os microrganismos não foram extintos, eles seguem no lago, mas reduziram drasticamente a produção dos pigmentos.

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Os carotenoides e bacterioruberinas, que dão a cor rosa, são produzidos como resposta ao estresse osmótico (excesso de sal). Sem o estresse, os microrganismos não produzem pigmento

Visualmente, o lago passou de rosa-elétrico para tom azul-acinzentado, mais parecido com qualquer outro lago salgado comum

A imprensa australiana, incluindo a ABC News, documentou a mudança em reportagens entre 2022 e 2025. Em 2025, autoridades de parques e operadores turísticos da região seguiam alertando visitantes a não esperar a cor histórica

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Outros lagos rosa pelo mundo

O Lago Hillier é o mais famoso, mas não é único. Existem dezenas de lagos rosa pelo mundo, todos com mecanismo biológico semelhante (presença de microrganismos extremófilos em águas hipersalinas). Entre os mais conhecidos estão:

  • Lago Retba (Lac Rose), no Senegal, a cerca de 35 km de Dakar, separado do oceano por dunas. Foi por décadas um destino turístico principal, mas em 2023 análises químicas detectaram níveis perigosos de nitratos no lago, o que tem ameaçado seu ecossistema e cor
  • Hutt Lagoon, também na Austrália Ocidental, cerca de 10 vezes maior que o Hillier
  • Lago Masazirgöl, no Azerbaijão, usado historicamente para extração de sal
  • Las Salinas de Torrevieja, na Espanha, em ambiente urbano, próximo a Alicante
  • Lago Rosa de Las Coloradas, no México (Yucatán), destino turístico em alta
  • Pink Lake, em Esperance (Austrália), confusamente chamado assim, mas perdeu a cor há mais de 20 anos e nunca recuperou

A maioria desses lagos compartilha o mesmo perfil: alta salinidade, isolamento relativo e comunidade microbiana especializada. Quando qualquer um desses fatores muda, chuvas atípicas, poluição, alteração no nível do mar, o tom rosa pode desaparecer, às vezes de forma permanente.

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