A Noruega está prestes a iniciar uma das obras de engenharia marítima mais ousadas das últimas décadas: a construção do Stad Ship Tunnel, o primeiro túnel marítimo em escala real do mundo, projetado para permitir a passagem de navios de carga, cruzeiros, embarcações de pesca e barcos turísticos por dentro de uma montanha de rocha, evitando o trecho mais perigoso da costa norueguesa, conhecido como Stadhavet.

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A obra, defendida há mais de um século por engenheiros e marinheiros noruegueses, viveu reviravoltas dramáticas nas últimas semanas: foi suspensa em maio de 2026 pelo governo de Jonas Gahr Støre devido ao aumento do custo estimado (que saltou de cerca de NOK 5 bilhões em 2024 para NOK 8,6 bilhões atualmente).

Mas, no início de junho de 2026, os partidos de centro-esquerda do Parlamento norueguês (Storting) chegaram a um acordo para incluir o financiamento no orçamento nacional revisado, e a votação final está prevista para 19 de junho.

Se aprovada como esperado, a obra começa no início de 2027 e tem conclusão prevista para 2031, com mais de 3 milhões de metros cúbicos de rocha a serem escavados da península de Stad. A seguir, o que o túnel vai fazer, por que esse trecho da costa é tão perigoso e como será a operação.

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Por que esse trecho é tão perigoso

A região marítima de Stadhavet, na costa oeste da Noruega, é considerada o trecho mais perigoso e exposto da navegação costeira do país. Não é exagero. Trata-se de uma seção do Mar da Noruega onde a península de Stad, sem ilhas próximas para servir de barreira natural, fica completamente exposta a tempestades, ventos fortes e ondas que vêm em múltiplas direções simultaneamente.

Alguns dados que ilustram a gravidade:

  • O farol de Kråkenes, localizado próximo a Stad, registra mais de 100 dias de tempestade por ano, segundo a Administração Costeira Norueguesa
  • As correntes oceânicas combinadas com a topografia submarina geram ondas que podem chegar a alturas extremas e vindo de diferentes pontos simultaneamente, criando o fenômeno conhecido como mar cruzado, particularmente perigoso para embarcações
  • As condições adversas podem persistir por dias inteiros, forçando navios a esperar, mudar de rota ou enfrentar riscos
  • Desde 1900, mais de 30 pessoas morreram em acidentes marítimos no Stadhavet, segundo registros oficiais
  • Durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos seguintes, dezenas de embarcações naufragaram ou tiveram graves dificuldades na região

Para as comunidades costeiras norueguesas, especialmente as ligadas a pesca, aquicultura e transporte marítimo regular, atravessar Stadhavet é, há séculos, questão de vida ou morte.

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O que será o Stad Ship Tunnel

O Stad Ship Tunnel (em norueguês, Stad Skipstunnel) é uma obra de engenharia que corta a península de Stad de lado a lado, criando uma passagem subterrânea de mar a mar que permite às embarcações evitar inteiramente o trecho perigoso de Stadhavet.

Dimensões oficiais (segundo a Administração Costeira Norueguesa, Kystverket):

  • Comprimento: 1.700 metros de túnel propriamente dito, 2.200 metros se considerada a estrutura completa de aproximação (com as estruturas-guia em cada extremidade)
  • Altura: 49 a 50 metros de pé-direito (de chão a teto interno)
  • Largura: 36 metros
  • Profundidade de água: suficiente para navios com calado de até 12 metros
  • Volume de rocha a ser removido: cerca de 3 milhões de m³ (equivalente a 5,4 milhões de m³ de rocha desmontada, transportada em aproximadamente 750 mil cargas de caminhão)

Para se ter ideia da escala: as dimensões internas do túnel são suficientes para permitir a passagem de navios da Hurtigruten e da Havila, as duas principais linhas de cruzeiros costeiros da Noruega, que transportam tanto passageiros quanto carga ao longo da rota tradicional Bergen-Kirkenes.

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Segundo a Administração Costeira Norueguesa, cerca de 81% do tráfego marítimo atual da região poderá utilizar o túnel.

Como vai funcionar a navegação

A operação do túnel será gerenciada como se fosse um sistema de tráfego aéreo, mas para o mar. O centro de controle de tráfego marítimo ficará na prefeitura de Fedje, no oeste da Noruega.

As regras planejadas para a operação:

  • Passagem gratuita para todas as embarcações elegíveis (sem cobrança de pedágio)
  • Embarcações recebem horários de passagem atribuídos pelo centro de controle, parecido com slots de pouso e decolagem em aeroportos
  • Tráfego comercial terá prioridade, especialmente navios de cruzeiro costeiro das linhas Hurtigruten e Havila
  • Barcos de recreio e outras embarcações menores também poderão usar o túnel, em horários alternativos
  • Limite de velocidade: 8 nós (cerca de 15 km/h) para navios maiores
  • Tempo médio de travessia: aproximadamente 10 minutos
  • Tráfego em mão única, com cronograma alternado entre direções

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