Diversos veículos repercutiram uma pesquisa publicada na revista Science sobre a genética dos neandertais: El País, Telegraph e National Geographic. Nas manchetes se contam histórias de amor entre eles e os Homo sapiens, mas a realidade está longe disso.

Continua depois da publicidade

O DNA herdado dos neandertais ajuda a reconstruir encontros antigos entre eles e os humanos modernos. Mas a genética não mostra romance; o que ela revela é um padrão desigual de herança no genoma.

A pesquisa publicada indica que houve um viés sexual nos cruzamentos entre neandertais e humanos modernos. A análise encontrou excesso relativo de ancestralidade sapiens no cromossomo X dos neandertais.

Continua depois da publicidade

Por isso, uma hipótese ganhou força: homens neandertais teriam tido filhos com mulheres Homo sapiens com mais frequência do que o contrário. Ainda assim, a conclusão exige cautela. Pois a genealogia humana é muito complexa e já foi palco para um Prêmio Nobel de Medicina recente.

Evidência no DNA

O ponto central da pesquisa está no cromossomo X. Em humanos atuais fora da África, há DNA neandertal espalhado por várias partes do genoma, mas ele aparece em menor quantidade no cromossomo X, ligado ao sexo biológico.

Continua depois da publicidade

Esse “vazio” não é novo para a ciência. Durante anos, pesquisadores consideraram que a seleção natural poderia ter eliminado trechos neandertais prejudiciais dessa região. Agora, a hipótese de cruzamentos desiguais se tornou ainda mais intensa.

A pesquisa da Science comparou sinais genéticos em neandertais e humanos modernos. Segundo a AAAS, os autores observaram um excesso relativo de 62% de ancestralidade humana moderna no cromossomo X neandertal.

Continua depois da publicidade

Se homens neandertais tiveram filhos com mulheres sapiens com mais frequência, isso ajudaria a explicar parte do padrão visto no DNA de populações atuais (Foto: Geralt / Wikimedia Commons)
Se homens neandertais tiveram filhos com mulheres sapiens com mais frequência, isso ajudaria a explicar parte do padrão visto no DNA de populações atuais (Foto: Geralt / Wikimedia Commons)

“Romeu e Julieta”

A interpretação popular, motivada por manchetes internacionais, transformou esse padrão em uma “história de amor” pré-histórica. Porém, a leitura científica é mais fria. A genética indica que houve filho, mas não há indicações de relações românticas além do sexo.

O arqueólogo Ludovic Slimak, pesquisador do CNRS, resume o limite da prova em artigo publicado no The Conversation e reproduzido pelo ScienceDaily: “Os genes não falam de amores passados. Eles falam apenas do que sobreviveu.”

Continua depois da publicidade

Cromossomo X complica a história

O cromossomo X não circula como os demais cromossomos. Um pai transmite seu X apenas às filhas, enquanto os filhos recebem o cromossomo Y. Por isso, certos cruzamentos podem deixar marcas diferentes ao longo das gerações.

Além disso, híbridos entre grupos próximos podem sofrer mais pressão da seleção natural nos cromossomos sexuais. Isso significa que a falta de DNA neandertal no X também pode ter relação com fertilidade, sobrevivência ou incompatibilidades biológicas.

Continua depois da publicidade

Essa é a razão pela qual o próprio estudo não fecha a questão em uma única explicação. A hipótese de preferência de parceiros pode ser simples dentro do modelo, mas não elimina migração, organização social ou seleção natural.