Para além dos jogadores e das seleções, os grandes protagonistas do maior torneio de futebol do mundo são os mascotes. De 1966 a 2022, 16 edições do evento tiveram personagens exclusivos, que tiveram a missão de representar a cultura do país anfitrião e aproximar o público do evento. Alguns deles foram ícones históricos, outros geraram polêmicas, mas todos eles marcaram as edições em que estiveram presentes.
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A tradição começou em 1966, na Inglaterra, com Willie, um leão simpático que vestia um uniforme com a bandeira do país e os dizeres “World Cup 66”. O design era simples, típico da época, mas abriu caminho para que cada edição seguinte tivesse um próprio personagem oficial. O que ninguém sabia é que, ao longo das décadas seguintes, alguns desses personagens se tornariam mais famosos pelas polêmicas do que pelo torneio em si.
Laranja que virou ícone
Em 1982, a Espanha rompeu com o padrão de mascotes humanas ao criar Naranjito, uma laranja antropomórfica alegre, vestida com o uniforme da seleção espanhola. A escolha foi feita pelos publicitários María Dolores Salto e José María Martín Pacheco, de Sevilha, que venceram um concurso organizado pelo comitê organizador do torneio.
O objetivo dos artistas era evitar símbolos nacionais óbvios, como o touro, e apostar em uma fruta que representasse tanto a cultura local quanto um dos principais produtos de exportação do país. A criação de Naranjito gerou um modelo inovador de licenciamento global, com mais de 450 contratos que ampliaram o comércio de produtos oficiais para 150 milhões de dólares. 
Mas o começo não foi fácil. As primeiras reações do público espanhol ao Naranjito foram hostis, e termos como“vergonha nacional” foram usados para descrever o personagem. Com o tempo, porém, a laranja conquistou o afeto dos torcedores.
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O sucesso foi tão grande que Naranjito estrelou 26 episódios de uma série de animação exibida na televisão espanhola. Hoje, é considerado um dos mascotes mais icônicos da história do torneio.
Boneco de Lego da Itália
Na Copa de 1990, a Itália apresentou ao mundo o Ciao, um personagem com cabeça de bola de futebol e corpo geométrico nas cores da bandeira italiana, verde, branco e vermelho. Ele tem uma estética parecida com um boneco feito de Lego. 
O nome foi inspirado na saudação informal italiana, que serve tanto para “oi” quanto para “tchau”. Ao contrário dos mascotes anteriores, que apostavam em figuras fofas e infantilizadas, Ciao trouxe um design moderno e abstrato, sem expressão facial reconhecível. A proposta era representar o futebol de forma mais contemporânea, em um torneio que foi a vitrine global da Itália.
No fim, o resultado foi um personagem visualmente marcante, que até hoje divide opiniões: para uns, um ícone do design esportivo; para outros, um dos mascotes mais frios e distantes da história do evento.
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Leão alemão sem calças
Em 2006, a Alemanha escolheu Goleo VI como mascote, um leão de pelúcia acompanhado de Pille, uma bola falante. O nome vinha da junção de “gol” com “leo”, palavra em latim para leão. O personagem foi desenvolvido pela Companhia Jim Henson, criadora dos Muppets, e apresentado ao público em um programa de televisão alemão ao lado de Pelé e Franz Beckenbauer.
Na estreia, o personagem não chamou a atenção, Os problemas, porém, vieram logo em seguida. Primeiramente, a escolha de um leão foi criticada por não ser um animal símbolo da Alemanha, e sim dos rivais históricos Inglaterra e Países Baixos.
Mas a polêmica que mais repercutiu foi o fato de Goleo não usar calças, o que desagradou uma parcela conservadora da população alemã. Além das críticas de design, o mascote enfrentou um desastre comercial, já que a produção dos itens personalizados eram altos, o que os tornou inacessíveis para o público. Como resultado, a empresa licenciadora declarou falência em maio de 2006, dias antes do início do torneio.
Tatu-bola escolhido pelo povo
Quando o Brasil sediou o torneio em 2014, a escolha do mascote seguiu um caminho diferente das edições anteriores. A ideia de usar o tatu-bola partiu da Associação Caatinga, que sugeriu o animal porque é uma especie unica, que está ameaçada de extinção. Alem disso, ela se defende dos predadores ao cruzar o corpo até adquirir o formato de uma bola, o que relembra o futebol.
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A sugestão foi aceita pela FIFA, e o nome do personagem foi decidido por votação popular, com as opções Amijubi, Fuleco e Zuzeco. O tatu-bola recebeu mais de 1,7 milhão de votos pela internet e foi escolhido também para enviar uma mensagem ambiental ao mundo.
O nome Fuleco é uma junção das palavras futebol e ecologia. À escolha teve críticas, e nas redes sociais, muitos apontaram a semelhança do nome com o termo popular “fuleiro”, usado no português brasileiro para designar algo de baixa qualidade. A polêmica foi ignorada pela organização, e Fuleco seguiu como personagem oficial de um torneio que o Brasil encarava como uma oportunidade de mostrar ao mundo a biodiversidade e a relação com o esporte.
De alienígenas a lenços voadores
Nem todos os mascotes da história apostaram em animais ou figuras humanas. Em 2002, Coreia do Sul e Japão apresentaram um trio de mascotes futuristas, Ato, Kaz e Nik, criaturas inspiradas em animes e videogames. Os símbolos mostram a tecnologia e a cooperação entre os países anfitriões.
Em 2022, o Catar foi na direção oposta e apresentou La’eeb, um personagem inspirado em um lenço árabe tradicional, sem rosto definido, capaz de voar pelos estádios em uma versão tridimensional. Para muitos torcedores, a figura era difícil de identificar à primeira vista, mas para a organização, era uma forma de representar a cultura local sem recorrer a estereótipos.
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Ao contar edições com duplas, trios e múltiplos personagens, o número total de mascotes oficiais ligados à história do torneio ultrapassa 20 personagens. Cada um deles carregou o peso de representar um país inteiro diante de bilhões de pessoas.
Alguns ficaram para sempre na memória coletiva do futebol, e outros foram esquecidos antes mesmo do apito final. Mas todos fazem parte de uma tradição que, desde 1966, ajuda a contar a história do maior torneio de futebol do mundo de um jeito diferente: pelo olhar dos personagens.

