A romantização da maternidade esconde dados que a ficção tenta traduzir. No Brasil, estimativas do Instituto Baresi indicam que cerca de 80% dos pais abandonam filhos com deficiência ou doenças raras antes dos cinco anos de idade. É sobre este abismo — o do abandono do companheiro somado ao abandono de si mesma — que se debruça “Não me chame de Mãe”, romance de estreia da enfermeira e pós-doutora em Saúde Pública, Adriana Moro.

Continua depois da publicidade

A obra, lançada pela editora Urutau, nasceu da observação direta e técnica da autora. Com 24 anos de atuação no Sistema Único de Saúde (SUS), Adriana transpôs para as páginas as dores de mulheres que atendeu em consultórios e corredores de hospitais. “A maioria das cenas são constituídas por elementos reais e a própria personagem principal é uma soma de várias mulheres que já passaram por minha vida, por meus atendimentos”, explica Adriana.

O “Duplo Abandono” na pandemia

Ambientado no contexto crítico da Covid-19, o livro acompanha uma jovem mãe solo que enfrenta o isolamento social enquanto recebe o diagnóstico de autismo da filha. Moro explica que o processo de gestação e o parto provocam mudanças profundas na biofisiologia da mulher, o que por si só já a coloca em uma situação de vulnerabilidade. Segundo ela, esse cenário se intensifica ainda mais quando há ausência de rede de apoio, algo que ficou evidente durante a pandemia,

“Contar isso por meio da escrita foi como que um compromisso da minha parte como mãe e mulher que vivencia isso na prática profissional diariamente. Já chorei muito com essas mulheres”, explica Moro.

Continua depois da publicidade

Para Moro, o diagnóstico de uma alteração na saúde do filho frequentemente desencadeia o que ela chama de “duplo abandono”. “A mulher abandona a si mesma como pessoa merecedora de cuidados para dedicar-se ao filho, ao mesmo tempo em que sofre o abandono do companheiro”, afirma. Na prática clínica, os reflexos são visíveis: depressão, abuso de substâncias e até automutilação aparecem como sintomas dessa negligência social.

“A mãe que recebe o diagnóstico de qualquer alteração na saúde do filho passa por um sentimento forte de culpa, acaba abandonando o seu próprio cuidado para dedicar-se ao filho. Esta personagem passa pelo duplo abandono, pois abandona a si mesmo quanto pessoa merecedora de cuidados, assim como o abandono do companheiro, que não sabemos por quais motivos a deixou. Apesar de ser ficção, é a dura realidade que verificamos no dia a dia nos acolhimentos de saúde mental”, pontua a autora.

Resistência e ruptura

O título do livro já entrega a provocação: o direito de ser reconhecida além da função biológica. “Quando a mulher vira mãe ela não pode mais reclamar, ela precisa estar sempre a disposição de uma sociedade que se recusa a olhar para ela como pessoa com outras necessidades”, afirma.

Continua depois da publicidade

Segundo Moro, há muita resistência em separar a “divindade da maternidade” daquilo que realmente a mulher sente e até tem vergonha de falar. A narrativa busca desmistificar a ideia de que a maternidade concede um “bastão de força absoluta”.

Ao ser questionada do que mais a atravessou durante o processo de escrita, Moro afirma que acredita que a “urgência” de olharmos para as mulheres e “pensarmos em políticas públicas e ações individuais e coletivas que possam melhorar a vida e evitar o adoecimento mental pela solidão no cuidado”.

A autora espera que o livro provoque uma conversa fora dos muros acadêmicos, pautando a necessidade de políticas públicas para as cuidadoras e a responsabilização real dos pais. “Quando a escrita levanta o problema, promove discussão e início de possibilidade de mudança, tanto individual como coletiva. Acredito que a leitura possa inquietar e esse já é um começo.”, conclui.

Continua depois da publicidade