A história do Brasil é frequentemente lida sob a ótica dos grandes nomes oficiais, mas o jornalista e escritor Paulo Stucchi, finalista do Prêmio Jabuti com O homem da Patagônia, publicado em 2023, decidiu olhar para as margens. Em seu novo romance histórico, A Dança da Serpente, publicado pela Editora Jangada, Stucchi entrelaça duas narrativas separadas por quase duzentos anos, mas unidas pela perseguição sistemática a mulheres que desafiaram as estruturas de poder de suas épocas.

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A obra de ficção contemporânea investiga como o misticismo feminino é frequentemente rotulado como ameaça política ou religiosa. Luzia Pinta, uma mulher escravizada trazida de Angola para Sabará, em Minas Gerais é o ponto de partida da obra. Conhecida como curandeira e praticante de rituais de calundu, Luzia conquistou sua alforria, mas acabou sendo alvo da Inquisição Portuguesa. A curandeira foi deportada para Lisboa e condenada pelo Santo Ofício.

Escolha de Luzia Pinta

Segundo Stucchi, foi Luzia Pinta que o encontrou. — Comecei de modo displicente a pesquisar sobre misticismo no Brasil, sobre o que se convenciona chamar de ‘bruxaria’, e encontrei a figura histórica de Luzia Pinta. Me apaixonei pela personagem real, e, então, a pesquisa para o livro se concentrou em Luzia e em seu entorno – a Vila de Sabará, a Inquisição — explica o autor em entrevista ao NSC Total.

O livro salta para 1977, em plena Ditadura Militar e o foco da obra recai sobre as gêmeas Cléo e Clarice. Enquanto Clarice se torna a “Sacerdotisa de Sabará” — uma figura mística que atrai multidões e o temor das elites locais —, Cléo tenta fugir de uma herança espiritual traumática.

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A ideia de abordar tanto a Inquisição quanto o regime militar de 1970 surgiu devido aos dois momentos serem épocas em que havia uma “repressão legalizada contra formas dissonantes de pensar e agir”

— O ser humano sempre impôs censura, velada ou explícita, àqueles que pensam diferente da maioria, sobretudo, em pontos sensíveis, como religião e política. Então, ambos os momentos me perecem exemplos extremos de onde o homem pode chegar pelo medo, pela ignorância e pelo fanatismo — explica. 

Associada à inteligência, ao saber e ao desconhecido, a serpente — presente nos rituais de Luzia e Clarice — recebeu um peso maior e o símbolo foi utilizado de um modo diferente pelo autor na história.

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— A serpente é um símbolo místico, cujo significado também está associado à inteligência, ao saber e ao desconhecido. Dizem que quem descobre a verdade sobre algo é sempre expulso de algum paraíso; talvez seja verdade. Quando nos deparamos com algo que desconhecemos ou tememos, o desejo inicial é de eliminarmos. A história da humanidade está cheia de episódios assim. Até hoje vemos isso — disse Stucchi. 

A narrativa propõe um diálogo com a atualidade, abordando temas como a misoginia e o feminicídio. —A perseguição às mulheres persiste como modo de controle. Nossa sociedade foi construída sobre o patriarcado, e dar força às mulheres é quebrar essa ordem de poder — finaliza.