Nem todo prejuízo precisa terminar no vermelho. Em áreas montanhosas do Sudeste do Brasil, produtores encontraram uma saída improvável ao observar o comportamento de uma ave nativa que antes causava perdas na colheita.

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Das fezes do jacu (sim, das fezes) surgiu um dos cafés mais caros e curiosos do mundo. O processo começa quando a ave escolhe frutos maduros no pé e termina, depois da coleta e torra, em uma bebida valorizada no Brasil e no exterior.

Solução criativa para uma ameaça à lavoura

Durante muito tempo, a presença do jacu na lavoura de café era vista como problema, pois a ave costuma se alimentar de grãos maduros, que o agricultor espera meses para colher. Uma simples visita do pássaro significava um grande prejuízo.

Com o tempo, porém, alguns produtores notaram que os grãos ingeridos eram eliminados quase intactos nas fezes. Ao passar rapidamente pelo sistema digestivo do animal, o grão de café sofria alterações químicas que influenciam o aroma e o sabor.

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A partir dessa observação, o jacu se tornou praticamente uma “galinha de ovos de ouro”. Em vez de afastar o pássaro, passou a ser interessante permitir sua circulação na fazenda. Afinal, onde há jacu, pode haver um café raro e de alto valor.

Produção depende da natureza

O processo brasileiro ocorre sem cativeiro. As aves vivem livres na Mata Atlântica e escolhem espontaneamente os frutos que consomem, sem qualquer manejo forçado.

Elas preferem grãos bem vermelhos e maduros. Isso costuma acontecer no inverno, quando há menos frutas disponíveis na floresta, o que aumenta o consumo de grãos de café e, consequentemente, a venda dele.

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Após a digestão, os produtores recolhem manualmente os chamados cafezes espalhados pelo solo. Em seguida, as sementes são lavadas, higienizadas, secas e preparadas para a torra, etapa que exige cuidado e tempo.

Iguaria de luxo

A oferta limitada influencia diretamente o preço. Como a produção depende do comportamento das aves e da coleta manual, o volume é pequeno e irregular. Uma saca de 60 quilos pode alcançar cifras altas no mercado. Já as embalagens menores custam várias vezes mais do que cafés especiais convencionais e, ainda assim, encontram consumidores dispostos a pagar pela exclusividade.

Grande parte da demanda vem da Europa e de outros mercados internacionais, especialmente de consumidores que buscam bebidas raras. Para esse público, provar o produto é ter contato com algo exótico e exclusivo, além de satisfazer a curiosidade sobre o sabor dos “cafezes”.

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Por Vitoria Estrela