No auge da Guerra Fria, o sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 1974 produziu um roteiro digno de cinema: a Alemanha Ocidental, anfitriã e potência capitalista, e a Alemanha Oriental, braço socialista do bloco soviético, caíram na mesma chave.

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O confronto pela terceira rodada da Copa, em 22 de junho, no Volksparkstadion, em Hamburgo, transcendeu o esporte. Era o Muro de Berlim materializado em 90 minutos de futebol, opondo duas nações de ideologias radicalmente contrárias, mas que compartilhavam a mesma língua e uma ferida profunda na história.

A atmosfera no estádio era de pura tensão geopolítica e obsessão por segurança. Com medo de protestos, espionagem ou deserções em massa, o regime comunista da Alemanha Oriental adotou uma linha rígida.

O governo permitiu a viagem de apenas 1.500 torcedores para o lado ocidental. O detalhe: todos eram funcionários do partido altamente monitorados e considerados “politicamente confiáveis”.

Dentro de campo, o favoritismo era todo dos donos da casa. A Alemanha Ocidental ostentava o título da Eurocopa de 1972 e contava com lendas vivas do futebol mundial, como Franz Beckenbauer, Gerd Müller e Paul Breitner.

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O chute de Sparwasser que congelou Hamburgo

Quando a bola rolou, o jogo se mostrou truncado, nervoso e amarrado pela estratégia defensiva do lado oriental. Frustrada, a torcida local começou a vaiar o time de estrelas da Alemanha Ocidental, que não conseguia furar o bloqueio rival.

O empate em 0 a 0 parecia definitivo. Resultado que, inclusive, classificaria ambas as seleções. Até que o impensável aconteceu aos 32 minutos do segundo tempo.

Após um cruzamento vindo da direita, o meia oriental Jürgen Sparwasser dominou a bola no peito entre três defensores ocidentais. Com uma explosão impressionante, ele invadiu a área e soltou uma bomba, vencendo o lendário goleiro Sepp Maier. O gol solitário decretou a vitória histórica da Alemanha Oriental por 1 a 0.

    O placar gerou uma euforia imediata em Berlim Oriental e um silêncio sepulcral no restante do país-sede. O camisa 14 virou herói nacional do regime comunista da noite para o dia.

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    Embora o governo tenha usado o gol como propaganda política, Sparwasser sempre minimizou o feito, dizendo ser apenas esporte. Anos mais tarde, o próprio jogador acabou desertando para o lado ocidental.

    A derrota que virou bênção para o lado ocidental

    Apesar do vexame histórico, o revés acabou sendo uma inesperada bênção disfarçada para os donos da casa. Ao terminar em segundo lugar no grupo, a Alemanha Ocidental evitou a temida chave da morte na segunda fase, que reuniu o atual campeão Brasil e a genial Holanda de Johan Cruyff.

    Além disso, a derrota serviu para chacoalhar os vestiários. O capitão Franz Beckenbauer liderou uma revolta interna, cobrando publicamente mais empenho e mudando a postura da equipe para o restante do torneio.

    A estratégia funcionou:

    • A Alemanha Oriental caiu logo na fase seguinte, vítima do grupo mais difícil;
    • A Alemanha Ocidental acordou para o campeonato, emplacou uma sequência de vitórias e ergueu a taça de campeã mundial na final contra a Holanda.

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    A partida em Hamburgo ficou eternizada como o único confronto oficial entre as duas seleções na história das Copas. Os 90 minutos em que o futebol desenhou perfeitamente as fraturas do século XX.