O fenômeno natural da pororoca — o impacto imponente do encontro entre as águas do rio Amazonas e do oceano Atlântico — serve como cenário e metáfora perfeita para a mais nova obra da escritora paraense Giu Yukari Murakami. Em Flauta de Bambu, lançado pela Editora Rocco, a autora utiliza elementos da fantasia para abordar ancestralidade japonesa e a rica cultura do Norte do Brasil.

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A narrativa acompanha a jovem Aiko, uma adolescente nascida em Belém, no Pará, que recebe de Masumi, sua batchan — termo carinhoso em japonês utilizado por descendentes e pela comunidade nikkei no Brasil para se referir à avó —, a missão de localizar Kimiko, uma amiga da matriarca da família que se perdeu no mar durante os conturbados anos da Segunda Guerra Mundial.

Racismo foi faísca criativa de Flauta de Bambu

A semente para o desenvolvimento do livro Flauta de Bambu surgiu de uma vivência dolorosa da própria autora, que durante o ano de 2020, em meio à crise global do coronavírus, enfrentou de perto episódios de preconceito e racismo antiasiático no Brasil.

— Muitas pessoas associavam o vírus da pandemia a indivíduos de fenótipo asiático. A partir dessas questões, comecei a pesquisar a fundo sobre a diáspora migratória e descobri que muitos descendentes compartilham o mesmo dilema: o sentimento de não saber exatamente a qual sociedade pertencem — aborda Giu em entrevista ao NSC Total.

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Essa crise de identidade e a posterior reconciliação com as próprias raízes foram transferidas para a protagonista Aiko. Na história, os portais abertos pela força da pororoca ajudam a jovem a compreender que ela pertence, simultaneamente, à imensidão da Amazônia e à tradição milenar de seus antepassados.

— A pororoca vem com a intenção de abrir esses portais entre os mundos, mas também de mostrar para Aiko, e acabou me mostrando também, a importância do sentimento de pertencer a algum lugar — explica a autora.

Retrato da imigração no Pará

Flauta de Bambu está intimamente ligada à realidade do Pará, estado que abrigou a segunda maior colônia de imigrantes japoneses no território brasileiro. A inspiração geográfica vem de Tomé-Açu, município do interior paraense fortemente impactado pela imigração e cidade natal da mãe de Giu.

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A bagagem cultural herdada por Murakami está refletida nos detalhes cotidianos inseridos no livro, que vão desde a culinária com sotaque local até o uso do Colonia-go — uma variante linguística própria desenvolvida pelas primeiras gerações de imigrantes que precisaram se adaptar ao português.

— Acho importante trabalhar a linguagem como parte da rotina dos personagens, porque ela reflete muito da nossa vivência. Existem, inclusive, estudos sobre como a língua japonesa precisou ser adaptada quando os imigrantes chegaram sem falar português, dando origem a um dialeto próprio chamado Coloniago, que é a língua da colônia. Abordo um pouco disso no livro, não de maneira didática, mas integrada ao dia a dia do personagem — pontua Giu.

A construção do misticismo da obra une o folclore nortista a entidades do xintoísmo, religião praticada por parte da família da escritora. Um dos destaques são as Kitsunes, as famosas raposas mitológicas de várias caudas que, no xintoísmo tradicional, atuam como mensageiras de Inari, o Deus da agricultura, divindade bastante ligada às atividades agrícolas que os avós da autora exerciam no norte do país.

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— Tenho um carinho muito especial pelas memórias dos meus avós e por suas histórias reais sobre o quão difícil foi a imigração. Como eles não falavam português, cresci ouvindo essas histórias e lendas através dos meus tios. Elas me inspiraram justamente pela noção de que, quando um povo migra, não se desloca apenas a pessoa física, mas toda a sua bagagem cultural e suas crenças —

Fantasia com dilemas reais

Embora o livro seja repleto de magia e portais escondidos desvelados pelo som de uma flauta de bambu, a autora fez questão de manter os pés dos personagens fincados na realidade dos jovens contemporâneos. Ao lado de seu melhor amigo, Nilo — um garoto de matriz religiosa afro-brasileira que sintetiza o equilíbrio entre a fé e o pragmatismo tecnológico —, Aiko precisa lidar com problemas cotidianos severos, como o bullying no ambiente escolar e as constantes brigas familiares de seus pais.

— Gosto de trazer para a fantasia esses temas que são tão presentes na vida de jovens e adultos. Eu abordo essas questões porque não quero que a história da criança ou do adolescente seja baseada apenas no sofrimento, pelo contrário. Essas coisas acontecem no nosso dia a dia, e o livro mostra como lidar com elas — aborda Giu.

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A autora destaca que encontrar o equilíbrio é sua maior preocupação ao escreve e para ela, trata-se de uma jornada de aventura e fantasia que, ainda assim, retrata as situações reais vividas pelos jovens. — Não precisamos varrer esses problemas para debaixo do tapete, precisamos falar sobre eles, mas de um jeito que não tire a diversão que faz parte dessa idade — explica.

Com 328 páginas, Flauta de Bambu conta com o projeto visual e ilustrações assinadas pelo desenhista Hiro Kawahara. Paulistano, Kawahara passou por um intenso processo de imersão e pesquisa conduzido pela autora para capturar fielmente a identidade do Norte, incluindo detalhes minuciosos como o grafismo das embarcações paraenses tradicionais.

O Fio Vermelho do destino

Outro ponto da narrativa é a releitura do Akai Ito, a popular lenda oriental sobre o fio invisível que une almas destinadas a estarem juntas. Comumente associado a enredos românticos na cultura pop, o conceito ganha um novo significado nas mãos de Murakami, uma vez que no livro, o elo conecta a profunda amizade do passado entre a avó da protagonista e sua parceira de infância perdida na guerra.

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A inspiração veio da amizade real que a avó da autora manteve com uma amiga próxima. —Embora essa lenda seja normalmente associada ao romance, ela também pode significar o amor em suas múltiplas formas. Acabei me inspirando muito na relação de amizade delas, que passaram muito tempo longe uma da outra, mas nunca deixaram de se falar — mesmo numa época em que o mundo só permitia a troca de cartas — finaliza.