Um carro raro ocupa a mesma vaga de um estacionamento movimentado em um dos aeroportos mais movimentados do Brasil. Sem placas, com as rodas travadas e coberto por uma camada grossa de poeira, o Honda Civic Coupé 2008 chama atenção de quem passa.

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No edifício garagem do Terminal 2 do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, o veículo virou uma espécie de enigma silencioso há seis anos. Está sem placas, coberto por uma camada grossa de poeira, com travas nas rodas e portas lacradas.

O carro não é um Civic qualquer. Trata-se de um Honda Civic EX-L Coupé 2008, versão de duas portas da oitava geração do modelo. Diferentemente do Civic vendido oficialmente no Brasil, um sedã de quatro portas, essa carroceria tinha proposta mais esportiva e não foi importada oficialmente para o mercado nacional.

Um Civic diferente

Fabricado no Canadá e vendido em mercados como Estados Unidos, o modelo é equipado com motor 1.8 i-VTEC de quatro cilindros, com cerca de 140 cavalos de potência. Na época, chamava atenção pelo conjunto: rodas de liga leve, freios ABS, airbags frontais e laterais, bancos de couro, teto solar elétrico, ar-condicionado, sistema de som e o painel em dois níveis, com desenho futurista para o fim dos anos 2000.

Hoje, no entanto, o que mais chama atenção não é o desempenho nem o acabamento. É o contraste entre o carro raro e o estado de abandono.

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As pistas no para-brisa

Parte do mistério está nos adesivos ainda visíveis no carro abandonado no aeroporto. Um deles indica registro em Nova York, nos Estados Unidos, com selo de inspeção veicular de 2018. Outros documentos colados ao veículo apontam passagens pela América Central, incluindo seguro obrigatório de Belize e controle de entrada da Guatemala para veículos de turistas.

Esses detalhes sugerem que o Civic não chegou ao Brasil por um caminho comum de importação. A hipótese mais provável é que tenha vindo rodando desde os Estados Unidos, cruzando países até alcançar a América do Sul.

A viagem teria sido longa. Para sair de Nova York e chegar ao Rio de Janeiro, o carro poderia ter percorrido algo entre 15 mil e 20 mil quilômetros, dependendo da rota. O trajeto envolveria México, América Central e o trecho mais complicado da viagem: a região do Darién, entre Panamá e Colômbia, onde a Rodovia Pan-Americana é interrompida por uma área de selva. Nesse ponto, o veículo precisaria seguir por transporte marítimo ou balsa antes de continuar pela América do Sul.

Depois disso, ainda haveria caminho por países como Colômbia, Equador, Peru e Bolívia até a entrada no Brasil.

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O sinal de que ele rodou pelo Brasil

Há também uma pista brasileira dentro dessa história. Um ticket de estacionamento de Cabo Frio, na Região dos Lagos, emitido em 2019, foi encontrado no veículo. O detalhe indica que o carro circulou pelo estado do Rio antes de ser deixado no Galeão.

O Civic teria sido estacionado no aeroporto apenas em 2020. A partir daí, a história parece ter congelado. A chave estaria largada sobre o banco do motorista, outro detalhe que aumenta a estranheza do caso.

Por que o carro não é removido?

A resposta passa por uma questão jurídica. Como o veículo está em um estacionamento privado, ele não pode ser tratado da mesma forma que um carro abandonado em via pública. A empresa responsável pelo local precisa seguir procedimentos legais, identificar a titularidade, realizar notificações e buscar uma solução formal.

Em casos assim, o caminho pode envolver medidas judiciais ou extrajudiciais, inclusive uma eventual destinação por leilão, mas nada disso costuma ser simples quando há dúvidas sobre propriedade, origem, documentação e histórico do veículo.

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Dívida de R$ 180 mil

Enquanto o mistério continua, a conta também avança. Considerando uma diária de R$ 82 e um período aproximado de 2.192 dias, o valor acumulado para retirar o carro poderia chegar a quase R$ 180 mil. O número se aproxima do valor de carros novos vendidos no Brasil.

Um Civic Coupé 2008 raro, em bom estado e com documentação regular, teria apelo entre colecionadores e entusiastas. Mas, depois de tantos anos parado, sem placas e exposto à ação do tempo, o custo para recuperar o veículo também pode ser alto.

Pneus ressecados, bateria inutilizada, fluidos vencidos, borrachas comprometidas, possíveis danos internos e necessidade de regularização documental podem transformar a retirada em uma operação cara e complexa.