Apontada como solução para a transição energética, a mineração submarina começa a revelar um custo pouco discutido. Cientistas mediram, pela primeira vez, os impactos diretos da atividade em ecossistemas profundos e os resultados acenderam um sinal de alerta.
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Um experimento de larga escala mostrou queda significativa na diversidade de espécies após a passagem de máquinas de extração a mais de quatro mil metros de profundidade, em uma das regiões mais exploradas do oceano Pacífico.
Embora os metais extraídos sejam essenciais para baterias e tecnologias sustentáveis, o estudo indica que o preço ambiental pode ser mais alto do que se imaginava, levantando dúvidas sobre o ritmo e a regulação dessa atividade.
O que a ciência conseguiu medir agora
Durante décadas, a mineração em águas profundas avançou mais rápido do que o conhecimento científico. Por isso, pesquisadores decidiram acompanhar de perto um teste real de extração no fundo do oceano, algo raro até então.
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O experimento foi conduzido na Zona Clarion-Clipperton, entre o México e o Havaí, região rica em nódulos polimetálicos. Ao longo de cinco anos, cientistas passaram 160 dias no mar coletando amostras antes e depois da mineração.
Os dados, publicados na revista Nature Ecology & Evolution, revelaram uma redução de cerca de 32% na diversidade de espécies nas áreas diretamente afetadas pelas máquinas, um impacto mensurável e imediato.
Por que o fundo do mar é tão sensível
A área analisada fica em uma planície abissal, região extensa e profunda onde a vida depende de detritos orgânicos que descem das camadas superiores do oceano. Qualquer alteração nesse equilíbrio tende a ter efeitos duradouros.
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Mesmo sem mineração, essas comunidades já sofrem variações naturais ligadas à produtividade da superfície do mar. Ainda assim, os cientistas conseguiram distinguir mudanças naturais dos danos causados pela intervenção humana.
Em pequenas amostras de sedimentos, os pesquisadores identificaram mais de 4.300 animais, pertencentes a 788 espécies diferentes, principalmente vermes marinhos, crustáceos e moluscos, revelando uma biodiversidade surpreendente.
Como as máquinas alteram o ecossistema
Nas áreas por onde passaram os coletores de nódulos, a comunidade biológica se tornou mais heterogênea. Segundo os pesquisadores, isso indica que a perturbação física altera os padrões naturais do fundo do mar.
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A macrofauna, formada por organismos maiores e visíveis a olho nu, foi a mais afetada pela atividade. Muitos desses animais vivem associados aos nódulos, que são removidos durante a extração.
Para lidar com espécies ainda sem nome científico, os cientistas recorreram à análise de DNA, usando códigos genéticos padronizados. Assim, foi possível mapear perdas mesmo sem classificações formais.
O desafio da regulação internacional
Como grande parte dessas áreas fica em águas internacionais, a regulamentação cabe à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. O órgão define regras e critérios para a exploração dos recursos do fundo do mar.
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Entre as exigências estão avaliações de impacto ambiental e estudos de linha de base antes do início das atividades. Esses dados são essenciais para separar danos reais de variações naturais do ecossistema.
Com novas evidências em mãos, especialistas defendem mais cautela. A promessa de uma transição energética limpa agora precisa considerar também o que acontece em silêncio, nas profundezas do oceano.
