No último dia 17 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) acendeu um alerta para a saúde pública internacional. A epidemia de Febre Hemorrágica do Ebola, concentrada na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda, foi oficialmente declarada uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). E nesta semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma nota técnica detalhando o nosso cenário e as diretrizes para portos e aeroportos.
Continua depois da publicidade
Mas, afinal, o que o vírus de Bundibugyo, a espécie por trás deste surto atual, representa para o Brasil?
Diferente do surto devastador de 2014 na África Ocidental, causado pela espécie Zaire, o cenário atual envolve a espécie Bundibugyo (BVD). Para nós, cientistas e profissionais de saúde, isso traz um desafio técnico adicional de extrema relevância, pois não há vacina licenciada ou terapia antiviral específica contra a espécie Bundibugyo.
A letalidade observada em surtos anteriores dessa cepa varia de 30% a 50% (embora o surto geral de Ebola na RDC em 2025 tenha atingido uma taxa bruta alarmante de 70,3% ). Diante da ausência de imunizantes para essa variante, o controle do surto na origem depende exclusivamente do tripé clássico da epidemiologia: diagnóstico precoce, isolamento rigoroso de casos e rastreamento minucioso de contatos.
Como o vírus se espalha?
Como uma clássica zoonose, o reservatório natural do vírus são os morcegos frugívoros, aqueles que se alimentam de frutos ou sementes. A transmissão para humanos ocorre inicialmente pelo contato com esses animais ou primatas infectados.
Continua depois da publicidade
Quando o humano é infectado, ele pode transmitir a doença entre humanos ao entrar em contato direto com sangue, secreções, órgãos ou fluidos corporais de pessoas infectadas e sintomáticas, além disso superfícies e materiais contaminados como roupas de cama e vestuário, também são fontes de transmissão. Ele se amplifica em ambientes de saúde com falhas no controle de infecção e em práticas funerárias que envolvem o contato direto com o cadáver.
O período de incubação varia de 2 a 21 dias, e o indivíduo não transmite o vírus enquanto estiver assintomático. Os sintomas iniciais são inespecíficos como febre, cansaço, dor no corpo, evoluindo depois para quadros gastrointestinais severos e, em cerca de 30% dos casos, manifestações hemorrágicas.
Apesar do termo “Emergência Internacional” assustar, a palavra de ordem para o Brasil é vigilância, e não pânico. A OMS classificou o risco como alto em nível regional (na África), mas baixo em nível global.
O Ministério da Saúde acionou o Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais no estágio operacional de mobilização. Tecnicamente, isso significa que não há restrições de viagem, nem o Brasil, nem outros países fora da zona afetada devem fechar fronteiras ou impor restrições comerciais.
Continua depois da publicidade
Medidas extremas baseadas no medo apenas empurram os fluxos migratórios para a ilegalidade, dificultando o controle sanitário. O Brasil possui um fluxo internacional limitadíssimo e não conta com voos diretos ou rotas frequentes de navios de passageiros conectando o país diretamente à RDC ou a Uganda.
No entanto, a Anvisa determinou que portos e aeroportos intensifiquem a triagem de rumores, revisem seus planos de contingência locais e atualizem as equipes sobre o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Além disso, materiais informativos serão amplamente distribuídos nas áreas de desembarque internacional.
Para meus colegas médicos, o alerta serve para aumentar o nosso índice de suspeição clínica. Qualquer paciente que apresente o quadro clínico compatível com febre de início súbito, dores severas pelo corpo associado ao critério epidemiológico fundamental com o histórico de viagem para áreas de transmissão ativa na África Central nos últimos 21 dias, deve ser imediatamente isolado.
Vale lembrar que a notificação ao Ministério da Saúde e às autoridades locais deve ser feita de forma compulsória e imediata (dentro de 24 horas).
Continua depois da publicidade
Sem pânico.
Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.

