VÍTIMA 1 

Alô. Polícia Militar.

— Tá dando briga aqui em casa…o meu pai, ele quer bater na minha mãe. Ele tá ameaçando colocar fogo na casa, vem rápido, pelo amor de Deus. 

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VÍTIMA 2 

 — Alô, pode falar!

— É o meu marido…tava me espancando…

Quem?

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— O meu marido…

O seu marido?

— Eu consegui correr, deixei meus dois filhos ali, eu tô toda machucada…

VÍTIMA 3 

 — Por favor, eu preciso de ajuda, o meu namorado tá me agredindo. Agora! Eu preciso de ajuda! 

— Se você encostar no meu celular vai ser pior…Eu tô te avisando! – diz a voz ao fundo 

— É perto do…Vem logo, é perto do…

Os relatos acima, extraídos de ligações reais ao serviço de emergência da Polícia Militar, ilustram o cotidiano de terror enfrentado por milhares de mulheres catarinenses que convivem com a violência doméstica. Os canais de denúncia, como o 190, buscam salvar vidas e agir antes que seja tarde demais. No entanto, romper o silêncio não pode ser uma obrigação exclusiva de quem já está vulnerável.  Segundo a psicóloga Andréia Isabel Giacomozzi, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a sociedade empurra as mulheres para o feminicídio quando não as escuta

— Se você não ouve, não acolhe essa mulher, você empurra ela para um feminicídio, porque aí você fecha as portas para ela pedir ajuda. Precisamos ter uma rede articulada com profissionais treinados que vão saber acolher essa mulher, não vão duvidar da palavra dela, que vão saber acolher sem vitimizar — diz a especialista. 

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O toque que salva centenas de mulheres 

A rede articulada de Santa Catarina foi o que salvou a vida de Maria*. Após anos tolerando ofensas, abandonos na rua e agressões de um ex-companheiro, decidiu procurar uma delegacia e registrar um boletim de ocorrência. Depois da denúncia, ganhou o pedido de Medida Protetiva de Urgência, previsto na Lei Maria da Penha, que impede que o agressor se aproxime da vítima. Desde então, ela integra o programa Rede Catarina, da PMSC, voltado à prevenção e o combate à violência doméstica. 

A mulher liga para o 190 na primeira agressão e é feito o boletim de ocorrência. Quando o Judiciário concede a medida protetiva, a Rede Catarina tem acesso automático a esses dados, faz o contato e convida a mulher a participar. Desde que o programa nasceu, nenhuma das mulheres tuteladas por nós sofreu feminicídio explica a Tenente-Coronel Naíma Huk, chefe da Secretaria de Programas Institucionais da PMSC. 

Uma das principais ferramentas dessa estrutura é o dispositivo tecnológico do Botão do Pânico, instalado no celular das vítimas. Quando acionado, ele trava todas as outras ocorrências da PM em andamento, tornando-se a prioridade absoluta da corporação. No ano passado, foram registrados mais de 500 acionamentos no Estado, resultando na prisão em flagrante de mais de 300 agressores. 

Em maio de 2025, enquanto trabalhava no caixa de um posto de combustíveis, Maria* viu o agressor estacionar a moto em frente ao  local.  Sem pensar duas vezes, pegou o celular e abriu o aplicativo da PMSC e apertou o Botão do Pânico. Para ganhar tempo até a chegada da polícia, ela passou a errar propositalmente o atendimento aos clientes.

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Peguei meu celular discretamente, continuei o atendimento normal, entrei no aplicativo da polícia e apertei o Botão do Pânico. Ele veio para cima de mim com um balde e arremessou o líquido. Eu não imaginava que fosse gasolina. Quando ele mexeu no bolso e pegou a caixa de fósforo, eu corri relata. 

O agressor a perseguiu até a cozinha, imobilizou-a com um golpe no pescoço e começou a riscar os palitos. 

Eu só escutava o barulhinho do fósforo acendendo. Ele só não conseguiu me queimar porque bati na mão dele e derrubei os palitos. Eu senti que ia morrer. Foi muito horrível. Meu corpo todo queimando, meu cabelo ardendo, minha cabeça, tudo. O pior para mim foi a falta de ar diz. 

A viatura da PM chegou a tempo: invadiu o local e prendeu o homem em flagrante. Já Maria, tenta retomar a vida: 

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O Botão do Pânico foi o que me deu minha vida de volta. As mulheres que sofrem violência têm que denunciar sim, porque esse papinho de “vou mudar” é desculpa, é mentira, não muda, vai ficar pior. E a gente, às vezes, não faz [a denúncia] com medo, pensando que ninguém vai te ajudar, mas ajuda. 

Justiça concedeu mais de 100 mil pedidos de Medidas Protetivas em SC desde 2022

As Medidas Protetivas de Urgências (MPU) são uma das ferramentas previstas pela Lei Maria da Penha para afastar o agressor da vítima em casos de violência doméstica. Em Santa Catarina, cerca de 114.957 mil pedidos foram acatados desde 2022, conforme o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O ano com o maior número de pedidos foi 2025, com 30.642 MPU.

Já entre janeiro e março de 2026, foram 8.731 MPUs cedidas em Santa Catarina. O número é quase 18% menor quando comparado com o mesmo período do ano passado, quando foram concedidas 10.641 MPUs. 

Atualmente, segundo a juíza do TJSC Naiara Brancher, é possível pedir as medidas protetivas de diversas formas, seja comparecendo a uma delegacia de polícia ou virtualmente por meio de formulário eletrônico. A justiça catarinense também possui um balcão para atendimento de vítimas. O prazo para que a medida protetiva seja atendida é de 48 horas. 

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—  É importante que a gente fale que, uma vez que a mulher ingressou nos aparelhos de proteção às mulheres, ela entrou no nosso radar de proteção. Ela vai estar amparada pelas diversas formas de amparo e de ferramentas que nós dispomos para isso salienta a juíza.

O Mapa do Feminicídio, produzido pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), mostra que em apenas 19,7% dos casos registrados no Estado, entre 2020 e 2024, as mulheres assassinadas por razão de gênero possuíam medida protetiva. Para a promotora de Justiça Chimelly Marcon, isso aponta a fragilidade no processo da denúncia: 

O que isso significa? Que elas [as mulheres] não estavam no radar do sistema de Justiça. Por alguma razão, essa mulher não procurou ajuda nos órgãos oficiais, não levou esse contexto de violência para as unidades de saúde, para os equipamentos de assistência social, para as delegacias de polícia. Precisamos fazer um exercício reflexivo porque essa mulher não buscou ajuda. Será que as nossas portas estavam abertas? Será que os equipamentos estavam funcionando nessas localidades?

A delegada Patrícia Zimmermann D’Ávila, coordenadora das Delegacias de Proteção à Criança, Adolescentes, Mulher e Idosos (DPCAMI) de Santa Catarina, acredita que confiar no sistema de segurança pública é o primeiro passo para que as mulheres denunciem logo no primeiro sinal da violência

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Quando a Polícia Civil investiga os crimes de feminicídio, o relato é o mesmo: ela vinha sofrendo violência doméstica familiar por muito tempo. Ela só não denunciou. Em 2024, 90% das mulheres que sofreram feminicídio não tinham um boletim de ocorrência contra o seu autor. Desses homens, muitos já tinham um boletim de ocorrência por violência doméstica familiar contra outra vítima alega. 

Um dos principais canais de denúncia são as delegacias especializadas no atendimento à mulher. Segundo Patrícia, Santa Catarina conta com 43 unidades, divididas entre Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso da Capital (DPCAMI)  e Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM).  Mesmo assim, nenhuma das unidades funciona 24 horas, como estabelece a Lei 14.541/23, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  em 2023. 

O texto informa que as delegacias de atendimento à mulher devem  funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, incluindo feriados. O atendimento deve ser feito, preferencialmente, em sala reservada e por policiais do sexo feminino. A reportagem procurou a Polícia Civil a respeito disso, mas não obteve retorno até a publicação. 

A delegada Patrícia pontua que, com a falta do atendimento presencial,  os canais eletrônicos viram uma alternativa para que as mulheres denunciem os agressores a qualquer hora:

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O atendimento online tem uma série de orientações e de perguntas, como se a vítima aceita contato telefônico, porque às vezes o caso é extremamente grave ou precisa de uma complementação, e o policial pode ligar para a mulher durante ou após o atendimento, às vezes durante a noite ou durante o dia, para pedir informação. Às vezes as pessoas têm um certo receio de procurar [o atendimento online], mas é um registro de ocorrência seguro.

O preço do silêncio 

O silêncio em casos de violência contra mulher pode custar uma vida. Em 2018, a designer e pintora Bianca Wachholz, de Blumenau, foi assassinada aos 29 anos dentro de casa pelo ex-namorado, com um tiro no rosto na frente da própria mãe. 

— Em momento nenhum nós desconfiamos do que ela estava passando. Ela conseguiu esconder o sofrimento de tal maneira que nos passou despercebido. Tanto que, no dia em que ele invadiu a casa, minha esposa abriu a porta para ele —lamenta o pai da jovem, Celso Leonardo Wachholz, de 81 anos. 

Bianca morou com o agressor por cerca de um ano e meio. Nesse período, sofreu agressões físicas e passou até 15 dias sem ir à casa dos pais para esconder as marcas e hematomas. À família, ela informava que estava trabalhando e, por isso, não poderia visitá-los. 

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Segundo o pai, ela ocultava a violência por puro medo, já que o agressor ameaçava matar os pais e a cachorrinha dela caso contasse a verdade. Por isso, detalhes das ameaças e do sofrimento só foram descobertos pela família após o crime, por meio de desabafos antigos com amigas e por mensagens no celular. 

Um dia Bianca decidiu pôr fim no relacionamento e voltar para a casa dos pais, o que foi motivo de alívio para a família, que desconhecia o perigo real. Cerca de 15 dias depois, o assassino pulou o muro da casa, empurrou a mãe, perseguiu Bianca até o banheiro e disparou contra o rosto da jovem. 

Celso viajava para o trabalho no momento do crime. Soube do ocorrido após uma ligação desesperada. O pai lamenta que, se soubesse das ameaças, teria escondido Bianca na casa do irmão, em Florianópolis. O assassino foi condenado a 27 anos de prisão em outubro de 2019. 

— Quando acontece o que aconteceu conosco, a família também morre. Dois anos depois, perdi minha esposa. Se a nossa filha não tivesse todo esse medo que teve do assassino e tivesse nos contado o que estava passando, o desfecho seria completamente diferente — desabafa. 

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Bianca Wachholz foi assassinada aos 29 anos em Blumenau (Foto: Redes sociais)

Blumenau vira referência no combate ao feminicídio 

O cenário em Blumenau, cidade onde Bianca foi morta, apresentou avanços no controle da violência. Em março de 2026, o município completou 16 meses sem registrar nenhum feminicídio. Para Joice Florêncio de Faveri, presidente da OAB Por Elas, isso é reflexo da articulação entre a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Justiça e a assistência municipal. 

— Se ela não tem para onde ir, encaminhamos para um abrigo municipal. Se precisar de emprego, conseguimos capacitá-la profissionalmente para garantir renda e tirá-la da dependência econômica que a prende ao relacionamento — analisa. 

Para a antropóloga Miriam Pillar Grossi, o avanço mais significativo reside na quebra de um tabu histórico: a transferência da culpa.

— A vergonha tem que mudar de lado, e acho que esse é o momento que estamos vivendo hoje. As mulheres sempre se sentiram envergonhadas de sofrer violência e, portanto, não diziam nada. Felizmente, hoje elas estão tendo coragem e apoio. O que antes era silenciado, agora é nomeado: o que acontece com elas se chama violência — salienta.  

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Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social

“Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social” é uma série especial com quatro reportagens produzida pela NSC. Os conteúdos, apurado ao longo de quatro meses, tem objetivo de provocar reflexão e contribuir para o enfrentamento da violência contra a mulher. Ao dar voz a vítimas, familiares e especialistas, a série busca não apenas informar, mas sensibilizar a sociedade e contribuir para a construção de caminhos que ajudem a interromper o ciclo da violência.

*Os nomes foram modificados para preservar a identidade da vítima.