Com a nova adaptação de “A Odisseia”, de Christopher Nolan, a jornada de Odisseu voltou a despertar uma pergunta antiga: os lugares narrados por Homero existiram de verdade ou fazem parte apenas do mito?

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Para sanar essa dúvida, o NSC Total levantou o que sabemos de mais relevante sobre a existência das cinco principais localidades do épico, e que podem aparecer no filme: a cidade de Troia, Ítaca, Ogígia, Edéia e a Ilha dos Ciclopes.

Troia

Na Odisseia, Troia não é a protagonista como na Ilíada, mas o ponto de começo da história. Neste conto, acompanhamos Odisseu retornando para sua casa após a queda troiana e sua jornada de anos para chegar à Ítaca.

Dentre os sítios conhecidos, o melhor candidato real é Hisarlik, no noroeste da atual Turquia. O sítio é reconhecido pela Unesco como o Sítio Arqueológico de Troia, com cerca de 4 mil anos de história e escavações iniciadas por Heinrich Schliemann em 1870.

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Hisarlik reúne uma sequência de cidades sobrepostas, com muralhas, portões, rampas, bastiões e estruturas de diferentes períodos. A Unesco destaca ainda uma cidade baixa de cerca de 30 hectares na Idade do Bronze tardia.

Dentre os locais do mito, este é aquele com a existência mais segura, apesar de detalhes narrados, como o lendário Cavalo de Troia, ainda não serem confirmados (Foto: Brian Harrington Spier / Wikimedia Commons)
Dentre os locais do mito, este é aquele com a existência mais segura, apesar de detalhes narrados, como o lendário Cavalo de Troia, ainda não serem confirmados (Foto: Brian Harrington Spier / Wikimedia Commons)

Ítaca

Ítaca é o centro emocional da Odisseia. É para lá que Odisseu tenta voltar, onde Penélope resiste aos pretendentes e onde Telêmaco espera o retorno do pai. Sem Ítaca, a viagem não tem sentido.

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O candidato tradicional é a atual ilha de Ithaki, na Grécia. A ligação se tornou ainda mais forte quando, em 2025, o Ministério da Cultura da Grécia encontrou na região registros de um complexo helenístico identificado como Odysseion de Ítaca, um santuário ou heroon dedicado a Odisseu.

Fragmento de telha do período helenístico preserva parte do nome de Odisseu, uma das principais evidências do culto ao herói em Ítaca (Foto: Chr. Marambea / Ministério da Cultura Grécia)

Ainda assim, há debate. Uma hipótese recente, ligada ao projeto Odysseus Unbound, defende que a Ítaca homérica poderia corresponder à península de Paliki, em Cefalônia, e não à ilha moderna de Ithaki. Porém, este projeto enfrenta maiores dificuldades.

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Na época, os autores defendiam que Paliki poderia ter sido uma ilha separada na Idade do Bronze, antes de ser ligada a Cefalônia por mudanças geológicas. Estudos posteriores, porém, indicaram que Paliki provavelmente não era uma ilha independente nesse período.

A favor de Paliki, os pesquisadores citam a descrição homérica de Ítaca como um lugar baixo, voltado para o oeste e situado em relação a outras ilhas próximas. Ithaki é mais montanhosa e voltada para o leste, enquanto Paliki se encaixaria melhor nessa leitura (Foto: ChristosV / Wikimedia Commons)
A favor de Paliki, os pesquisadores citam a descrição homérica de Ítaca como um lugar baixo, voltado para o oeste e situado em relação a outras ilhas próximas. Ithaki é mais montanhosa e voltada para o leste, enquanto Paliki se encaixaria melhor nessa leitura (Foto: ChristosV / Wikimedia Commons)

Ogígia, a ilha de Calipso

Ogígia é a ilha onde Odisseu fica preso pelos deuses, sob os cuidados da deslumbrante Calipso. Na obra, o lugar representa uma espécie de pausa sedutora e perigosa: ele poderia ficar ali, mas isso significaria desistir de Ítaca.

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O melhor candidato é a Ilha de Gozo, em Malta. Essa ligação já é utilizada no imaginário local e turístico, especialmente ao redor da Caverna de Calipso. O vínculo, porém, é mais literário e tradicional do que arqueológico.

A Caverna de Calipso é largamente utilizada como um ponto turístico e cartão-postal pelas autoridades locais, apesar de frequentemente confundirem a caverna com a Tal-Mixta (Foto: Ralf Roletschek / Wikimedia Commons)
A Caverna de Calipso é largamente utilizada como um ponto turístico e cartão-postal pelas autoridades locais, apesar de frequentemente confundirem a caverna com a Tal-Mixta (Foto: Ralf Roletschek / Wikimedia Commons)

Um estudo do arqueólogo Anthony Bonanno reforça que a associação entre Gozo e Ogígia é antiga, citada desde autores helenísticos como Calímaco. Ainda assim, o elo segue no campo da tradição: há indícios de contato micênico em Malta, mas nenhuma prova de que a ilha de Calipso tenha sido ali.

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Ilha dos Ciclopes

A ilha dos Ciclopes é um dos pontos mais famosos da Odisseia. É ali que Odisseu encontra Polifemo, o gigante de um olho só, fica preso em sua caverna e usa o nome “Ninguém” para escapar depois de cegá-lo.

O melhor candidato geográfico costuma ser a Sicília oriental, especialmente a região de Aci Trezza, perto de Catânia na Itália. O local é famoso pelos faraglioni, formações rochosas de basalto associadas à chamada Riviera dos Ciclopes.

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Apesar de não existirem ciclopes, esse é um caso de mito etiológico, ou seja, uma narrativa criada para explicar uma paisagem impressionante de rochedos (Foto: gnuckx / Wikimedia Commons)

O sítio arqueológico mais interessante ligado ao mito, embora não seja “a ilha dos Ciclopes”, fica em Sperlonga, na Itália. A Villa de Tibério revelou grupos escultóricos monumentais inspirados na Odisseia, encontrados em milhares de fragmentos no fim dos anos 1950.

Exemplo de esculturas presentes em Sperlonga (Foto: Carole Raddato / Wikimedia Commons)
Exemplo de esculturas presentes em Sperlonga (Foto: Carole Raddato / Wikimedia Commons)

Eéia, a ilha de Circe

Eéia é a ilha de Circe, a feiticeira que transforma os companheiros de Odisseu em porcos. Na narrativa, o episódio marca outro tipo de ameaça: não apenas o monstro físico, mas a perda da identidade humana.

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O melhor candidato tradicional é o Monte Circeo, no litoral do Lácio, na Itália. O promontório fica dentro do Parque Nacional do Circeo e há séculos é associado à morada da maga Circe.

O principal sítio relacionado é a Ara di Circe, uma estrutura no ponto mais alto do promontório. O Parque Nacional do Circeo descreve o local como uma plataforma sobre uma subestrutura e afirma que ela foi identificada como um altar dedicado a Circe (Foto: Egnoka / Wikimedia Commons)
O principal sítio relacionado é a Ara di Circe, uma estrutura no ponto mais alto do promontório. O Parque Nacional do Circeo descreve o local como uma plataforma sobre uma subestrutura e afirma que ela foi identificada como um altar dedicado a Circe (Foto: Egnoka / Wikimedia Commons)

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