As autoridades de Mianmar (antiga Birmânia) divulgaram a descoberta de um rubi raro de 11 mil quilates, com aproximadamente 2,2 quilos, encontrado em meados de abril de 2026 na região de Mogok, no norte do país. A área é reconhecida internacionalmente pela extração de algumas das pedras preciosas mais valiosas do mundo, sendo responsável por até 90% da produção global de rubis, segundo a Associated Press.

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A gema vermelho-púrpura chama atenção pelo tamanho incomum e pela alta qualidade da coloração, característica considerada essencial na avaliação de rubis raros. Segundo o Ministério da Informação de Mianmar, em comunicado oficial reportado pela Bloomberg, trata-se do segundo maior rubi por peso já encontrado em território birmanês. O maior continua sendo um rubi de 21.450 quilates descoberto em 1996, também em Mogok.

A pedra foi classificada pelas autoridades como “extremamente rara” e, segundo o próprio ministério, é considerada mais valiosa que o rubi histórico de 1996, pela combinação de cor e clareza. O governo, porém, ainda não divulgou estimativa oficial de valor nem identidade de quem encontrou a gema. Em 7 de maio, o rubi foi apresentado ao presidente do país, Min Aung Hlaing, na capital Naypyitaw.

Por que o “sangue de pombo” é tão valioso

Os rubis de Mianmar são considerados entre os mais raros e valiosos do mundo, principalmente pela tonalidade intensa conhecida como “sangue de pombo” (em inglês, pigeon blood), um vermelho profundo e vibrante que se tornou marca registrada das pedras extraídas na região.

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Essa coloração única existe por causa da geologia específica de Mogok. As rochas marmóreas da região têm baixo teor de ferro e alta concentração de cromo, combinação que produz uma fluorescência avermelhada intensa raríssima em outros depósitos. Pedras com essa característica costumam alcançar preços por quilate superiores aos de diamantes equivalentes em leilões internacionais.

Mogok: a “terra dos rubis”

Mogok, no norte do estado de Mandalay, opera como região produtora de gemas há séculos, com atividade de mineração documentada desde antes da administração colonial britânica. Nas últimas décadas, a cidade se consolidou como cenário de descobertas históricas no mercado de pedras preciosas. Os registros oficiais incluem:

  • Rubi de 496 quilates (SLORC Ruby), descoberto em 1990;
  • Rubi de 21.450 quilates, encontrado em 1996, o maior por peso já registrado;
  • Rubi de 2.789 quilates (NaSaKa Ruby), encontrado em 2022;
  • Rubi de 11.000 quilates, o atual, encontrado em meados de abril de 2026.

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O rubi mais caro do mundo: Sunrise Ruby

Em 2015, um rubi birmanês de apenas 25,59 quilates (lapidado e montado em anel da Cartier) foi arrematado por US$ 30,42 milhões em um leilão da Sotheby’s realizado em Genebra, na Suíça, estabelecendo recorde mundial até hoje não superado. Conhecido como “Sunrise Ruby” em referência a um poema do poeta sufi Rumi do século XIII, a pedra foi descrita pelo Swiss Gemmological Institute como “um tesouro único da natureza”. O preço final, de aproximadamente US$ 1,19 milhão por quilate, ainda é o recorde mundial em leilão para uma pedra desse tipo.

A nova descoberta de 11.000 quilates, se entrar no mercado, pode redefinir os parâmetros de avaliação de rubis brutos no mundo, embora gemas dessa dimensão raramente sejam lapidadas inteiras. O mais comum é serem cortadas em várias peças menores para maximizar o valor total das pedras finalizadas.

O contexto geopolítico: guerra civil e pedido de boicote

Apesar do impacto da descoberta no mercado internacional, ela acontece em um momento delicado para Mianmar. Segundo informações da Associated Press, o país vive uma guerra civil desde 2021, quando o exército deu um golpe e derrubou o governo democraticamente eleito da líder Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz em 1991. Mogok, justamente onde foi encontrado o novo rubi, foi capturada em julho de 2024 pelo Exército de Libertação Nacional Ta’ang (TNLA), grupo guerrilheiro da minoria étnica Palaung. O controle só voltou ao exército birmanês no fim de 2025, em cessar-fogo mediado pela China.

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Em 7 de maio de 2026, dois dias antes do anúncio da descoberta, o exército empossou um novo governo “civil”, liderado pelo próprio Min Aung Hlaing, em eleições classificadas como “encenadas” por grupos de direitos humanos e pela oposição.

A organização britânica Global Witness e outras entidades de direitos humanos pedem há anos que joalheiros internacionais deixem de comprar pedras preciosas de Mianmar, sob o argumento de que o comércio de gemas birmanesas é uma das principais fontes de receita do regime militar. Empresas como Tiffany & Co., Bulgari e Cartier já se comprometeram a não usar rubis de Mianmar em suas peças desde 2021.

A mineração também é fonte de financiamento para grupos étnicos armados que disputam autonomia no país, fator que ajuda a perpetuar décadas de conflito interno.

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E no Brasil?

O Brasil não está entre os principais produtores mundiais de rubis, mas tem casos curiosos de descobertas e exploração. Em Santa Catarina, por exemplo, a localidade de Escalvado, em Barra Velha, no Litoral Norte, já chamou a atenção de empresários gaúchos e de autoridades locais desde os anos 2000 pela presença de rubis na região. Em 2021, mais de 100 pedras preciosas avaliadas em até R$ 5 milhões foram apreendidas no mesmo município, incluindo topázios, turmalinas e ametistas.

Em escala muito menor que a de Mogok, mas com a mesma lógica de mercado: pedras raras como rubis e esmeraldas movimentam fortunas globais e disputas que vão muito além do brilho.

Por Jean Lindemute