Um pé que durante décadas foi confundido com um pássaro mumificado. Uma perna com possíveis sinais de osteoporose. Outra perna, claramente jovem, pertencente a uma pessoa diferente. Esses são alguns dos achados surpreendentes de uma pesquisa conduzida pela Universidade Semmelweis, em Budapeste, na Hungria, que usou um tomógrafo computadorizado de última geração para escanear seis fragmentos de múmias egípcias com mais de 2,3 mil anos, conservados na coleção do Museu de História da Medicina Semmelweis. Os exames, divulgados em comunicado oficial em 14 de abril de 2026, foram realizados com um equipamento equipado com detector contador de fótons (photon-counting detector) uma das tecnologias mais avançadas atualmente em imagem médica, e revelaram detalhes que análises anteriores das mesmas peças não conseguiam captar. Mais do que diagnóstico de doenças antigas, o trabalho mostra como tecnologias contemporâneas estão reabrindo coleções de museu para a ciência, encontrando informações que ficaram escondidas por décadas dentro de bandagens nunca antes desfeitas.
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O que foi escaneado
A coleção analisada inclui seis fragmentos de múmias egípcias mantidos pelo Hungarian National Museum Public Collection Centre (MNMKK), doados há décadas ao Museu de História da Medicina Semmelweis. Os fragmentos são:
- Duas cabeças mumificadas, uma delas pertencente a uma mulher, ainda envolta em bandagens de linho
- Dois membros inferiores esquerdos, pernas mumificadas
- Um pé, antes confundido com um pássaro mumificado
- Uma mão, cuja origem (criança ou adulto) ainda está sendo determinada
- Dois “fardos misteriosos” (mummy bundles), pacotes de bandagens cujo conteúdo não havia sido identificado em análises anteriores
A datação por carbono-14 dessas peças, feita anteriormente, indicou idades entre 401 e 259 a.C., período correspondente à transição entre o Período Tardio e o início do Período Ptolemaico do Egito Antigo, época em que o país já tinha sido dominado pelos persas e, depois, por Alexandre, o Grande. É uma fase especialmente importante para a história, marcada pela mistura entre tradições egípcias e influências gregas.
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Os principais achados sobre as múmias
Segundo comunicado oficial da Universidade Semmelweis, divulgado em 14 de abril, os primeiros resultados incluem:
1. Possível caso de osteoporose Em uma das pernas analisadas, os exames revelaram redução da densidade óssea consistente com osteoporose, doença que enfraquece o esqueleto e é hoje uma das mais comuns entre idosos. A própria universidade ressalva, no entanto, que a causa exata ainda precisa ser confirmada: pode ser fator relacionado à idade ou um processo patológico específico. Análises detalhadas seguem em andamento.
A descoberta é particularmente interessante porque mostra que doenças consideradas modernas, ligadas ao envelhecimento populacional, já existiam há mais de dois milênios. Pesquisas recentes em outras múmias egípcias também identificaram sinais de doenças cardiovasculares, cáries dentárias e até câncer, sugerindo que parte do que hoje chamamos de “doenças da civilização” tem raízes muito mais antigas do que se pensava.
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2. Membro de pessoa jovem A segunda perna analisada, pelo contrário, indica claramente pertencer a uma pessoa jovem. Esse é um achado importante porque só foi possível determinar com precisão a idade graças à nova tomografia, análises anteriores não conseguiam essa diferenciação. A descoberta também levanta uma hipótese intrigante: os dois membros inferiores esquerdos podem pertencer a pessoas diferentes, em vez de a um mesmo indivíduo, como se imaginava antes.
3. Pé confundido com pássaro mumificado Esse foi um dos achados mais curiosos. Um dos fragmentos da coleção havia sido classificado historicamente como uma cabeça humana e, em análise posterior, foi reclassificado como pássaro mumificado. As novas tomografias mostraram que, na verdade, trata-se de um pé humano adulto, com fragmento ausente no dedão.
A confusão não é novidade no estudo de múmias: animais também eram mumificados pelos egípcios, gatos, ibis, falcões, crocodilos, e a distinção entre fragmentos humanos e animais às vezes era feita por análise externa, sem conhecimento das estruturas internas. Tomógrafos modernos resolvem esse tipo de dúvida em minutos.
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4. Origem da mão sob investigação Uma das mãos analisadas ainda está sendo estudada para determinar se pertence a uma criança ou a um adulto, análise feita com base no tamanho e nas características ósseas. Essa investigação também só é possível com a precisão dos novos exames.
5. Estrutura inédita das bandagens Os exames também revelaram detalhes da estrutura dos envoltórios de tecido que envolvem os fragmentos, múltiplas camadas, padrões de enrolamento e materiais usados em diferentes profundidades. Esse tipo de informação ajuda a reconstituir as técnicas de embalsamamento usadas pelos egípcios em períodos específicos da história.
Quem está conduzindo a pesquisa
A pesquisa é coordenada por Krisztina Scheffer, museóloga-chefe e curadora da coleção do Museu de História da Medicina Semmelweis, em parceria com a Dra. Ibolyka Dudás, do Medical Imaging Center (OKK). Ambas têm experiência em análises arqueológicas com tecnologias de imagem médica.
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“As imagens atuais fornecem uma visão mais detalhada do que nunca e podem revelar novas descobertas cientificamente válidas sobre restos preservados por décadas em nossa coleção”, afirmou Krisztina Scheffer em comunicado da universidade.
E completou, sobre o significado mais amplo do trabalho: “Com base nos resultados obtidos até agora, é evidente que a tecnologia moderna de imagem abre novas perspectivas na pesquisa de múmias. Pode revelar informações ocultas em achados com milhares de anos sem danificá-los.”







