A distância entre o que a crítica reprova e o que vira febre no streaming nunca pareceu tão grande. Em uma era em que notas baixas convivem com estreias no topo global, o chamado hate-watching ajuda a explicar por que tanta gente aperta o play em filmes e séries que já sabe que pode detestar.

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Mais do que uma contradição, esse hábito revela um novo comportamento de consumo. O público não assiste apenas para gostar: muitas vezes, assiste para opinar, ironizar, compartilhar cenas nas redes e não ficar de fora do assunto que domina o feed.

Há algo de curioso, e até divertido, nesse impulso coletivo. Em vez de fugir do conteúdo mal falado, muita gente corre para ele como quem entra numa roda já animada, movida pela vontade de entender o barulho, testar a própria paciência e, claro, ter o que comentar depois.

A necessidade de pertencer à conversa

O hate-watching cresce porque assistir virou também um gesto social. Quando uma série ou filme domina os memes, os cortes no TikTok e as piadas no X, ficar de fora significa perder referências que organizam boa parte da conversa online.

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Por isso, o play nem sempre nasce da expectativa de encontrar qualidade. Muitas vezes, nasce do FOMO (Fear Of Missing Out), o medo de ficar por fora. Quem assiste quer formar opinião, participar da ironia coletiva e entender por que aquele título está sendo tão comentado.

Crítica vs. audiência: casos reais

Os exemplos mais chamativos ajudam a dimensionar esse abismo. Segundo o texto publicado em O Globo, A Mãe da Noiva teve aceitação de 13%, mas somou 77,7 milhões de espectadores, mesmo com críticas discretas e baixa aprovação.

Atlas seguiu caminho parecido. O filme, estrelado por Jennifer Lopez, apareceu com 19% de aceitação e ainda assim alcançou 77,1 milhões de espectadores. Já Lift: Golpe no Ar foi aplaudido por apenas 29% e chegou a 129,4 milhões.

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Nem mesmo títulos com recepção apenas mediana escapam dessa lógica. Donzela registrou 56% de aceitação, mas ultrapassou 143 milhões de espectadores. Na prática, a rejeição crítica não impede que um filme se transforme em um fenômeno de consumo.

O streaming não liga para o seu ódio

Para as plataformas, o ponto central não é o motivo do clique, mas o clique em si. O painel Top 10 da Netflix organiza seu desempenho com métricas como views e horas assistidas, deixando claro que o engajamento é o idioma que realmente importa.

Esse modelo ajuda a entender por que o hate-watching pode ser tão valioso. Se o público entra por curiosidade, ironia ou puro impulso de acompanhar a conversa, o resultado final ainda alimenta os números que sustentam visibilidade, permanência e novas apostas no catálogo.

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No fim, o streaming transforma até o desprezo em ativo. E, enquanto milhões continuarem assistindo para odiar em grupo, filmes e séries massacrados seguirão encontrando um caminho rápido até o topo.

Por Matheus Ribeiro