Pode parecer improvável, mas Portugal e Espanha estão girando lentamente. O deslocamento é discreto, medido em milímetros por ano, porém suficiente para mudar a leitura sobre como o território reage à pressão vinda do sul.
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A constatação aparece em um estudo divulgado recentemente na revista científica Gondwana Research.
A pesquisa mostra que a Península Ibérica não apenas acompanha o avanço da placa da Eurásia. Ela também sofre um empurrão lateral ligado ao choque com a placa africana, o que provoca um giro gradual no sentido horário.
Um território sob compressão
O trabalho foi coordenado por Asier Madarieta, pesquisador da Universidade do País Basco, e publicado em janeiro de 2026. A equipe analisou como o solo é comprimido na área onde as duas placas se aproximam.
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Essa aproximação ocorre a uma taxa de 4 a 6 milímetros por ano. Para comparar, é algo próximo ao crescimento mensal de uma unha. Parece insignificante, mas acumulado ao longo do tempo altera a distribuição de forças no subsolo.
Segundo Madarieta, a fronteira entre as placas não é simples de traçar. “O limite entre as placas ao redor do Oceano Atlântico e da Argélia é muito nítido, enquanto no sul da Península Ibérica o limite é muito mais difuso e complexo”, disse, conforme o UOL.
Isso significa que a pressão se espalha por uma área ampla.
Onde a pressão se espalha
A faixa afetada vai do Golfo de Cádis ao mar de Alborão. Em vez de uma única rachadura visível, existem várias fraturas menores distribuídas pela região.
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Diferentemente da Falha de San Andrés, conhecida por marcar de forma clara o contato entre placas na Califórnia, o sul da Península Ibérica apresenta um mosaico de estruturas que compartilham a tensão.
O estudo aponta ainda que a colisão a oeste do Estreito de Gibraltar exerce papel importante.
“Acreditamos que isso possa afetar as tensões transmitidas para o sudoeste da Península Ibérica, empurrando-a do sudoeste e fazendo-a girar no sentido horário”, afirma o pesquisador.
Como os dados foram obtidos
Para identificar esse movimento, os cientistas reuniram medições de satélite e registros sísmicos. Estações GNSS, semelhantes a um GPS de alta precisão, conseguem detectar deslocamentos mínimos na crosta terrestre.
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Imagine marcar um ponto fixo no chão e perceber, anos depois, que ele se moveu alguns milímetros. É esse tipo de variação que os aparelhos registram.
Madarieta chama atenção para a limitação temporal das informações disponíveis.
“A maioria dos dados precisos de terremotos remonta apenas a 1980, e os dados precisos de satélite a 1999, enquanto as mudanças geodinâmicas são medidas em milhões de anos”, afirma, segundo o UOL.
Por isso, diferentes conjuntos de dados foram analisados em conjunto.
Reflexos no risco de terremotos
Compreender onde a crosta está sendo comprimida ajuda a indicar possíveis áreas de atividade sísmica. Locais como os Pireneus Ocidentais e a região entre Cádiz e Sevilha aparecem como pontos de interesse.
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A energia acumulada não parece concentrada em uma única grande falha, mas distribuída em diversas estruturas menores. Isso torna o cenário mais complexo.
Embora a área não esteja entre as mais sísmicas da Europa, o passado mostra que tremores intensos podem ocorrer.
O terremoto que devastou Lisboa em 1755 é lembrado como exemplo de que o território, apesar de aparentemente estável, está longe de ser imóvel.
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Por Vitoria Estrela

