Duas coisas não faltaram no capítulo de estreia de Quem Ama Cuida: emoção e orçamento. Dá para perceber, sem muito esforço, que a Globo abriu os cofres para contar essa história. A sequência da enchente em São Paulo, responsável por atravessar a vida de Adriana (Leticia Colin), deu ao primeiro capítulo um tamanho de evento. Era televisão querendo parecer grande de novo e conseguindo.

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Mas orçamento nenhum sustenta novela sem verdade. E Leticia Colin entrega justamente isso: verdade. Adriana não surge como uma heroína pré-fabricada. Ela soa como alguém que existe. Tem desespero no olhar, cansaço no corpo e humanidade. Leticia é dessas atrizes que não têm medo de “desembelezar” a personagem para aproximá-la da vida real. E isso vale ouro. Tony Ramos, por sua vez, faz aquilo que ele sempre faz: entra em cena e imediatamente eleva o material. Há atores que interpretam personagens. Tony parece carregar uma história inteira só na maneira de respirar.

O principal tropeço do capítulo esteve justamente naquilo que uma estreia mais precisa dominar: a transição entre núcleos. É natural que os primeiros capítulos funcionem como vitrines, apresentando rostos, conflitos e relações. Mas o drama de Adriana era tão pulsante, tão magnético, que qualquer corte para Pedro (Chay Suede) ou Arthur Brandão (Antonio Fagundes) parecia reduzir a temperatura da narrativa. Não por deficiência dos atores, longe disso, mas porque a novela encontrou cedo demais seu coração emocional. E, quando voltava para ele, o resto parecia intervalo.

Isabel Teixeira apareceu pouco, mas bastou. Pilar tem cheiro de personagem perigosa, dessas que entram devagar e quando o público percebe já dominaram a novela inteira. Isabel possui uma inteligência cênica rara e parece entender perfeitamente que grandes vilãs não precisam gritar para assustar. Curioso perceber também como a Globo vem acertando mais nas mocinhas do que nas antagonistas nos últimos anos, justamente o oposto do que acontecia na era de ouro das novelas, quando as vilãs roubavam a memória afetiva do público.

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Visualmente, Amora Mautner mostrou que não pretende fazer uma novela ensolarada. Quem Ama Cuida tem fumaça, concreto, chuva, sombras e uma melancolia urbana que conversa com o caos emocional dos personagens. Existe coragem em apostar novamente numa novela mais escura, menos colorida artificialmente. A abertura evita firulas e a trilha sonora ajuda a costurar essa sensação de cidade viva e perigosa.

Uma das escolhas mais bonitas foi a retomada dos depoimentos no final do capítulo. Quem viu Páginas da Vida sabe a força que isso pode ter. Manoel Carlos entendia algo que a televisão moderna parece ter esquecido: às vezes, o público não quer apenas assistir uma história, quer se reconhecer nela. Esses relatos têm potencial para transformar a novela em espelho. E talvez seja justamente isso que Quem Ama Cuida queira ser: menos um conto de fadas e mais um retrato emocional de gente tentando sobreviver aos próprios desastres e recomeçar!

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