A morte de Odete Roitman em Vale Tudo é uma das cenas mais marcantes da história da teledramaturgia brasileira. Ela será citada sempre que alguém for falar ou escrever sobre a forma como as novelas impactam a vida dos brasileiros.

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Nesta sexta-feira (17), o mistério será resolvido. O remake de Vale Tudo de 2025 chega ao último capítulo e está na hora de sabermos quem fez a vilã dar adeus ao público, sendo assassinada em sua suíte no Copacabana Palace.

Se em 1988 a pergunta “Quem matou Odete Roitman?” parou o Brasil, em 2025 a questão é outra: como a autora Manuela Dias fará para mudar o desfecho que permanece até hoje na memória do público?

A performance de Debora Bloch é um consenso. A atriz, como apontam as críticas, conseguiu o impossível: não manchou o legado de Beatriz Segall, não fez uma imitação e criou uma nova Odete mais carismática.

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Sua vilã é mais debochada, ganhou novas camadas e tramas inéditas, como um filho com leucemia e outro com deficiência, mantido em segredo por anos. Essa reconfiguração da personagem é a chave para entender por que o seu fim pode ser diferente.

Lista de suspeitos não para de aumentar

A cena do crime na versão atual foi meticulosamente armada para confundir. Uma extensa lista de personagens estavam no hotel no dia fatídico. Maria de Fátima (Bella Campos), depois de ser sequestrada a mando da vilã, Heleninha (Paolla Oliveira) e Tia Celina (Malu Galli), já cientes da crueldade de Odete sobre o destino de Leonardo (Guilherme Magon), também estiveram no quarto da bilionária.

O marido César (Cauã Reymond) também passou por lá. E, para homenagear ou despistar os fãs do original, o casal Marco Aurélio (Alexandre Nero) e Leila (Carolina Dieckmann), a assassina da primeira versão, também estava hospedado, com Leila demonstrando aflição após uma conversa do marido com a vítima.

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Essa complexa teia de suspeitos contrasta com a genialidade e a sorte que envolveram o mistério de 1988. Na época, o segredo foi mantido a sete chaves. Para evitar vazamentos, o autor Gilberto Braga e sua equipe escreveram cinco versões do final, com cinco assassinos diferentes.

A cena da revelação foi gravada poucas horas antes de ir ao ar, no dia 6 de janeiro de 1989. Leila, vivida por Cássia Kiss, foi uma escolha de última hora, um trunfo para surpreender o público após o plano original de culpar Marco Aurélio ter vazado para a imprensa. O impacto foi avassalador. Durante 13 dias, o Brasil só falou nisso, criando bolões e paralisando diante da TV para conhecer a culpada, que matou a vilã por engano.

Mas seria possível replicar esse fenômeno hoje? “Jamais. Outros tempos, outra sociedade, mas principalmente outra televisão”, afirma Nilson Xavier, pesquisador e crítico de televisão. Para ele, a audiência pulverizada e os novos hábitos de consumo impedem que o evento televisivo tenha o mesmo impacto. “Nos anos 80, a TV aberta reinava absoluta, sem concorrentes”, pontua.

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Lucas Martins Neia, doutor em comunicação pela ECA-USP e professor do Senac São Paulo, concorda que “parar o Brasil” talvez seja um termo forte, mas acredita que a nova versão vai ter capacidade de repercutir intensamente junto ao público e à esfera pública de modo geral. Ele observa que a novela conseguiu furar “aquela bolha dos telespectadores tradicionais de telenovela” e está circulando “muito bem em ambientes distintos”, incluindo redes sociais e no boca a boca das ruas. Para ele, a telenovela das 9 da Globo “ainda é uma instituição capaz de estar no dia a dia das pessoas”.

Xavier vai além e defende que a autora não só pode, como deve, mudar o assassino. “Ela já mexeu na novela toda! Dos últimos três meses de trama, quase nada restou da novela original. Não reconheço na “Vale Tudo” atual a “Vale Tudo” de 1988. Aliás, acho que a autora Manuela Dias deveria mexer o máximo, mudar tudo. Afinal, deixou de ser um remake, é um reboot”, avalia o especialista.

A visão de que a novela é um sucesso comercial, mas uma obra muito distante da original, reforça a tese de um novo final. As motivações dos personagens foram alteradas.

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Segundo Lucas Martins Neia, a atual Vale Tudo funciona mais como um reboot (uma nova telenovela a partir de algumas estruturas da versão de 88) do que um remake (uma versão daquela novela de 88). O especialista aponta que a adaptação da autora Manuela Dias demonstrou uma passagem onde o melodrama assumiu o primeiro plano.

Enquanto o original (1988) apresentava o realismo e a discussão moral ligada à sociedade (o âmbito público) de forma muito forte, na versão de 2025 há uma opção por uma narrativa mais melodramática, focando mais na discussão da moral no âmbito privado. “Essa nova abordagem se utiliza da característica do melodrama de buscar a surpresa a todo custo, mais do que uma certa lógica, além de fazer uma higienização da primeira Vale Tudo“, destaca.

Se a Leila de 1988 matou por um impulso de ciúmes, a Heleninha e a Celina de 2025 têm contra Odete um rancor profundo e justificado pela manipulação da vida de Leonardo. O sofrimento de Maria de Fátima foi potencializado. Qualquer um desses desfechos seria um assassino mais verossímil do que alguém que matou por engano como na versão original.

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Lucas Martins Neia afirma que a autora Manuela Dias é capaz de pensar em uma nova situação, em uma nova saída para isso, pois ela já vem se afastando em muitos aspectos da versão original. Contudo, ele pondera que criar um novo marco é “um lugar difícil” e, dependendo da saída encontrada, a surpresa pode gerar mais críticas do que ser algo que o público ache interessante.

Enquanto a Globo se esforça para guardar o segredo na era da internet, o público se divide entre o desejo de nostalgia e a ânsia por surpresa. A morte da vilã em 2025 é o teste final para a novela de Manuela Dias: provar que, mesmo partindo de um clássico, ainda há espaço para o novo.

A resposta, ao que tudo indica, está nas mãos de uma nova geração de personagens com velhas e novas contas a acertar com a versão 2025 de Odete Roitman.

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Compare a cena da morte de Odete Roitman com a versão original de Vale Tudo

Último capítulo de Vale Tudo será editado horas antes de ser exibido