Um romance que emociona, provoca reflexões profundas e revisita discussões urgentes sobre Alzheimer, acessibilidade, racismo e identidade. “O Que Me Falta”, do escritor e arquiteto Mário Cezar da Silveira, se destaca pela forma singular como aborda o Alzheimer: pela perspectiva da própria protagonista, Ana. A obra mergulha nas memórias e perdas da personagem, explorando não apenas os desafios da doença, mas também os conflitos de uma vida marcada por barreiras, sejam elas físicas ou sociais.
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A inspiração do autor veio da convivência com sua sogra, que também enfrentou o Alzheimer. No entanto, a trama é ficcional, e Ana carrega sua própria história. Na velhice, conforme o Alzheimer avança, sua relação com o tempo se torna cada vez mais fragmentada, obrigando seus familiares a lidarem com o desafio de preservar sua dignidade enquanto ela perde a capacidade de reconhecer.
Em entrevista ao NSC Total, Mario Cezar destaca o que o motivou a colocar Ana como voz das próprias angústias.
— Geralmente os livros apresentam uma terceira pessoa falando sobre o Alzheimer. No caso de ‘O que me Falta’, eu fiz questão de analisar as perdas funcionais da Ana com ela mesmo falando sobre suas angústias. Isso surpreendeu os leitores e passaram a entender um pouco mais o seu parente com Alzheimer por causa dessa característica do livro — explica Mário.
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Na obra, o autor quis ainda provocar reflexões no leitor, tanto sobre o Alzheimer, como para a acessibilidade da pessoa idosa.
— Eu não quis simplesmente passar emoções do texto, mas passar reflexões sobre quem nós somos e provocar o leitor a pensar, não simplesmente a ter prazer na leitura. Então, quando o livro marca de alguma forma e provoca quebra de paradigmas, esse livro, mesmo que ele não seja um best-seller, ganha um grande valor, porque provoca consciência coletiva da mudança para uma sociedade melhor —. destaca.
Alzheimer e acessibilidade
O livro aborda questões estruturais que impactam a vida dos idosos, como a acessibilidade urbana e arquitetônica. A discussão da acessibilidade se reflete nas adaptações realizadas no ambiente, que foram pensadas para garantir a máxima autonomia de Ana dentro de casa. Degraus foram eliminados, os corredores ampliados e barras de apoio instaladas estrategicamente – no banheiro, ao lado da cama, próximo ao sofá onde ela costumava assistir televisão. O objetivo era minimizar riscos e permitir que ela se movimentasse com segurança, preservando sua independência pelo maior tempo possível.
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— O Alzheimer da Ana é um Alzheimer tranquilo como foi o da minha sogra. Eu não quis transformar o Alzheimer num drama, mas sim chamar a atenção sobre o Alzheimer e acessibilidade. Eu queria que o leitor refletisse sobre as perdas que a Ana teve e o que a acessibilidade influenciou na liberdade dela de ir e vir, assim como o que foi feito para que ela tivesse essa liberdade — explica Mário.
Durante a escrita do livro, Mário realizou um estudo sobre as barreiras físicas em uma casa, que podem ser eliminadas para facilitar a vida de um idoso. Contudo, o autor enfatiza que, muitas vezes, as cidades não são projetadas para o envelhecimento populacional, o que pode tornar a rotina dos idosos ainda mais desafiadora. E para resolver esse problema, é preciso expandir essa discussão e, inclusive, cobrar o poder público, para a acessibilidade da porta para fora, em calçadas, por exemplo.
— Assim como a Ana, outras pessoas idosas e com Alzheimer vão circular pelas calçadas já que ela é fundamental para que o idoso faça atividade física, por exemplo. Contudo, há muitas dificuldades nessa locomoção e as calçadas não lhes dão segurança e há o risco de que a pessoa caia. Quedas são um dos maiores fatores de morte de idosos, então o idoso sabendo disso e em como as calçadas são ruins, eles não as utilizam e nós não cobramos o poder público à qualidade das calçadas — enfatiza.
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Ser feliz a cada dia
Além da temática central, “O Que Me Falta” também é um livro que fala sobre o peso das escolhas e das consequências que elas trazem. Ao longo da trama, acompanhamos os personagens lidando com arrependimentos, mágoas e segundas chances. A relação entre Helen e Ana, por exemplo, é uma representação poderosa do desejo de reconciliação e da dor de um tempo perdido que nunca poderá ser recuperado por completo.
A filha de Ana, Helen, é expulsa de casa pelo pai por se relacionar com um homem negro e engravidar dele. Anos depois, quando tenta retomar o vínculo com a mãe, enfrenta o avanço do Alzheimer. Sua busca pela reconciliação não é apenas um reencontro com Ana, mas uma tentativa de ressignificar sua própria história, entendendo o passado para encontrar seu lugar no presente.
— Só 20 anos após ser expulsa de casa pelo pai, ela volta a se relacionar com a mãe. E quando elas estão começando a se relacionar novamente, a Ana começa a ter Alzheimer. Então a Helen entra num dilema de voltar a conhecer e ter afeto a mãe ao mesmo tempo que começa a perder a Ana devido ao Alzheimer—.
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A história também acompanha Elio, um personagem que descobre sua identidade transgênero em um contexto familiar conservador. — Eu quis tocar nesses assuntos também, porque, assim como o direito da pessoa com deficiência e a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade, nós temos que entender que a sociedade é múltipla e única. Não existem duas pessoas iguais. E você, com as suas características, tem que ser aceito, porque você é você —, finaliza o autor.
O “Que Me Falta” está disponível para compra no site oficial do autor, mariocezar.com, onde os leitores podem adquirir a obra diretamente e, em algumas ocasiões, até receber exemplares autografados. Além disso, o livro pode ser encontrado na Amazon, tanto na versão física quanto digital.
Ficha Técnica:
Título: O que me falta…
Editora: Letra D’Arte
ISBN: 978-65-00-84676-8
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 172
Preço: R$40,00
Onde encontrar: Amazon
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