A transição para a vida adulta é, por si só, um processo intenso e para o escritor mineiro João Souza, de 16 anos, essa fase foi o combustível para a construção de um universo denso e sombrio em sua nova obra, Caçada Selvagem – Desejo. Publicado pela Flyve Editora, o livro narra uma trama de lobisomens, utilizando elementos da fantasia para investigar questões como o luto, a perda e o peso das decisões morais.

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Aos 16 anos, o autor construiu uma narrativa onde o horror é a base de toda a estrutura emocional da história e onde ao transitar entre o suspense psicológico e a romantasia, desafia a convenção de que romances em histórias sobrenaturais servem apenas para aliviar a tensão.

— O principal desafio para escrever Caçada Selvagem – Desejo foi intensificar o horror para aliviar o romance — pontua o jovem escritor. Para ele, a dinâmica entre os protagonistas Gale e Heather funciona sob a premissa perigosa de que o amor “torna tudo muito mais arriscado. Então, quanto maior o vínculo, maior o medo da perda”. O livro, “Caçada Selvagem – Desejo”, é apenas o ponto de partida de uma jornada literária planejada para sete volumes.

O autor explica que utilizou um contraste de ritmo, inserindo obsessão e conflito na narrativa, “para que o romance fizesse parte da tensão psicológica e não uma fuga dela”. Essa escolha narrativa reflete a jornada da protagonista Heather, que, ao se mudar para Church Hill, é obrigada a questionar suas próprias crenças.

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O amor, a magia e a organização politizada

Para o autor, equilibrar o romance de modo que ele não se tornasse uma “fuga” da tensão psicológica, mas sim uma parte integrante dela foi um dos grandes desafios. — No meu livro, o amor torna tudo muito mais arriscado. Então, quanto maior o vínculo, maior o medo da perda — afirma Souza.

Em vez de lobos baseados puramente na magia, Souza optou por criar uma organização estruturada e politizada. A trama é movida pela divisão entre os lobos “Alfas” e os “Nômades”. Enquanto os Alfas representam a linhagem, o controle, a centralização da força e a proteção aos humanos — usando leis para se diferenciarem de “animais completos” —, os Nômades simbolizam o oposto, a liberdade que caminha lado a lado com a instabilidade e a vulnerabilidade.

O autor ressalta que “tornar o sobrenatural doloroso dá peso e consequência à história”. Segundo ele, a dor é um recurso para aproximar o leitor e evidenciar que a transformação dos personagens — como a protagonista Heather, que muda suas crenças ao se mudar para Church Hill — é profundamente psicológica.

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Moralidade e o dilema da redenção

Um dos pontos de maior destaque na escrita de Souza é a recusa em criar vilões unidimensionais. O autor aponta que os antagonistas de sua história são, acima de tudo, indivíduos moldados por traumas de infância, vontades próprias e, principalmente, pelo instinto de sobrevivência.

— Mesmo nos casos em que chegam perto de cruzar uma linha irreversível, a história mostra de onde isso vem, não para justificar, mas para tornar tudo ainda mais real — afirma.

Esse mesmo realismo é aplicado aos protagonistas, Gale e Heather. O relacionamento dos dois é pautado pelo excesso de moralidade, onde ambos tentam ser “bons além do limite” em uma tentativa constante de redenção por erros do passado. Essa busca, no entanto, coloca os personagens em um caminho perigoso, onde o autor questiona se a redenção vem da perfeição ou da simples aceitação das próprias falhas.

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O autor atrás da caneta, ou do teclado

Conciliar a construção de um universo literário denso com as demandas do terceiro ano do ensino médio não é uma tarefa simples. Souza admite que o equilíbrio é desafiador e que a escrita acaba ocupando seus intervalos escolares.

Entretanto, ele enxerga esse processo como um escape saudável. — Escrever alivia a pressão escolar, especialmente por ser um universo mais denso e psicológico, um gênero que eu particularmente gosto muito — conclui.