“Emir, sabes que jogador eu teria sido se não tivesse usado cocaína?”. A pergunta foi feita há quase 20 anos, por Diego Armando Maradona, a Emir Kusturica, cineasta e documentarista sérvio que por dois anos acompanhou o argentino, entrevistando-o e relembrando seus anos de glória como jogador de futebol.

Continua depois da publicidade

Receba notícias do DC via Telegram

É simbólico que o tri argentino venha exatamente na primeira Copa do Mundo realizada após a morte de Maradona. Pequenino, na pobre comunidade da Villa Fiorito, nos arredores de Buenos Aires, ele já sonhava que seria campeão do mundo com a camisa de seu país.

Realizou a profecia em 1986, no México, e sonhou em voltar a ser campeão – dentro de campo, em 90 e 94; e fora dele, em todas as Copas seguidas, até a última. Las finales que perdimos, ¡cuantos años las lloré!

É simbólico que o tri argentino venha exatamente na primeira Copa do Mundo realizada após a morte de Diego Maradona, mas talvez ainda mais simbólico seja que o último título tivesse sido exatamente na última Copa realizada antes do nascimento de Lionel Messi. É como se a existência simultânea de ambos confundisse as forças naturais do universo.

Continua depois da publicidade

Muitas Copas de vida

Em 2022, a alma de Diego Maradona, já fora de seu corpo terreno, parece ter procurado outro templo para se instalar. O Messi que vimos nessa Copa foi a versão mais Maradoniana que poderia existir. Há de ter muita sorte para gostar tanto de um esporte e calhar de viver na mesma época em que sua melhor versão.

Lionel Messi segurando troféu de melhor jogador da Copa do Mundo e beijando a taça do mundial
Messi, enfim, pode beijar a taça da Copa do Mundo (Foto: Franck Fife/AFP)

Nesse Mundial, Messi foi o craque e o líder. Como de costume, controlou o tempo, o espaço, fez gols e deu assistências.

Mas dessa vez foi além, também soube peitar o técnico rival e não deixou que ninguém olhasse de cima para seu país sem ouvir um ¿qué mirá bobo?

Nesse Mundial, Messi não foi apenas o melhor, ele foi a soma dos dois melhores. Não acredito em reencarnações, pero que las hay, las hay.

Continua depois da publicidade

No domingo, o 2 a 0 até os 80 minutos estava mesmo muito estranho. Era até ali uma vitória nada argentina. Eles, sem saberem como proceder perante um sucesso tão despreocupado, resolveram gritar Olé, aos 79 minutos de jogo. Quase que como resposta, Mbappé decidiu transformar o roteiro: dois gols em três minutos. Agora sim, como em 78 e 86. Uma final com a cara da Argentina.

Depois do segundo gol dos franceses, que começou após uma rara falha de Messi, o camisa 10 argentino baixou a cabeça – como de costume – mas dessa vez o fez esboçando um quase sorriso. Como? No pior momento? Talvez porque esse quase sorriso tenha vindo do outro espírito que habitava aquele corpo, o espírito mais irreverente.

Talvez fosse o próprio Maradona lembrando da final de 36 anos antes, em 86, quando sua equipe também abriu 2 a 0 no placar e tomou o empate dos alemães. Em seu livro autobiográfico, Maradona disse que não sentiu medo após esse empate, porque sabia que eram melhores e que conseguiriam o terceiro gol. Foi dele o passe decisivo aos 85 minutos para que Burruchaga avançasse e garantisse o título.

Sim, talvez o quase sorriso tenha sido esboçado pelo outro espírito que habitava aquele corpo, o espírito que comandava a perna direita. E foi com ela, com a direita, e não com a canhota, que na prorrogação Messi marcou o terceiro.

Continua depois da publicidade

Enfim chegou! A Copa do Mundo é de Messi. É da Argentina

Agora sim, um título com a cara e com o jeito da Argentina. Um roteiro que nós brasileiros ali reconhecemos de imediato, afinal quantas Libertadores perdemos para eles dessa forma? Uma final de Copa de Mundo com cara de Libertadores da América. Faltavam ainda 10 minutos do tempo extra quando eles já prendiam a bola na linha de escanteio, do jeito que sempre gostaram de fazer. Furariam ela se pudessem.

Residente, vocalista da banda porto-riquenha Calle 13, no clipe de ‘This is Not America’, representa a Argentina como um casal dançando tango em meio ao caos. E o caos veio quando Mbappé empatou novamente a partida aos 118 minutos.

A reviravolta, o sofrimento, a tragédia, tudo isso está no tango. E também na história do povo argentino. Uma história que não esconde suas poeiras e seus reveses, mas que os encara, os relembra e luta para jamais revivê-los. A dança, o tango, também podem ser formas de luta. Messi puxou a coreografia, Emiliano Martínez dançou em meio ao caos, os franceses erraram o passo, e listo. ¡Ya está, campeones! A imortalidade é viver os sete jogos.

A pergunta retórica de Maradona a Kusturica já não paira mais. O jogador que ele poderia ter sido se não tivesse usado cocaína é o jogador que nestes últimos 30 dias vimos vestindo a mesma camisa com o número 10 preto cortada por faixas brancas e celestes. Y al Diego, en el cielo lo podemos ver, alentándolo a Lionel.

Continua depois da publicidade

Leia também

Luva de Ouro no Catar, Emiliano Martinez torceu para a Argentina da arquibancada em 2018

Festa argentina em Florianópolis tem culto a Messi, erva mate e buzinas

Destaques do NSC Total