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    Spinner, o brinquedo divertido e desafiador que ganha o mundo com a promessa de aliviar o estresse 

    Sucesso entre os mais jovens, o objeto é estimulante visualmente e pode exercitar a atenção, mas a ciência ainda não respalda o marketing terapêutico criado em torno dele

    07/06/2017 - 11h55 - Atualizada em: 21/06/2019 - 21h49

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    Por Redação NSC

    Conheça o spinner, brinquedo de girar entre os dedos

    — Não tem nenhuma evidência de que (o brinquedo usado), a longo prazo, promova a saúde mental e a diminuição do estresse. Mas ao mesmo tempo não é um horror, não precisa entrar em pânico, não há evidência que também faz mal— diz o médico Marcelo Trombka, instrutor de mindfulness (uma prática, com seus benefícios comprovados, que busca trazer a pessoa para o momento presente, aliviando a ansiedade).

    Basicamente, o objeto, uma febre nos Estados Unidos, é composto por quatro esferas: uma no meio e três outras ligadas a essa esfera central. Entre os dedos, os donos do spinner giram essas rodas com a mão e aproveitam as sensações sensoriais de observar o brinquedo virando. É moda também tentar fazer manobras ou mantê-lo girando por longos períodos de tempo.

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    Nas lojas online, nos shoppings e nas tendas de ambulantes do centro de Porto Alegre, o spinner — pode aposentar o primeiro nome do brinquedinho que os atendentes das lojas vão entender — vem em inimagináveis combinações de cores e com características diferentes. Alguns têm as rodas ocas, outros foram feitos para girarem mais, há os que são mais leves. Os preços variam: de R$ 8 a R$ 99. No centro da Capital, o mais barato encontrado pela reportagem era de R$ 40, e os com luzes, R$ 60.

    — Peguei na sexta-feira no atacado para comprar e hoje já não tem mais nada—relata o vendedor Emerson de Oliveira Peres, de 28 anos.

    No YouTube, a popularidade do spinner já se mostra consolidada: um dos vídeos, em português ensinando manobras já tem mais de 1 milhão de visualizações. Em outro vídeo, um menino chamado Lorenzo senta na cama, gira o brinquedo entre o polegar e o indicador e tenta jogá-lo de uma mão para outra sem que o objeto pare de girar. As tentativas mostradas em vídeo já somam mais de 700 mil visualizações.

    Foi pelo YouTube que Nicole Brusamarello Assis, 11 anos, descobriu o spinner. No último domingo reservou R$ 60 da mesada para garantir o seu em um passeio pelo shopping. Comprou um rosa com luzes coloridas.

    Na sua escola, é a única até agora com o brinquedo. Em pouco tempo, aprendeu a girar com um dedo só. Ela também cita os tais benefícios terapêuticos:

    — Eu fico bem concentrada quando fica girando. E no escuro é mais legal ainda, dá para ficar vendo as luzes.

    O fluminense João Pedro Vieira, de 21 anos, administrador do grupo ¿Fidget Hand Spinner Brasil¿ no Facebook, vai além — diz que usa o brinquedo para largar de mão alguns hábitos:

    — Eu uso como uma distração para parar de roer as unhas e de mexer um pouco no celular.

    Com mais de 1,1 mil membros, a página, criada no começo de maio, é o local de reunião dos brasileiros para a troca de dicas sobre os objetos. Alguns mostram os seus construídos de forma artesanal, outros dão dicas e macetes.

    Em uma das postagens do grupo, um menino pergunta qual seria o melhor rolamento para fazer o spinner rodar mais vezes ou pelo maior tempo possível.

    — É com ele em movimento que você sente o "prazer", os efeitos visuais, que variam de acordo com a luz— relata outro menino.

    "Viciante!", diz um terceiro, no Facebook.

    A criadora do fidget spinner é uma americana do Estado da Flórida, conta reportagem do jornal britânico The Guardian. Nos anos 1990, Catherine Hettinger criou o brinquedo em uma tarde preguiçosa com a neta, que hoje tem 30 anos.

    Vítima de uma doença que causa fraqueza muscular, ela passou a colar diferentes objetos juntos na busca de uma brincadeira que pudesse fazer com a neta mesmo sem se mover muito ou precisar de muito esforço. As duas criaram o primeiro spinner, e juntas se divertiam girando o objeto. Porque não tinha mais dinheiro para manter a patente, abriu mão. Hoje, não ganha um real pela invenção.

    A própria criadora, em entrevista ao The Guardian, afirma que fica feliz de ver o boom do spinner. Especialmente porque o brinquedo seria usado em escolas para crianças com autismo e déficit de atenção.

    Pelo mundo, os médicos afirmam que não há como comprovar os seus benefícios. Na aula, por exemplo, usar o brinquedo em meio à explicação da professora não traria mais concentração.

    — O brinquedo tem um estímulo visual muito forte, a criança não vai conseguir ouvir a professora falar e girar o brinquedinho, isso prejudica o aprendizado — afirma Marcelo Trombka, médico e instrutor de mindfulness.

    Para o especialista, o brinquedo é parecido com vários outros, como o ioiô. Ele afirma, que, possivelmente, pode ser usado por profissionais, de forma multidisciplinar para atender a demandas de crianças com dificuldades, como mais uma ferramenta. Sem instrução ou qualquer tipo de indicação profissional, não há como concluir que há qualquer benefício.

    Em termos de atenção plena, a prática do mindfulness, que serve para auxiliar na estabilidade da atenção e na ansiedade, poderia até, em tese, ser feita com o brinquedo, diz Marcelo. No mindfulness, o praticante busca uma âncora para manter sua atenção no momento presente. Prestar atenção no brinquedo de forma curiosa poderia trazer um momento de mindfulness, mantendo o praticante focado no presente. Mas isso teria de ser feito em um local tranquilo e reservado, e com a intenção de fazer aquela prática.

    Por isso, quem quiser girar pode se divertir. Mas a ciência ainda não respalda o marketing terapêutico feito em torno do spinner.

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