Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos escavaram uma rede de túneis sob o gelo da Groenlândia para um projeto militar que permaneceu secreto por décadas. A revelação tardia desses planos transformou a maior ilha do mundo em um dos territórios mais associados a mistérios, bases militares e teorias da conspiração — algumas com origem em fatos históricos reais, outras alimentadas pela imaginação coletiva da internet.

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O projeto secreto sob o gelo que deu origem às conspirações

Em 1959, no auge da disputa entre Estados Unidos e União Soviética, foi construído o Camp Century, uma base instalada sob a camada de gelo do noroeste da Groenlândia. Apresentado oficialmente como um centro de pesquisas científicas no Ártico, o local escondia um objetivo bem mais sensível.

Documentos desclassificados décadas depois revelaram que o Camp Century fazia parte do Projeto Iceworm, um plano ultrassecreto para criar uma vasta rede subterrânea capaz de abrigar até 600 mísseis nucleares, que poderiam ser deslocados sob o gelo para evitar detecção inimiga. O projeto acabou abandonado quando se constatou que o gelo era instável demais para sustentar a estrutura a longo prazo.

A existência desse plano, mantido em sigilo por tanto tempo, se tornou a principal base factual para inúmeras teorias sobre o que mais poderia estar escondido sob a Groenlândia.

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A presença militar que mantém o território sob atenção constante

Mesmo após o fim da Guerra Fria, a Groenlândia continuou sendo estratégica para a defesa do Ocidente. No noroeste da ilha opera a Pituffik Space Base — anteriormente conhecida como Base Aérea de Thule — administrada pelos Estados Unidos em cooperação com a Dinamarca.

A instalação abriga sistemas de radar de alerta antecipado contra mísseis balísticos e equipamentos de monitoramento espacial. Analistas apontam que, com o avanço do degelo no Ártico, a importância da região tende a crescer ainda mais, tanto pelo surgimento de novas rotas marítimas quanto pelo acesso a minerais considerados essenciais para a indústria tecnológica.

Onde os fatos terminam e começam as teorias da conspiração

A combinação de isolamento geográfico, histórico de sigilo militar e acesso restrito abriu espaço para especulações que se espalharam principalmente pela internet. Uma das mais recorrentes envolve supostas bases nazistas secretas construídas durante a Segunda Guerra Mundial.

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De fato, a Alemanha nazista manteve estações meteorológicas no Ártico, inclusive na Groenlândia, para apoiar operações militares. No entanto, não há qualquer evidência histórica de cidades ocultas, atividades esotéricas ou buscas por artefatos misteriosos, como sugerem versões conspiratórias populares em fóruns e vídeos online.

Outra teoria frequente fala na existência de cidades subterrâneas gigantes ainda ativas, geralmente inspiradas nos túneis reais do Camp Century, mas sem qualquer comprovação técnica ou documental.

As teorias mais curiosas que circulam na internet

Entre as narrativas mais extremas estão aquelas que associam a Groenlândia à chamada “Terra Oca”, defendendo a existência de entradas para um mundo subterrâneo habitado por civilizações avançadas. Algumas dessas versões tentam explicar o desaparecimento das colônias vikings da ilha entre os séculos X e XV — um fenômeno que historiadores atribuem a mudanças climáticas, isolamento econômico e dificuldades de sobrevivência.

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Também circulam histórias sobre artefatos tecnologicamente avançados, múmias “fora de seu tempo” e até contatos extraterrestres. Essas teorias não são reconhecidas por instituições científicas e costumam ser tratadas como crenças populares ou manifestações da cultura conspiratória digital.

Há ainda uma narrativa de tom quase satírico, mas levada a sério por pequenos grupos online, que afirma que a Groenlândia seria uma “farsa geográfica”. O argumento se baseia no contraste entre o nome (“Terra Verde”) e a paisagem gelada, além do desconhecimento geral sobre a população local — tese facilmente refutada por registros históricos, censos oficiais e imagens de satélite.

Por que a Groenlândia desperta tanto fascínio e desconfiança

Especialistas em comunicação apontam que regiões remotas, pouco povoadas e de difícil acesso tendem a concentrar teorias da conspiração. No caso da Groenlândia, esse fenômeno é reforçado pela combinação de importância militar, interesse econômico crescente e sensação de território inacessível.

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A ilha voltou ao centro do debate internacional nos últimos anos, inclusive após declarações do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestando interesse na compra do território — proposta rejeitada pela Dinamarca, mas que reacendeu especulações sobre o futuro estratégico do Ártico.

Entre documentos desclassificados e imaginação coletiva

A história da Groenlândia mostra como projetos reais, mantidos em sigilo por décadas, podem alimentar narrativas que misturam fatos, desconfiança e ficção. Entre bases militares ativas, documentos desclassificados e teorias que se espalham pela internet, a maior ilha do mundo segue despertando curiosidade global — tanto pelo que já foi revelado quanto pelo que permanece escondido sob o gelo.

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